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22/06/2018 | domtotal.com

Mimados e vaidosos

Ao longo do incômodo discurso o mestre enfatizou: "Não fiquem aí se achando; na vida é muito diferente."

Segundo McCullough, cresce a tribo de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos.
Segundo McCullough, cresce a tribo de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. (Divulgação)

Por Fernando Fabbrini*

O recente discurso do professor David McCullough Jr. aos alunos de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos virou um sucesso. A turma estava reunida para a formatura ao lado dos pais orgulhosos; porém, o discurso foi uma ducha fria naquela manhã ensolarada. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough abrindo a cerimônia. “Os adultos mimam vocês, beijam, confortam, ensinam, treinam, ouvem, encorajam. Mas não se iludam pensando serem especiais - porque vocês não são”. Ao longo do incômodo discurso o mestre enfatizou: “Não fiquem aí se achando; na vida é muito diferente.”

Alguns se remexeram nas cadeiras sobre o gramado; outros torceram o nariz, contrariados. No entanto, o que aconteceu em seguida foi surpreendente. O telefone de McCullough não parou de tocar. A caixa de entrada de e-mails ficou lotada; ele recebia cumprimentos de desconhecidos na rua. Repórteres invadiram o campus. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a ousadia de tocar num tema que incomodava a comunidade e exigia atenção – mas faltava coragem. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como joias raras”, disse ele. “Mas, para se darem bem, eles precisam saber que agora estão todos no mesmo patamar, que nenhum é mais importante que o outro”.

Segundo McCullough, cresce a tribo de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Por isso, desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com os obstáculos e as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo e coautor do livro Narcisism Epidemic (Epidemia Narcisista). “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo”.

Assim, o século XXI é o berço esplêndido da turma do “eu me acho”. Se acham os melhores alunos (Nota ruim? A culpa é do professor). Se acham os mais competentes no trabalho (Se recebem críticas ou não são promovidos, é perseguição do chefe). Se acham merecedores de elogios e reconhecimento diário (Caso contrário, é porque a empresa encontra-se aquém de sua genialidade).  

Atentos ao fenômeno, estudiosos começam a escarafunchar esse estilo de educação que vem produzindo bandos de narcisistas com dificuldade de adaptação. Para muitos pais, a felicidade suprema dos filhos, a realização nesta vida resume-se a entrar numa boa universidade, seguir uma carreira sólida, ganhar muita grana e massacrar concorrentes, vencendo sempre. Nos Estados Unidos a coisa vai ficando absurda. Escolas infantis já selecionam bebês de 2 anos através de testes. O Brasil segue a moda. Em um colégio paulista, daqueles bem classificados pelo Enem, existe fila para vagas no jardim da infância.

Preocupados em criar filhos competentes e livres de traumas, alguns pais evitam ao máximo criticá-los. Virou obrigação bajular os filhos - até quando não é necessário. Keith Campbell, estudioso dos narcisistas contemporâneos, avisa que, desse jeito, os filhos começam a acreditar que são fantásticos, geniais, feras em tudo. E aí criam uma imagem triunfal e distorcida de si mesmos. Diz Campbell: “os elogios mais prejudiciais são aqueles feitos quando não há nada a elogiar. Se o time do filho tomou uma goleada – e ele contribuiu para o placar vergonhoso –, não passe a mão na cabecinha suada do rapaz: ‘Você brilhou, o que atrapalhou foi aquele juiz ladrão’. Isso não é elogio. É mentira”. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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