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Esporte Copa 2018

21/06/2018 | domtotal.com

Seleção virou serviço militar

O brasileiro era apenas torcedor, não mais que torcedor.

E hoje? Será que, se por um desses acasos do futebol o Brasil ganhar a Copa, viveremos toda aquela euforia registrada em plenos anos de chumbo?
E hoje? Será que, se por um desses acasos do futebol o Brasil ganhar a Copa, viveremos toda aquela euforia registrada em plenos anos de chumbo? (Alberto Ferreira/CPDoc JB)

Por Afonso Barroso*

Torcedor não é cidadão. Vivi essa realidade bem de perto, quando o Brasil conquistou, no México, o tricampeonato mundial de futebol. Anestesiado pelo prazer proporcionado pela vitória contra a Itália, o brasileiro era apenas torcedor, não mais que torcedor. Não sabia nem queria saber se havia tortura ou censura no País, não ligava para as tenebrosas transações cantadas em samba pelo Chico Buarque da Adelaide.

Naquela década que se iniciava, abrindo os frenéticos anos 70, eu já era um trabalhador. Não braçal, mas manual. Editor de jornal e redator de propaganda. Trabalhava no Diário da Tarde. A Rua Goiás, assim como todas as ruas da cidade, festejava com uma multidão. Havia buzinaço, apitaço, estardalhaço, beijaço e abraçaço por toda a cidade. Moças de minissaia desfilavam nos capôs dos automóveis portando bandeiras do Brasil. O verde-amarelo coloria corpos, fachadas, viadutos e acho que até igrejas.

Era a ditadura em festa. Sou capaz de dizer que aquele era um povo feliz. O futebol, tal como fazem o dinheiro e o amor, trazia felicidade.

E hoje? Será que, se por um desses acasos do futebol o Brasil ganhar a Copa, viveremos toda aquela euforia registrada em plenos anos de chumbo?

Não sei responder. Ou melhor, duvido. O futebol de hoje não seduz como antes. Não há mais aquele entusiasmo. Os geraldinhos desapareceram, as arquibancadas foram promovidas a cadeirinhas coloridas, os grandes estádios ficaram restritos às classes menos sofridas e, por isso, menos torcedoras. 

No tempo que se foi, os jogadores desfilavam triunfalmente, como heróis, em carros do Corpo de Bombeiros, sob aplausos e urros histéricos. Eram gente de casa. Hoje, eles terão que desfilar pelas ruas da Espanha, da Inglaterra, da Itália, porque apenas uns poucos ainda vestem camisas nacionais. Na imensa maioria, só vestem camisa brasileira quando são convocados e obrigados a servir à seleção. Uma espécie de serviço militar. Cumprida a obrigação, vários deles esquecem a pátria e não raro até a língua pátria.

De toda maneira, torço pela seleção, na esperança de que mostre na Rússia a qualidade desse futebol pouco nosso, metade Brasil, metade Europa. Se conquistar o hexa, vou achar bom, e até comemorar.

Mas não como em 70.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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