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Religião

15/06/2018 | domtotal.com

Amores e quermesses juninas

Nas festas juninas, tão boas que só terminam com as julinas, o cristianismo, cujo mote é a fraternidade-em-festa, é convidado a se abrasar.

Essa bonita herança que o cristianismo açambarcou, como parte do seu processo de inculturação, colabora, ainda hoje, para a formação da cultura do encontro.
Essa bonita herança que o cristianismo açambarcou, como parte do seu processo de inculturação, colabora, ainda hoje, para a formação da cultura do encontro. (Reprodução/ Pixabay)

Por Rodrigo Ladeira*

São João, São João
Acende a fogueira do meu coração!
(domínio público)

Chega crepitar o coração quando junho chega. As coisas mais quentes da vida têm sua melhor explicação nessa “meiúca” do ano. Tem quentão, canjica, milho cozido, “péla-égua”, fogueira, balão, quadrilha... ah como o coração da gente fica “frevido”! Criamos até coragem de passar por cima das brasas do fogaréu de são João.

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Nas festas juninas, tão boas que só terminam com as julinas, o cristianismo, cujo mote é a fraternidade-em-festa, é convidado a se abrasar. Vale lembrar que as festas de junho não são uma exclusividade cristã. Elas têm sua origem em civilizações as mais diversas. No Brasil, antes mesmo da chegada dos portugueses, as comunidades indígenas já possuíam manifestações rituais nesse período do ano, ligadas à agricultura, com muita comida, canto e dança. Soma-se a isto a cultura caipira, da roça, que só fez incrementar essa nossa tradição com quitandas e gordices. Essa bonita herança que o cristianismo açambarcou, como parte do seu processo de inculturação, colabora, ainda hoje, para a formação da cultura do encontro, coisa do Reino de Deus, muito própria do projeto humano-cristão que faz o mundo dizer “vejam como eles se amam!” (Tertuliano, Apologia 39)

Muito sabidamente, incrementamos os festejos juninos com a comemoração de três santos muito “bacanudos”: Santo Antônio (13 de junho), São João Batista (24) e São Pedro (29). Celebrados desse jeito, bem “arrasta-pé”, compõem uma boa piedade popular, a saber, aquela que cria comunhão na dança, na brincadeira, na risada e faz caldos que só as barraquinhas da igreja têm.

Santo Antônio, o primeiro da nossa lista, franciscano, é o casamenteiro. Nesse dia a “barraca do beijo” da quermesse fica cheia! Como é bom ganhar/dar um beijo. Pode ser no rosto, na testa, com o olhar. Também pode ser daqueles beijos de namorado, cheio de energia boa! Um beijo é comunicação do que somos, sinal de acolhida, de amor. Quando o beijo é dado no festejo dos santos juninos ele vem com gosto de roupa caipira que é uma belezura.

O segundo da lista é João, o santo mais festeiro. Diz a tradição que João Batista dorme no dia do seu “aniversário”. Ele é tão danado que se tivesse acordado desceria pra “festar” e, porque é serelepe, correria o risco de se queimar na fogueira. Daí a tradição de soltar fogos pra ver se o santo acorda.

Pra arrematar, Pedro é lembrado nas festas juninas porque é ele quem abre portas e faz chover no terreiro que é a gente. Qual a chave que abre nosso coração? Ah esse santo aí sabe! Abre e lava. E não é assim que a gente sai da quermesse? Abertos e banhados de alegria?

Não há nada mais bonito do que a integração promovida por uma quermesse, por uma festa junina. Ali acontece uma experiência de circularidade da vida. O bem-querer nesse ambiente se manifesta na roda, com seus “anarriês”, “turs”, “balancês”... As bandeirolas coloridas, os balões dependurados, o calor da fogueira, tudo isso fala de amor. Um amor que não pode ser meramente descrito porque só é acessível para quem entra na quadrilha. Lembro-me a essa altura do fabuloso “Sagarana”, de Guimarães Rosa. Ali ele descreve o primeiro encontro amoroso de Argemiro dos Anjos e Luisinha que acontece num preparativo da quermesse. “... A primeira vez que Argemiro viu Luisinha, foi numa manhã de dia-de-festa-de-santo, quando o arraial se adornava com arcos de bambu e bandeirolas, e o povo se espalhava cantando, calçando e no trinque, vestido cada um com a sua roupa melhor.”

 Não há dia melhor para experimentar pela primeira vez o amor do que numa festa-de-santo. Aliás, diga-se, uma festa-de-santo é sempre lugar de “primeira vez”. Na festa tudo é novo! A Boa-Nova se espalha feito brasa no vento. A fumaça toma conta. A gente lembra que festa é viver. Queria ter tido tempo para indicar umas festas juninas boas aqui em Minas, lugar privilegiado para uma boa festa junina, mas não deu para fazer essa pesquisa. Mas olha, queridx leitxr, depois de ler esse artigo-convite espero que você ache uma boa quermesse e aproveite para se redescobrir no bailão junino e dar boas risadas com o casamento na roça. Deus é amor e seu amor é festeiro! Já posso ouvir Luiz Gonzaga cantando assim: Foi numa noite igual a esta / Que tu me deste o coração / O céu estava assim em festa / Pois era noite de São João. / Havia balões no ar / Xote, baião no salão / E no terreiro o teu olhar / Que incendiou meu coração...

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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