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12/06/2018 | domtotal.com

Séries: três novidades e um adeus

Novas séries, recém estreadas, mais um pequeno réquiem para Anthony Bourdain.

Cozinheiro que revolucionou a maneira de abordar a gastronomia na televisão vinha travando uma luta contra a depressão.
Cozinheiro que revolucionou a maneira de abordar a gastronomia na televisão vinha travando uma luta contra a depressão. (Robert Ascroft /Adweek - reprodução Facebook)

Por Alexis Parrot*

À primeira vista, parecem não ter nada em comum, mas acabam unidas por desenvolverem temas como família, violência, morte e o peso que pode ter um legado. São novas séries, recém estreadas, resenhadas abaixo, mais um pequeno réquiem para Anthony Bourdain.    

Succession

Quando o dono do quinto maior conglomerado de mídia do mundo desiste de se aposentar, evitando que seu filho assuma a posição de CEO da empresa, todas as aparências e conveniências familiares vêm abaixo.    

Acostumado a manipular filhos e agregados e cercado de puxa-sacos e interesseiros, o patriarca do clã - encarnado com sobriedade pelo competente Brian Cox - termina por entronizar a si mesmo no papel de vilão. Deixa de ser pai e escancara o que sempre foi: um monarca cruel, com pouco ou nenhum interesse pelas necessidades de sua família ridícula; verdadeira coleção de tristes figuras medíocres.

Cada episódio, até agora com todas as situações concentradas em poucas locações, parece mais uma peça de teatro que um programa de televisão. Muito pouco acontece e todo o drama é sustentado por diálogos espertinhos, porém, não afiados o suficiente. Ficamos com a sensação de que falta alguma coisa ali.

A produção mira em Shakespeare, mas erra o alvo por quilômetros de distância. O tom intimista escolhido lembra mais Tchekov, mas não emociona como o russo - um mestre em engajar o público ao revelar o que todos temos de patético em nossas vidas. O despojamento não pode ser responsabilizado pela falta de emoção da série, afinal, Louis Malle nos deu um soberbo Tio Vânia no cinema simplesmente filmando uma leitura de mesa.

O grande problema é a impossibilidade de conseguirmos nos identificar com quem quer que seja no cardápio de personagens, com seus problemas mesquinhos e, não raro, inventados. Não há empatia porque nada naquela família soa como genuíno - nem o ódio.

(Succession - HBO, domingos, às 23:00h) 

Pose

Mais uma criação da máquina de séries que é Ryan Murphy. Juntamente com seus colaboradores fiéis, é ele o responsável por American Horror Story, Glee, American Crime Story, Feud e Nip/Tuck.

Ambientada nos anos 80, no auge da epidemia da AIDS, nos leva aos famosos bailes do Harlem e Bronx, onde a comunidade gay e transgênero se reunia para dançar em competições de glamour e estilo. Conta com um grande trunfo, o seu elenco, composto por atrizes transexuais cheias de carisma e talento.

Certamente, é um passo importante e uma conquista, se nos lembrarmos de dois filmes que  deram visibilidade indiscutível para as questões LGBTQ - Priscila, a Rainha do Deserto e Para Wong Foo - no final da década de 90, com homens cisgêneros e heterossexuais interpretando drag queens e transexuais.

A série coloca em evidência um outro tipo de formação familiar, cujo núcleo é constituído por quem, por afinidade e compaixão, acolhe jovens que não se enquadram na heteronormatividade, rejeitados, de uma maneira ou de outra, por pais intolerantes.

Formam-se novas famílias e até "casas", no sentido de linhagem, como nas estirpes reais - mas com laços mais fortes do que muitos daqueles determinados apenas pelo sangue. 

O premiado Paris is Burning, pode ser considerado matriz documental para a série, que também se inspira (muito, mas sem admitir) no filme Saturday Church, de 2017. A semelhança é tamanha que até duas atrizes (Mj Rodriguez e a modelo fashion Indya Moore) repetem a presença em Pose. Ganharam personagens mais desenvolvidas, mas quase idênticas às que viveram na tela grande.

Se somarmos a esta iniciativa o reality RuPaul's Drag Race (em seu décimo ano de exibição) e o épico When We Rise, do ano passado - escrito por Dustin Lance Black, o roteirista oscarizado de Milk -, podemos atestar que histórias e programas com temática gay ganham cada vez mais espaço no mainstream do entretenimento de qualidade.

A mensagem da série é humanista, política e mais que bem-vinda. Um oásis de afeto para um tempo em que a intolerância e o preconceito decidiram sair definitivamente do armário.   

(Pose - produção do canal FX, ainda sem previsão de exibição no Brasil.)

Patrick Melrose

O junkie Patrick, criado pelo romancista inglês Edward St. Aubyn, ganha carne, osso e olhos claros na figura do ator Benedict Cumberbatch (de Sherlock e Doutor Estranho).

Provavelmente, o maior mérito da adaptação (longe de ser o único) é o seu formato: uma minissérie em cinco capítulos de uma hora; com cada episódio cobrindo um dos livros sobre o personagem, desde a infância até à vida adulta. A opção resulta enxuta e sem rodeios; as idas e vindas temporais são bem elaboradas e o tema de fundo nunca se perde.

St. Aubyn baseou-se em sua própria experiência para criar os romances. Como o herdeiro desajustado de seus livros, ele também foi viciado em heroína e sofreu durante anos com impulsos suicidas. Ambos, criador e criatura, foram vítimas de abuso sexual antes de completarem dez anos de idade, perpetrado pelo próprio pai e com a conivência tácita da mãe.

Se você acha que já viu esse filme, viu mesmo - mas não desse jeito. A maneira como o assunto é tratado (com sinceridade, sem anestesia e sem um pingo de melodrama), destoa de como nos acostumamos a ver isso no cinema ou na TV. O personagem é assombrado a vida inteira pela violência extrema que sofreu, mas sem nunca cair na vitimização pura e simples. É uma vítima, mas não uma "pobre vítima".  

E, por mais inapropriado que possa parecer (mas acredite, não é), a minissérie é uma produção repleta de humor ácido, com comentários críticos sobre a elite britânica e sobre a condição humana.

Ao saber da morte da mãe, o protagonista solta um: "Que bom! Finalmente, orfão!"; e já no primeiro episódio, a amiga e amante ocasional o define desta maneira, considerando seus vícios: "Você é muito arrogante para chegar no fundo do poço." 

Todos os diálogos que Succession gostaria de ter estão em Patrick Melrose.

(Patrick Melrose - produção da BBC, ainda sem previsão de exibição no Brasil.)

Os cumprimentos ao Chef

A notícia da morte  do chef de cozinha, escritor e apresentador de programas de viagem e culinária, Anthony Bourdain, deixou o mundo estarrecido. 

O cozinheiro que revolucionou a maneira de abordar a gastronomia na televisão vinha travando uma luta contra a depressão, sabe-se agora. Na semana passada encerrou a batalha, ao que tudo indica, matando-se em um quarto de hotel na cidade de Kayserberg, na França.   

Responsável por sucessos televisivos como Parts Unknow (produção da CNN) e o já extinto Sem Reservas (Travel Channel), o chef de 61 anos viajou por todo o globo - bebendo de tudo, comendo bem e celebrando a amizade. Deixa como legados maiores a franqueza e a curiosidade - na mesma medida em que continuará inspirando tanto amadores quanto experimentados cozinheiros mundo afora, graças ao streaming e às reprises.

Por mais que tentemos nos acostumar com a ideia da morte, o suicídio ainda é algo que sempre nos pega de surpresa. Além disso, sem sombra de dúvida, é o motivo mais triste para se cancelar um programa de TV.


*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

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