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Religião

24/05/2018 | domtotal.com

A saída dos bispos do Chile (ou uma reflexão sobre poder e sexualidade na igreja)

Concentração do poder, num grupo exclusivamente de homens e cujo trabalho está protegido por uma 'aura de santidade', faz com que se perca o verdadeiro fim para o qual se tornaram pastores.

Os 34 Bispos da Conferência Episcopal do Chile apresentaram sua renúncia em bloco ao Papa argentino, 'para que ele decida livremente em relação a cada um'.
Os 34 Bispos da Conferência Episcopal do Chile apresentaram sua renúncia em bloco ao Papa argentino, 'para que ele decida livremente em relação a cada um'. (Vatican Media)

Por Javier Celedón Meneghello*

A crise da Igreja chilena continua sendo notícia. Algumas semanas atrás tivemos notícias do encontro que o Papa Francisco realizou por vários dias com três vítimas do sacerdote Fernando Karadima e como isso impactou tanto no Chile como no mundo inteiro.  As razões e o histórico que suscitaram essa reunião pode ser acessado aqui.

A semana passada Francisco recebeu a toda a Conferência Episcopal do Chile. Convocados de forma extraordinária, os bispos viajaram a Roma onde ouviram as reflexões que o papa tinha realizado depois do informe de dom Scicluna (bispo maltês, a quem Francisco enviou no mês de fevereiro, semanas depois dele mesmo ter visitado o Chile) e da escuta das vítimas. Francisco, quem na carta aos bispos do Chile já tinha manifestado seu enfado pelas informações pouco verazes recebidas, esta vez vai mais longe e aponta a um problema maior. Segundo o papa, a igreja chilena teria mudado de eixo, esquecendo-se do papel profético que a caracterizou durante a ditadura militar, para passar a ser uma igreja auto-centrada e preocupada mais de si que de sua tarefa evangelizadora.  As palavras de Francisco são categóricas:

“Dói constatar que, neste último período da história da Igreja chilena, esta inspiração profética perdeu força para dar lugar ao que poderíamos chamar uma transformação no seu centro [...] a Igreja se tornou seu próprio centro de atenção. Deixou de enxergar e de assinalar ao Senhor para se enxergar e ocupar de si”[1].

No mesmo documento, Francisco mostra algumas consequências e concretizações dessa mudança. Segundo o papa, este deslocamento fez com que a Igreja se tornasse mais clerical; que adquirisse uma “psicologia de elite” e se esquecesse dos pobres; que não atendesse devidamente às vítimas (negando-lhes atenção e chegando inclusive à destruição de provas) e que não desse a devida atenção à formação nos seminários, entre outros assuntos que o pontífice aponta. Em suma, a Igreja chilena esteve mais preocupada em cuidar de sua honra que de anunciar o Evangelho, o que a levou a cometer graves e sérios delitos, perdendo toda credibilidade.

As palavras do papa tiveram repercussões. Na 6ª-feira passada (18), os bispos chilenos voltaram para o Chile com a notícia de ter deixado nas mãos do papa a decisão sobre o futuro de cada um deles. Num evento sem precedentes, toda a conferência episcopal de um país reconhecia sua responsabilidade, pedia desculpas à Igreja e agradecia a perseverança e valentia das vítimas. 

A volta ao país não está sendo calma para os bispos. A sensação de amplos setores do país é que, sem o esforço e determinação das vítimas e sem a reação tardia do papa, nada teria acontecido. Para piorar as coisas, os escândalos continuam: novas acusações e outros conflitos sacodem à debilitada hierarquia chilena.

Diante deste cenário, cabe se perguntar: o que está acontecendo no país vizinho? Como explicar esta série de erros e fracassos? Embora uma avaliação profunda esteja ainda para ser realizada, penso que seja necessário refletir sobre um assunto fundamental na Igreja, e isto é relevante não somente para a chilena.

O papa Francisco salienta na sua carta que o problema que a igreja chilena vive tem a ver com uma “perda do espírito profético”. Segundo ele, a falta de horizonte na missão do Evangelho seria o elemento fundamental para entender a cadeia de erros e de delitos nos quais sacerdotes e bispos incorreram. Embora eu concorde que este aspecto é relevante, parece-me necessário acrescentar dois aspectos.

Um primeiro elemento a considerar: a forma como está distribuído o poder na Igreja. Apesar dos esforços inovadores do Concílio Vaticano II, a Igreja continua sendo um espaço altamente hierárquico e onde o poder está concentrado em poucas mãos. Esta concentração do poder, num grupo exclusivamente de homens e cujo trabalho está protegido por uma “aura de santidade” fazem com que se perca mais fácil a visão de conjunto e o verdadeiro fim para o qual foram designados pastores. Em definitivo, a concentração de poder num grupo tão hermético faz com que em situações de crise se privilegie a defesa corporativa e não a verdade das vítimas, por exemplo. Isto acontece e tem acontecido não somente no Chile. Em muitos lugares do mundo – vale lembrar o filme Spotlight, ganhador do Óscar em 2015 – há evidências de ocultamento, de proteção a sacerdotes abusadores, de destruição de provas e um longo et cetera. Tudo isto, claro, com a suposta “boa intenção” de proteger o nome e a fama da Igreja. Aqui vale lembrar o antigo ditado que reza que “de boas intenções, o inferno está cheio”. 

Um segundo elemento fundamental: o modo como a Igreja entende a sexualidade. No documento que o papa entregou aos bispos chilenos pouco ou nada se diz sobre este assunto, o que mostra que, de fato, a sexualidade continua a ser um tema que a Igreja não sabe tratar do modo apropriado. Isto não é surpresa para ninguém: grande parte dos fiéis simplesmente não exercem sua sexualidade conforme à doutrina católica; outros se sentem profundamente excluídos porque são tidos como pecadores. Estes dois elementos, somados à transversalidade geográfica dos abusos sexuais, fazem com que uma recolocação sobre a realidade sexual na Igreja seja urgente.

Sexualidade e poder, poder e sexualidade. Dois elementos conectados e sem os quais não é cabível esperar que verdadeiras mudanças aconteçam, nem na igreja chilena, nem na universal. Não basta o “ser profético”. Lamentavelmente, existem importantes antecedentes de padres e bispos que se destacavam por seu espírito evangélico e que tiveram também sérios problemas de condutas sexuais e, inclusive, de abusos a menores.

[1] O documento foi revelado por um meio de comunicação chileno, e pode ser consultado aqui. A tradução é do autor desta coluna.

*Javier Celedón Meneghello é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia e mestrando em Sociologia e Antropologia pela UFRJ.

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