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14/06/2018 | domtotal.com

Meu encontro precoce com Joaquim Maria

Ora,diriam que Joaquim Maria é meu ídolo.

Prefiro o Joaquim Maria que amou Carolina, que escrevia crônicas nos jornais cariocas.
Prefiro o Joaquim Maria que amou Carolina, que escrevia crônicas nos jornais cariocas. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Sai dia ,entra dia esbarro em Joaquim Maria que , aliás, jamais cometeria uma rima assim em prosa. Muito do que sou tem a ver com a sua glosa mas , creiam, ele não tem culpa. Esbarrei nele muito cedo através da biblioteca do meu  avô – que nunca o leu- e foi logo amor à primeira, à segunda e a terceira leituras.  Mesmos aqueles livros melosos como “Helena” e “A mão e a luva” provocavam um doce deleite pela precisa descrição de um Rio de Janeiro de tules e rendas sepultado pela ação dos anos e incontáveis danos.

Nunca entendi direito sua figura miúda,feiosa, quase bizarra. Ficava imaginando ele usando uma pena carregada de tinta soçobrando a saúde à luz de velas , iluminando pra sempre todos os caminhos da literatura brasileira. Assim cheguei cedo à conclusão de que se fala muito de Joaquim Maria mas muito pouco se lê a sua vasta e assombrosa obra. Eu li e não falo isso para me exibir. Só para constatar que Joaquim Maria foi uma coluna jônica na minha irregular formação, uma viga de sustentação , uma justificativa para amar o que faço e como faço.

Ora,diriam que Joaquim Maria é meu ídolo. Não, eu não os tenho mas se tivesse ele seria. Não pelo homem que foi mas por aquilo que transcendeu com uma obra tão fecunda , tão arrebatadora,tão completa que as vezes a gente duvida que ele possa de fato ter existido. Não teria sido Joaquim Maria na verdade um personagem de Eça de Queiroz ou um protagonista de Dostoievski largado pelo mundo que um dia pegou um vapor barato em um porto russo ? Não seria pois o Joaquim Maria uma completa ficção?

Não lembro direito quando foi meu primeiro encontro com Joaquim Maria nem com que livro ou conto. Mas lembro de narrativas curtas notáveis que li por volta dos 16 anos como “A mosca azul”, “A teoria do medalhão” e outras maravilhas. Se juízo tivesse jamais teria me atrevido a virar escritor diante da existência prévia de Joaquim Maria.

Chamo Joaquim Maria de Joaquim Maria porque seu nome literário é revestido de uma pompa acadêmica que me enjoa.  Prefiro o Joaquim Maria que amou Carolina, que escrevia crônicas nos jornais cariocas do que o vetusto fundador dessa antiquada e bizarra Academia Brasileira de Letras.

Joaquim Maria nasceu no extinto morro do Livramento , morreu no Cosme Velho, portanto carioca da gema. Mas não consigo imaginar alguém mais anti-carioca em essência do que ele e sua vetusta sabedoria , essa sim combinando com o nome Machado de Assis. Mas eu , modestinho da Silva, diante de um imaginário encontro com ele junto a uma lareira prefiro é oferecer um conhaque quente numa noite fria ao imortal Joaquim Maria.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários entre os quais “Colombianos” exibido pela Tv Cultura-Sp e Tv Brasil.

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