;
Brasil Cidades

13/06/2018 | domtotal.com

Uma utopia sinistra


O que essas pessoas mal informadas não sabem é a ditadura nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história
O que essas pessoas mal informadas não sabem é a ditadura nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história (Reprodução)

Por Reinaldo Lobo*

13 de dezembro de 2018. O Brasil ganhou a Copa, as festas já cessaram, sobraram apenas algumas manifestações de patriotas e homens de bem, vestindo camisas amarelas e pedindo uma “intervenção militar”. Mas o país está agitado pelas incertezas de um pronunciamento militar feito pelo general Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, falando sobre as eleições realizadas em outubro e novembro

Nesse mesmo dia, o general Eduardo Villas-Bôas, o militar mais “liberal” e simpático, comandante supremo do Exército, falando em nome das Três Armas, vem a público no horário nobre em cadeia nacional de rádio e TV , para dizer: 

“Diante do caos causado pelas eleições fraudulentas, na qual um candidato da Ordem foi ilegalmente derrotado por um perigoso populista, somos obrigados a atender aos apelos das forças vivas da Nação para restaurar a democracia em sua pureza, afastando a corrupção e a subversão”.

As “forças vivas da Nação” são -- como sempre-- os banqueiros, os empresários, as grandes corporações, o Mercado , uma parte da classe média e, desta vez, incluem um tanto de povo pobre desiludido com os políticos em geral. Depois de algumas reuniões com seus representantes aceitos pelos militares e consultas junto à Embaixada dos EUA, pedindo o consenso de Washington, o golpe de Estado foi consumado.

O Congresso é cercado pelas tropas e fechado. O mesmo ocorre com o Palácio do Planalto e o STF. Centenas de deputados, ministros e funcionários do Governo somem de Brasília, alguns deles se exilam em Miami, com receio de serem presos. Vários parlamentares da direita religiosa, do agronegócio e da área de segurança procuram se aproximar dos militares que conhecem ou a quem têm acesso, procurando permanecer e reforçar o novo sistema.

Dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e Dias Tóffoli, suspeitos de conspirarem com o PT antes e depois das eleições, são imediatamente cassados depostos e levados em condução coercitiva. O ex-presidente Lula é transferido da Polícia Federal, onde estava preso sem poder concorrer desde antes das eleições malogradas. Seu destino é ignorado, mas supõe-se que esteja sendo interrogado em algum quartel, com a permissão do Ministério Público de Curitiba.

A ministra Carmen Lúcia, ex-presidente do STF, é reconduzida ao cargo por sua probidade e atuação decisiva na prisão de Lula. O juiz paranaense Sergio Moro é convidado a assumir o Ministério da Justiça. Também é sondado, com o plano B, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, também afeito às questões de polícia, repressão e manutenção da ordem.

Os militares se dividem quanto às primeiras medidas junto à equipe econômica, mantida pelos banqueiros e acrescida de alguns economistas como Armínio Fraga e outros ligados ao Mercado. Um grupo nacionalista e proto-fascista propõe a manutenção da Petrobrás, o outro grupo, considerado mais “liberal” e americanófilo, sugere a imediata privatização e completa entrega do pré-sal à exploração estrangeira, na linha do que já começara com a Exxon e algumas companhias europeias. Surpreendentemente, o capitão Jair Bolsonaro, ex-candidato à Presidência, que se dizia nacionalista, passa a se alinhar com o grupo “liberal” e americanófilo.

Uma censura prévia é imediatamente imposta à imprensa escrita e televisiva, assim como se instala uma comissão de investigação sobre o uso da internet e das redes sociais, que continuam parcialmente ativas após o golpe de Estado militar. Greves, sobretudo gerais, nem pensar. Os sindicatos sofreram intervenções e boa parte dos seus líderes, exceto aqueles patronais que pediram “intervenção militar Já”, já está presa

As prisões, fugas e desaparecimentos prosseguem em todo o território nacional, bem como os exílios em embaixadas. As preferidas pelos políticos de esquerda são as de Portugal, França e Uruguai. Os da direita, acusados apenas  de corrupção e não de subversão, preferem os Estados Unidos, algumas ilhas no Caribe, o Panamá e , na Europa,  as ilhas Jersey , Mônaco, Luxemburgo e a Suíça, claro.

O ex-presidente Temer desapareceu. Circulam boatos de que estaria no Líbano, terra de origem de sua família, ou então, o que é mais provável, estaria na garagem do Palácio do Planalto ou no Jaburu, negociando -- ao lado do ministro Eliseu Padilha, do deputado Carlos Marun e de sua Marcela--, uma possível composição com a Junta Militar para ter um ministério e salvar seu patrimônio de um possível Inquérito Policial Militar (IPM).

Esse cenário futuro próximo descrito acima é distópico, isto é, o contrário de uma utopia. Sugere uma ditadura sinistra tomando conta em breve do Brasil. O pior é que esse pesadelo é, neste momento, o sonho de muita gente.

O que essas pessoas mal informadas não sabem é que isso nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história, perderíamos todo o prestígio internacional, seres humanos seriam injustamente detidos e humilhados nesse processo, quando não mortos. As agências de Direitos Humanos do mundo todo, a começar pela ONU, condenariam o País e o levariam aos Tribunais internacionais.

Do ponto de vista econômico, haveria uma grande retração, diversos países parariam, no primeiro momento, de comprar produtos brasileiros e se aprofundaria a crise recessiva em que estamos mergulhados. Como o Mercado iria esperar as declarações “liberais” dos militares e de seus servidores para se recuperar, a médio prazo talvez os negócios se ativassem. Mas isso não significaria, como dantes se esperava, uma recuperação do crescimento nem a retomada plena dos negócios em escala mundial e multilateral.

O Brasil iria depender dos acordos bilaterais com o governo Trump, que, certamente, seria dos primeiros a reconhecer a Junta Militar. O gol contra nacional nos tornaria uma pátria apenas de chuteiras e um ponto ficaria acertado e assente: o País assumiria francamente o seu papel de República das Bananas.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas