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05/06/2018 | domtotal.com

Reaproveitamento de resíduos sólidos da construção civil no Brasil

O elevado volume de entulho retrata a existência de graves problemas no processo construtivo tradicional.

Essa realidade observada na maioria de nossos municípios implica em prejuízos para toda a sociedade brasileira.
Essa realidade observada na maioria de nossos municípios implica em prejuízos para toda a sociedade brasileira. (Reprodução)

Por Lino de Freitas

A indústria da construção civil é uma das atividades de maior importância para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Entretanto, deve-se levar em conta que, associada a esta atividade nos dias de hoje, ocorre expressiva geração de resíduos sólidos, o que acarreta diversos impactos ambientais. Tais impactos se devem não apenas pelo elevado consumo de recursos naturais não renováveis, como também pela degradação da paisagem quando do descarte dos resíduos em aterros sanitários, ou nos chamados lixões.

Estima-se que a geração de Residuo de Construção e Demolição (RCD) no Brasil varia de 0,3 a 0,7 tonelada de entulho por habitante todos os anos, o que representa o dobro da geração per capita de resíduos sólidos domiciliares, e 2/3 da massa de resíduos sólidos urbanos gerada nos municípios brasileiros. Esta grande massa de resíduos, quando mal gerenciada, degrada a qualidade de vida urbana, sobrecarrega os serviços municipais de limpeza pública e pode trazer riscos à saúde das populações.

O elevado volume de entulho gerado pela indústria da construção civil brasileira retrata a existência de graves problemas no processo construtivo tradicional adotado pela maior parte das construtoras que operam no país. Dentre eles destacam-se o notável e injustificado desperdício de matéria-prima nas obras e a destinação clandestina dos resíduos gerados nos conhecidos “bota-fora”. Essa realidade observada na maioria de nossos municípios implica em prejuízos para toda a sociedade brasileira.

O reaproveitamento de RCD tem sido encarado de forma séria em escala mundial. Países da União Européia, da Escandinávia, Canadá e EUA, entre outros, têm buscado alternativas para minimizaros impactos ambientais, sociais e econômicos dos problemas decorrentes da geração de RCD, com vistas a atingir sustentabilidade do setor construtivo. Nesse contexto, os fatos a seguir são dignos de menção:

  • na União Européia a taxa de reciclagem de RCD é da ordem de 70%, subindo para mais de 80% no caso da Bélgica e da Holanda;
  • do total de cerca de 240,8 milhões de toneladas gerados em 2002 na Alemanha, mais de 85% foi reaproveitado;
  • em 2008, o estado da Flórida, EUA, fixou em 75% o nível de reciclagem de RCD como meta a ser atingida até o ano de 2020.

Em nosso país, embora seja conhecida a existência de usinas de reciclagem de RCD nas cidades de São Paulo-SP, Belo Horizonte-MG, Londrina-PR, João Pessoa-PB e Petrolina-PE, pode-se considerar que ainda são modestas as iniciativas para o reaproveitamento desses materiais. O autor é de opinião que a instalação de tais unidades, se devidamente incentivada pelos diferentes níveis governamentais, pode vir a se tornar uma excelente oportunidade de negócio. A Figura 1 ilustra a composição média dos RCD gerados no Brasil.

No Brasil, a Resolução 307 do Conselho Nacional de Meio Ambiente - Conama - de 2002, fornece a seguinte classificação para os RCD:

  • Classe A - são aqueles reutilizáveis ou recicláveis como agregados, tais como:
  • da construção, demolição, reformas e reparos de pavimentação e de outras obras de infraestrutura, inclusive dos solos provenientes de terraplanagem;
  • da construção, demolição, reformas e reparos de edificações: componentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas de revestimento etc.), argamassa e concreto;
  • do processo de fabricação e/ou demolição de peças pré-moldadas em
  • concreto (blocos, tubos, meio-fios etc.) produzidas nos canteiros de obras;
  • Classe B - são os resíduos recicláveis para outras destinações, tais como: plásticos, papel, papelão, metais, vidros, madeiras e gesso;
  • Classe C - são aqueles para os quais ainda não foram desenvolvidas tecnologias ou aplicações economicamente viáveis que permitam sua reciclagem ou recuperação;
  • Classe D - são resíduos perigosos oriundos do processo de construção, tais como tintas, solventes, óleos e outros ou aqueles contaminados ou prejudiciais à saúde.

Ainda de acordo com a Resolução 307 do CONAMA o aproveitamento dos RCD deve ser realizado de duas formas:

  • reutilização, quando não ocorre transformação do resíduo;
  • reciclagem, ao serem aplicados processos de transformação/beneficiamento do resíduo.

No que se refere aos usos potenciais para a reciclagem dos RCD, destacam-se o reaproveitamento no próprio canteiro de obras, além do uso em aterros, sub-leito de pavimentação, argamassa para revestimento de alvenaria, fabricação de blocos de vedação, artefatos de concreto, entre outros.

Os processos para separação e beneficiamento dos RCD são inspirados em técnicas utilizadas há bastante tempo em operações de beneficiamento de minérios. Tais processos baseiam-se essencialmente em moagem (trituração) e peneiramento do RCD. Muitas das vezes um simples peneiramento do entulho permite separar um material passível de reutilização na obra, com características semelhantes a brita 1, pedrisco ou areia.

Acha-se ilustrada na Figura 2 a sequência de operações de um processo típico de beneficiamento de RCD. Por sua vez, na Figura 3 é mostrada uma foto de uma usina de reaproveitamento de RCD em operação.

Outra alternativa interessante para a reciclagem desses materiais é a chamada Usina de Reciclagem Móvel de Resíduos da Construção Civil - URM-RCC, composta basicamente por 3 componentes: Um caminhão do tipo "roll on roll off", um britador móvel e uma peneira rotatória móvel normalmente atracada como reboque no caminhão. Esse tipo de instalação pode ser utilizado em um empreendimento fixo ou mesmo ser alugado para obras em diferentes locais. A Figura 4 traz uma foto de uma URM-RCC.

Em conclusão, há um grande potencial de crescimento para estudos e empreendimentos voltados para o reaproveitamento de RCD no Brasil. Segundo a ABRECON - Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, 50% dos municípios brasileiros ainda destinam os resíduos para lixões ou locais irregulares, ao invés de reciclá-los. A ABRECON calcula que o país gera 84 milhões de metros cúbicos de RCD por ano, dos quais 17 milhões, ou seja, apenas 20% são reciclados.

Portanto, senhores empreendedores e futuros engenheiros civis: mãos à obra!

*Lino de Freitas possui graduação em Ciência dos Materiais e Metalurgia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976), mestrado em Engenharia Metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1979) e doutorado em Engenharia Metalúrgica - Ecole Polytechnique de Montreal (1983). Atualmente trabalha como consultor independente e é responsável técnico da empresa LRF Consultoria Ltda. É professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE).

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