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Brasil Cidades

13/06/2018 | domtotal.com

Quando percebo que nada sei

Olhei desconfiado, mas não resisti e comecei a lhe fazer perguntas.

Trocamos olhares igualmente sinceros na despedida.
Trocamos olhares igualmente sinceros na despedida. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

Descia a Rua do Ouro e o ruído de festa, os sorrisos gratuitos e o som do cavaco ainda ressoavam na cabeça. Depois de uns dois quarteirões, os ecos foram se aquietando e, então, percebi o valor da conversa no balcão. O mote da abordagem e o início do papo eu nem sei exatamente qual foi. O que importa, lembro-me perfeitamente, que buscávamos compreender o Brasil. A greve dos caminhoneiros era o tema do momento, mas sabíamos que aquilo era apenas uma circunstância.

A conversa foi franca e boa. A sombra que paira sobre o país foi um detalhe. Poderíamos discordar, pois o interesse em ouvir o outro não faria menor o desejo comum de uma sociedade melhor, de sair do poço. Nós tentávamos compreender o Brasil, este lugar onde a realidade nos foge. Ele encheu o meu copo e a conversa descambou para gastronomia e as respostas pairando. Aquele sujeito – há 15 minutos era um desconhecido – deu-me uma aula sobre hambúrgueres. Aprendi um tanto, mas as dúvidas sobre o Brasil ainda me inquietavam enquanto descia a Rua do Ouro.

No meio do caminho, não pude evitar a parada na mesa dos amigos. Falávamos de suicídio e também de saudade quando um jovem me abordou. Aproximou-se e pediu um cigarro. Estendi o que já estava na mão, de pronto. Agradeceu-me e começou a falar sobre uma empresária e sobre a música que fazia. Disse que ela comprou um monte de roupa pra ele. Olhei desconfiado, mas não resisti e comecei a lhe fazer perguntas.

Ele se demorava na explicação, aflito. Eu me sentia desconfortável. Mais ainda quando percebi, pelos repetidos olhares que o faziam desviar da conversa, que seus amigos o esperavam na esquina. Levantei-me da mesa e seguimos juntos até o outro lado da rua. Dois jovens como ele – uma e um – entenderam o porquê da demora.

Queria entender aquela pessoa, escutá-lo e, quem sabe?, talvez pudesse ajudá-lo. Seus olhos tinham esperança de um porvir, mas todas as respostas à enxurrada de perguntas que eu lhe dirigia eram vagas. Fui apresentado ao amigo na esquina. A amiga, mais à frente, fez um gesto gentil. Eu não estava entendendo nada.  

Continuei andando ao seu lado até que parou de repente. Olhou-me seriamente, sacou uma garrafa do bolso e me ofereceu um trago de cachaça. Recusei a oferta e insisti nas perguntas. Ele falava pouco, as respostas eram evasivas.

Com custo, extraí algumas. Samuel morava no Taquaril e escrevia letras de funk. Assustei quando me revelou sua idade: 16 anos. Estava animado e vislumbrava o sucesso. “Vou ajudar minha família”, disse, revelando que a tal mulher tinha dito que iria gravar as músicas dele e lhe presenteado com roupas – “Ela gastou R$ 1.000 comigo!” – e prometido isso e aquilo.

Vislumbrei ilusão e, pretensiosamente, lhe dei conselhos, dizendo que ele insistisse na música e que deveria falar sobre sua realidade, cantar o que ele conhecia e sentia. Quando desviei o olhar, com a intenção de voltar à mesa dos meus amigos de classe média, ele me disse: “Saí da prisão, mas não precisa ter medo, não”. Não sentia medo algum e até brinquei com ele, rimos juntos, sinceramente.

Trocamos olhares igualmente sinceros na despedida. Havia cumplicidade, mas, ao pronunciar “até, irmão”, eu não sabia nada do Samuel, do Brasil e tampouco de mim mesmo.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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