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29/05/2018 | domtotal.com

A realidade dos passarinhos

Tudo naquele instante era absolutamente real, inclusive, talvez, a minha imaginação.

Certamente podia sentir também sob suas patas e através do contato a antena no topo da construção.
Certamente podia sentir também sob suas patas e através do contato a antena no topo da construção. (Reprodução)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Nesta época do ano os dias costumam ser muitos bonitos. Parece que brilham mais em uma combinação esplêndida de um céu azul de absoluta perfeição  iluminado  por um sol de brilho infinito quente e frio. Já faz um certo tempo, em um final de tarde cheio de luz e sentado à beira de um lago ao fundo de uma pousada no interior de Minas Gerais, observei um passarinho que se impunha soberano e de peito estufado no topo da construção. A coisa mais linda! Certamente dono do mundo! Podia se ver com clareza que a brisa quase fria e suave lhe movimentava as penas do peito proeminente enquanto, majestoso, olhava em uma direção e em outra, talvez procurando alguma coisa, talvez apenas saboreando a vida que lhe foi concedida.

Tudo naquele instante era absolutamente real, inclusive, talvez, a minha imaginação. Até porque não se pode afirmar, a priori, que a imaginação não seja também uma coisa real ou pelo menos uma forma de realidade. Mas para o passarinho tudo aquilo era certamente real. Ele percebia a movimentação de suas penas embaladas pela brisa e as luzes magníficas refletidas pela natureza à partir do sol. Certamente podia sentir também sob suas patas e através do contato a antena no topo da construção e sobre o qual se mantinha em equilíbrio perfeito, tão perfeito quanto o design de seu próprio corpo. Não sei dizer que tipo de percepção ele tinha de sua própria respiração, mas ela parecia ir muito além de um simples sopro de vida.

Mas dentro desta "realidade absolutamente real", quase infinita em si mesma e nos seus detalhes, o passarinho não tinha a menor ideia que aquela construção era uma obra de engenharia, fundamentada em cálculos estruturais. Não tinha a menor ideia de que a antena captava transmissões e notícias de uma sociedade humana e organizada ou, pelo menos,  parcialmente organizada..... Não tinha a menor ideia de que as notícias nas TVs  falavam, dentre uma infinidade de temas, também  de um mercado financeiro movimentado em um mundo real virtual e que a luz e o calor que por ele eram percebidos são formas diferentes de uma mesma energia básica dissipadas em forma de ondas de diferentes frequências assim como os sinais de TV e os sinais de radio. E vejam, caros leitores, que evidentemente todas estas outras coisas reais estavam diretamente sob suas pequenas patas, inclusive pelo tato do contato direto, sobre a sua pequena e divinamente ornamentada cabeça e inclusive através de seu próprio corpo. Realidades absolutamente presentes e paradoxalmente paralelas no mundo do passarinho.

Olhei então para o lago e pensei nos peixes. Pensei na superfície da água como o limite de todo um mundo e de toda uma existência de peixe. Pensei em Charles Darwin e pensei na ciência. Voltei a realidade do "meu" passarinho e pensei que se a "ciência dos passarinhos" fosse igual à dos homens a maior parte do seu entorno não  poderia ser estudada ou considerada em seu sentido stricto sensu. Pensei em como são corretos e racionais nossas abordagens e metodologias científicas e ao mesmo tempo e paradoxalmente como elas podem ser algumas vezes tão incompletas e arrogantes. Não pude deixar de pensar que sempre, dentre todos os humanos passarinhos, somente aqueles que puderam transcender a noção comum de realidade, de diversas formas e em diversas "dimensões", permitiram que a realidade dos outros humanos passarinhos se tornasse também um pouco maior. Os mundos de todos os tipos de passarinhos serão sempre do tamanho da percepção que eles puderem, e no caso de muitos, quiserem, ter de tudo daquilo que os cercam.

*Jose Antonio de Sousa Neto é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE).

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