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17/06/2018 | domtotal.com

Futuro do trabalho e as lições do passado

Seria nosso desejo de manter a nós mesmos ocupados uma força mais poderosa que o avanço tecnológico no que diz respeito à geração de empregos?

Previsões apocalípticas em relação aos impactos da automação não são novidade.
Previsões apocalípticas em relação aos impactos da automação não são novidade. (Bradley Wentzel /Unsplash)

Por Eduardo Azeredo

Nos círculos de pessoas mais ligadas a tecnologia e inovação é comum que o tópico Futuro do Trabalho seja o tópico de maior interesse. Entendemos que estamos num momento de avanço inédito em que o conceito de desemprego tecnológico venha a ocorrer por conta do avanço em diversos campos, especialmente o da Inteligência Artificial.

O número de trabalhos perdidos para máquinas mais eficientes é somente parte do problema. O que preocupa muitos especialistas em trabalho é que a automação possa impedir a economia de criar novos trabalhos(…) Por toda a indústria, a tendência tem sido de maior produção com uma menor força de trabalho(…) Muitas das perdas nas fábricas foram compensadas por um aumento na indústria de serviços ou em trabalhos de escritórios. Mas a automação está começando a se mover e eliminar trabalhos de escritório também(…) No passado, novas indústrias contratavam muito mais pessoas do que demitiam. Mas isso não acontece nas indústrias de hoje(…) Hoje, novas indústrias têm comparativamente menos trabalhos para os menos qualificados, apenas a classe eliminada pela automação.

As palavras acima soam bastante atuais, mas saíram na publicação da revista TIME de 21 de Fevereiro de 1964. Da mesma forma, décadas antes, no ano de 1930, o economista John Maynard Keynes escreveu um artigo chamado Economic propspects for our grandchildren (Possibilidades econômicas para os nossos netos) no qual se propunha a imaginar o mundo a 100 anos daquele momento.

Nesse artigo, Keynes imaginava que em algum momento até esses 100 anos estaríamos trabalhando 15 horas por semana, o que certamente soa irreal para qualquer “neto de Keynes” que esteja aqui em 2018.

Previsões apocalípticas em relação aos impactos da automação não são novidade, como podemos perceber. E mesmo gente que alerta para o impacto da automação sobre o emprego hoje em dia, como Andrew McAfee, reconhece isso.

Evidentemente, mesmo que o mundo não tenha chegado a uma era pós-trabalho, apesar das mais variadas previsões ao longo do tempo, existe a chance de que o avanço tecnológico cause um impacto definitivo no futuro e não devemos descartar essa possibilidade.

Mas há uma constatação que me faz tender para aqueles que tem um olhar mais cético quanto à previsão catastrófica. A despeito do sempre presente, e cada vez mais veloz, avanço tecnológico, a nossa jornada de trabalho pouco tem mudado ao longo das últimas décadas. Aliás, temos visto até mesmo casos de aumento da jornada de trabalho.

Como explicar essa contradição de mantermos a jornada de trabalho no mesmo patamar (e até mesmo considerar aumentá-la) enquanto morremos de medo de robôs tirando nosso emprego? A melhor explicação que encontrei aponta para a Grande Depressão em 1929.

Até aquele momento, havia um forte movimento de sindicatos pela redução da jornada de trabalho, e de fato é o período onde vimos a redução mais aguda do número de horas trabalhadas. Com a crise, sindicatos passaram lutar pela manutenção e até mesmo aumento da jornada para diminuir o risco de que operários fossem demitidos.

Como efeito disso, passamos a enxergar o trabalho como algo diferente e o tempo livre também, cada vez mais sendo evitado, sendo percebido como algo que remetia ao desemprego.

Uma visão mais crítica com relação ao trabalho de hoje em dia vem de David Graeber, antropólogo norte-americano. Graeber acha que estamos trabalhando 15 horas por semana, tal qual imaginou Keynes, com a diferença que o resto do tempo que passamos nos locais de trabalho seria apenas enrolando para justificar a existência de nossos empregos.

Seria então nosso desejo de manter a nós mesmos ocupados uma força mais poderosa que o avanço tecnológico no que diz respeito à geração de empregos? É difícil afirmar isso, mas alguns dados nos obrigam a, no mínimo, repensar como imaginamos o futuro e a maneira como nos ocuparemos.


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