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Religião

15/06/2018 | domtotal.com

A piedade popular e os santos do mês de junho

A piedade popular expressa uma experiência humana e uma fé encarnada na cultura do nosso povo.

A piedade popular retrata bem a diversidade cultural brasileira e a riqueza religiosa do nosso povo
A piedade popular retrata bem a diversidade cultural brasileira e a riqueza religiosa do nosso povo (Reprodução/ Pixabay)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Viva Santo Antônio! Viva São João Batista! Viva São Pedro! Viva os Santos do mês de junho que animam o povo de Deus nas procissões, nas romarias, nas danças, nas rezas, reacendendo a “fogueira” da fé e da alegria no coração do nosso povo, que mesmo diante de tanta injustiça e dor, não se deixa abater, nem perde a esperança e a alegria de viver. Em meio a um cristianismo tão enrijecido, frio, com “cara de funeral”, a piedade popular encarnada na cultura dos povos, principalmente dos pobres, consegue integrar em sua espiritualidade a alegria, a espontaneidade, os símbolos, o corpo, a dança, etc. fazendo, assim, da devoção sua principal força de preservação da sua dignidade.

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A piedade popular expressa uma experiência humana e uma fé encarnada na cultura do nosso povo. “Quando as pessoas rezam, assistem à missa ou fazem romaria estão vivendo uma ‘experiência’: andam, falam, rezam, ajoelham-se, fecham os olhos, juntam as mãos, batem palmas, cantam. Chegam por vezes a gritar de forma exaltada, dançar, pular ou entrar em transe. O gesto religioso no canto ou na fala, no choro ou no riso, na reza ou no grito, no silêncio ou na exaltação expressa uma experiência do ser humano” (Mauro Passos e Maria Regina do Nascimento, 2013, p. 16). Por mais estranhos que possam aparecer esses gestos, eles precisam ser respeitados e valorizados como expressão de uma experiência humana e um modo de falar de Deus e falar com Deus a partir da prática existencial.

O Papa emérito Bento XVI dizia que “a piedade popular é um precioso tesouro da Igreja Católica na América Latina”, que ela deve proteger, promover e, no que for necessário, também purificar.  A rica e profunda religiosidade popular, na qual aparece “a alma dos povos latino-americanos, “traduz em si certa sede de Deus, que somente os pobres e simples podem experimentar” (Paulo VI). Por isso, “não podemos desvalorizar a espiritualidade popular ou considerá-la como um modo secundário da vida cristã, porque seria esquecer o primado da ação do Espírito Santo e a iniciativa gratuita do amor de Deus” (DAp. n. 263).

Muitas vezes, temos a tentação de pensar que a espiritualidade popular é uma religiosidade de massas, mas, como afirma o Documento de Aparecida (n. 261) “a piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que se viva em uma multidão, não é uma ‘espiritualidade de massas’. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado em lágrimas, um olhar entranhável a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao Céu em meio a uma alegria singela”. Nesta mesma direção, o Papa Francisco enfatiza que “seria um erro pensar que quem vai em peregrinação vive uma espiritualidade não pessoal, mas ‘de massas’. Na realidade, o peregrino leva consigo a própria história, a própria fé, luzes e sombras da vida. Cada um traz no coração um desejo especial e uma oração particular”.

A piedade popular retrata bem a diversidade cultural brasileira e a riqueza religiosa do nosso povo onde transborda a fé, as crenças e as festas religiosas repletas de alegria e solidariedade. Trata-se de uma verdadeira “espiritualidade encarnada na cultura dos simples” (DAp. n. 263). E por mais que tenha exageros ou desvios em relação à religião oficial, ela continua sendo uma riqueza inestimável da Igreja. Pois, “a experiência mística da religiosidade popular inscreve-se numa condição itinerante. Deve ser pensada como vivência concreta de relações sociais, culturais e políticas. A mística popular é uma trajetória de lutas, saberes e vivências e, nas pegadas de Mia Couto, ‘atravessa as fronteiras interiores’ na dinâmica de permeabilidades e interconexões que modulam a religião e as religiosidades” (Mauro Passos e Maria Regina do Nascimento, 2013, p. 23).

Talvez o que mais nos assusta na piedade popular é a “ausência” de conteúdo da fé, mas na verdade, ela “não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no ato de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum” (Papa Francisco, EG, n. 124). Neste sentido, continua o Papa, a piedade popular é uma forma legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários. Daí a sua recomendação, “Não limitemos nem pretendemos controlar esta força missionária!” (EG, n. 124). “Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As expressões da piedade popular têm muito a nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização” (Papa Francisco, EG, n. 126).

Para perceber toda riqueza cultural e religiosa da piedade popular é necessário um novo olhar que nos faz descobrir a criatividade e a sabedoria nas pessoas simples que encontramos em procissões e novenas, missas, cultos e rezas. “Não é de imediato que descobrimos no comportamento dessas pessoas ‘estratégias’ ou ‘astúcias’. Há de se olhar com ternura e simpatia, pois à primeira vista essas práticas são rotineiras e não apresentam nenhuma novidade” (Eduardo Hoornaert). Assim como fez Moisés diante do mistério de Deus desvelado na sarça ardente (cf. Ex 3,5), nossa primeira atitude diante da piedade popular deveria ser também a de tirar as sandálias, pois é um terreno sagrado que exige contemplação, proximidade e escuta.

Eu, que cresci participando das rezas do mês de Maria, das fogueiras dos Santos do mês de junho, aprendendo desde cedo a rezar o santo rosário com minha mãe, sinto que a piedade popular é fundamental para manter o senso da fé do nosso povo. Principalmente nesse nosso país continental, no qual a presença dos ministros ordenados da Igreja é tão escassa, a espiritualidade popular se apresenta com este lugar de vivência da fé, onde o leigo (a) é protagonista da ação religiosa e, a partir de uma fé inculturada, reza a vida e a lida diária, mantendo viva a chama da fé e da esperança e fortalecendo a sua pertença à Igreja.

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia (FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o livro “Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão”. Trabalha atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.

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