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Religião

14/06/2018 | domtotal.com

Aporofobia: 'Quero que pobre se exploda'

Temos a tendência de rejeitar aquilo que nos perturba. Pior que a que indiferença é a repugnância com as pessoas sem recursos.

As fobias são patologias sociais que se expressam na forma de ódio ao diferente.
As fobias são patologias sociais que se expressam na forma de ódio ao diferente. (Reprodução)

Por Élio Gasda*

Estão todos na rede, fazendo barulho, disputando likes e viralizações, querendo aparecer! O medo de tornar-se invisível aos outros torna invisíveis os pobres, aqueles que já se tornaram invisíveis na sociedade e na rede. Tornar-se pobre virou um terror. O pobre é o diferente, o anormal, afasta as pessoas. Ninguém os escuta. “Quero que pobre se exploda” (Justo Veríssimo, personagem de Chico Anísio).

São tempos do “poder fazer”. Tempos de angústia. É preciso fazer de tudo, o possível e o impossível para manter o status. E, se o indivíduo não vencer na vida, problema dele! A pessoa explora a si mesma na ilusão de que não é pobre. É a lógica do neoliberalismo. A repressão não vem de fora, não é mais dos outros. Agora vem do próprio indivíduo: servidão voluntária. Em regimes autoritários a sociedade tinha consciência de que estava sendo dominada. Hoje, quase ninguém mais tem. A dominação foi naturalizada.

Ser observado é um aspecto central do ser social. Mas todo narcisista é um cego no momento de ver o outro, os outros. Quanto mais o sistema iguala as pessoas nesta ilusão, mais aumenta a produção e o consumo. Isso explica o conformismo radical. Não há preocupação alguma ou consciência de responsabilidade pelo pobre. Na verdade, são vistos como um peso inútil. Para que serve o pobre? É um supranumerário, quase um sub-humano.

Temos a tendência de rejeitar aquilo que nos perturba. Pior que a que indiferença é a repugnância, o medo, a hostilidade com as pessoas sem recursos, os “fracassados sociais”. As portas da consciência se fecham ante os mendigos. Ninguém se importa onde dormirão. Essa patologia social tem nome: Aporofobia (do grego áporos: pobre; fobéo: medo - Adela Cortina).

Isto acontece no âmbito de uma sociedade em que a absoluta maioria da humanidade é pobre, não tem nada a oferecer, está descartada do sistema, é desnecessária, está fora do mercado de trabalho e do mercado consumidor. Não existem apenas áporos na esfera da riqueza material. Há outros bens imateriais já inacessíveis à população: saúde, direitos sociais, educação.

Pobre dá medo. A mescla entre medo e desprezo tem um impacto social incalculável. Por esconder-se no anonimato, não figura nas relações do “politicamente incorreto”, dos moralismos que rejeitam comportamentos de forma quase automática: xenofobia, racismo, misoginia, mas nunca a rejeição ante o áporos, aquele que nada tem a oferecer. No entanto, esse é quem mais incomoda e desconcerta: o estrangeiro, o negro, o morador da ocupação e da favela, o haitiano, o índio vendendo artesanato na beira da estrada, o menor lavador de para-brisa no sinal de trânsito, aquela turminha ‘suspeita’ tatuada sentada na calçada. São todos pobres. Alguns cidadãos são racistas, outros homofóbicos ou ainda, misóginos. As fobias são patologias sociais que se expressam na forma de ódio ao diferente. Porém, a aporofobia está mascarada, é um sentimento muito arraigado que, convenientemente manipulado, pode ser convertido em um problema político e um grande desafio para as democracias.

Donald Trump promete levantar um muro para impedir a entrada de mexicanos, não porque são estrangeiros, mas porque são pobres. Na divisa com o Canadá nunca haverá muros, cercas eletrificadas e policiais superarmados. Os mexicanos, além de pobres são também estrangeiros, é mais fácil apresentá-los como uma ameaça e alimentar a aversão. Rejeição que implica sempre uma atitude de superioridade e de culpabilização da vítima. Muitos partidos manipulam esta patologia social para conquistar eleitores.

“O medo endurece o coração e transforma-se em crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro” (Papa Francisco). Discursos preconceituosos que incentivam crimes de ódio como agressões contra moradores de rua, travestis pobres, sem teto, presos. Estigmatizados por sua condição social. São percebidos como diferentes e inferiores. É necessário desconstruir a ideia segundo a qual os pobres são culpados de sua situação. A aporofobia é tão antiga quanto as civilizações. Porém, atualmente, a situação do pobre está especialmente deteriorada e a rejeição que sofre é desproporcional.

O neologismo aporofobia nomeia um fenômeno social, uma realidade cotidiana contra a dignidade humana e a vida do pobre. É rejeitar seres humanos. É odiar vidas condenadas à violência, à humilhação constante, à exploração. Nomeando essa realidade podemos torná-la presente no agir cristão, conhecer suas causas para enfrentá-las. “Muita gente procura Jesus no Sacrário, mas Ele teima em ir para debaixo do viaduto” (Julio Lancelotti). Os pobres são carne de Cristo (Mt 25,31-46). “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir” (Lc 14, 13-14). O coração de Deus está voltado para eles.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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