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Religião

15/06/2018 | domtotal.com

A religiosidade das festas juninas: tradição na modernidade

Falar da religiosidade das festas juninas é desvendar o apelo místico e supersticioso existente na sua concepção, que se encontra justamente na cultura europeia.

Os aspectos religiosos das festas não sofreram muito com amodernidade, mesclando-se com o folclore e sua manifestação que, às vezes, foge à liturgia e ao rito católico propriamente dito.
Os aspectos religiosos das festas não sofreram muito com amodernidade, mesclando-se com o folclore e sua manifestação que, às vezes, foge à liturgia e ao rito católico propriamente dito. (Reprodução/ Pixabay)

Por Alex Kiefer da Silva*

Com o fim do outono e o início do inverno, o mês de junho vem trazendo as tradicionais “festas juninas”, muito aclamadas pelo público em todo o Brasil. Não obstante o grande apelo comercial que marca a ocorrência dessas festas, o certo é que elas ainda estão fortemente marcadas por um sentido religioso que se mistura tanto com o seu sentido profano quanto com seu aspecto folclórico.

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Falar da religiosidade das festas juninas é desvendar o apelo místico e supersticioso existente na sua concepção, que se encontra justamente na cultura europeia. Este aspecto se funde com velhas crenças do paganismo europeu que foram ressignificadas para a realidade religiosa do povo europeu.  Na sua essência, as festas juninas remontam às celebrações das colheitas no final da primavera e início do verão, marcados por grandes festejos camponeses e que coincidiam também com as celebrações religiosas da natividade de São João Batista, o mais proeminente dos chamados santos juninos, cujas tradições ancestrais trazem reminiscências mescladas de ritos católicos com ritos pagãos.

É impossível falar da religiosidade presente nas festas juninas sem tratar do culto aos três santos mais celebrados do mês de junho: São João Batista, primo e precursor de Jesus, de culto muito antigo; São Pedro, apóstolo de Cristo, patrono dos pescadores e chaveiros, invocado para propiciar as chuvas; e também Santo Antônio de Pádua, tido pela tradição como o santo casamenteiro, patrono dos pobres e dos namorados, invocado para encontrar as coisas perdidas. Um aspecto a se considerar é justamente o fato de que todos os três santos possuem uma relação tanto com a realidade de sobrevivência do povo, que passava pela questão agrária e a manutenção da condição alimentar, principalmente nas colheitas de trigo, centeio, tubérculos e também da pesca, tanto quanto na realidade sociocultural do povo,  manifestada pelos contratos entre pares, principalmente na forma do casamento, do qual Santo Antônio era um dos padroeiros.

São João Batista, como dito acima, era o mais proeminente dos santos juninos, dada a antiguidade de seu culto e sua importância na doutrina católica, como primo e precursor da missão de Jesus, como Messias. Pelo fato da Igreja ter instituído desde tempos ancestrais a festa de seu nascimento como solenidade no dia 24 de junho, o que atestam os antigos calendários jeronimiano e cartaginense, e de seu martírio, no dia 29 de agosto, João era um dos santos mais venerados. Aspectos folclóricos de sua festa foram incorporados das tradições dos antigos festivais da roda do ano celta, principalmente do festival de Litha, na comemoração do solstício de verão no hemisfério norte, em 21 de junho, onde eram abençoados e colhidos os grãos, se tomavam banhos cerimoniais e onde se costumava acender e pular uma grande fogueira, como se fazia em maio no festival de Beltane (1º de maio), que, segundo a crença, servia para se livrar dos infortúnios e da negatividade. Todos estes elementos se encontram presentes nas tradições juninas relativas à festa de São João, em 24 de junho e chegaram ao Brasil, trazidas pelos portugueses, onde apresentaram nuances regionais adaptadas aos trópicos.

Sobre São Pedro, príncipe dos apóstolos, cuja festa se realiza em 29 de junho, as festas mais expressivas do santo ocorreram nas regiões litorâneas e nas zonas áridas do nordeste brasileiro, pelo fato de se pedir a São Pedro a propiciação de chuvas e de pescas abundantes. No Brasil, muitos devotos tradicionalmente pedem a prosperidade e a abertura de caminhos ao santo, pelo fato do mesmo trazer em seus atributos a chave, na sua condição de “porteiro do céu”, de onde também vem as chuvas.

Mas é em Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), santo tipicamente português, festejado em 13 de junho, que as devoções populares e religiosas assumem seu aspecto mais forte de superstição. Enquanto São João e São Pedro recebem em suas festas os pedidos de abundância, prosperidade e sorte, cabe a Santo Antônio de Pádua os pedidos relacionados ao amor. Enquanto João e Pedro são contemporâneos de Jesus no séc. I, Antônio é um santo medieval, religioso franciscano do século XIII. Em sua história, são abundantes as tradições que falam de milagres maravilhosos, dos quais os mais lembrados são justamente os que se referem ao encontro de coisas perdidas, curas milagrosas e a união de jovens enamorados. Sua tradicional representação segurando nos braços o Menino Jesus lhe trouxe a aura de proximidade com o salvador, de tal modo que a crença diz que todos os pedidos feitos pelo santo são ouvidos e atendidos, principalmente aqueles feitos em nome dos relacionamentos amorosos. Diferente de São Valentim e de Santa Inês, mártires que tradicionalmente eram venerados no restante da Europa como padroeiros dos namorados e invocados para propiciarem matrimônios, Santo Antônio só é invocado desse modo em Portugal e a crença no santo taumaturgo, ao ser transportada para o Brasil, foi potencializada, principalmente nas regiões das minas, onde predominaram as ordens terciárias e irmandades franciscanas.

 O importante é que, no Brasil, as tradições das festas juninas reproduziram os mesmos padrões trazidos pelos portugueses da Europa, mas muitos deles, à luz da modernidade, vem sendo reinventados ao longo dos anos, pelo simples fato de que a mídia exerce uma pressão sobre o contexto de sua realização, o que ocorre mais à nível do folguedo. Os aspectos religiosos, no entanto, não sofreram muito com esta modernidade, mesclando-se com o folclore e sua manifestação que, muitas vezes, foge à liturgia e ao rito católico propriamente dito. Neste aspecto, torna-se importante também observar a religiosidade das festas juninas além do seu aspecto de simples folguedo, como importante manifestação da religiosidade contemporânea, que ainda guarda lado a lado tradições antigas com aspectos ressignificados das crenças daqueles que as praticam. Tais crenças presenciadas nas festas juninas, independentes do caráter mágico que lhes atribuem, ainda seguem como importantes elementos mediadores entre o indivíduo e o Sagrado.

*Alex Kiefer da Silva é mestre em Ciências da Religião

EMGE

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