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Religião

22/06/2018 | domtotal.com

Entre a cruz e a espada

De que lado estamos?

O patriarca Filaret abençoando soldados ucranianos.
O patriarca Filaret abençoando soldados ucranianos. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Cavaleiros valentes que transformaram a cruz em estandarte. Mercenários cristãos que cometeram atrocidades com o pretexto de acabar com as heresias. No renascimento, as batalhas de papa Júlio II em prol da conquista de terras para o Estado Pontifício. Isso é um resumo que mostra como o espírito bélico foi encarnado de maneira arbitrária por muitos cristãos aos longo dos séculos. E o mais grave: tal instrumentalização levou ao esquecimento do pacifismo presente em muitos escritos produzidos nos três primeiros séculos do cristianismo. 

Non possum militare. Christianus sum - Sou cristão, não posso militar. A frase foi proferida por um jovem cristão que, rejeitando o serviço militar por considerá-lo incompatível com o cristianismo, teria sido martirizado no século III. Os chamados atos de Maximiliano, do ano 295, é um interrogatório que mostra um caso típico de objeção de consciência em relação ao uso das armas no período da igreja primitiva. Mesmo não representando todo o pensamento das várias comunidades cristãs espalhadas pelo império, é uma das fontes que atesta o quanto os primeiros cristãos fossem contrários não ao serviço militar propriamente dito, mas à “carta branca” em caso de necessidade. Na Traditio Apostólica, de Hipólito, era permitido ao soldado convertido ao cristianismo permanecer no exército desde que ele jurasse não matar ninguém. Por outro lado, os recém-batizados que entrassem para o serviço militar poderiam ser banidos da comunhão.

De acordo com o famoso historiador alemão Adolf von Harnack, esse espírito bélico, a partir da ascensão do imperador Constantino ao poder, no século IV, passou a ser amplamente difundido entre os cristãos. Anos depois, o imperador Teodósio II, decretaria que somente os cristãos poderiam servir ao exército. Quando o cristianismo se torna religião oficial do império, são os interesses do imperador que estão em jogo, não somente os da Igreja. A heresia, até então considerada algo que apenas contrariava a doutrina eclesiástica, se transforma em crime - um delito que ameaçava a unidade do império.

O texto não tem a intenção de questionar se a presença dos cristãos no fronte de batalha tenha sido necessária ou não em determinados momentos da história. Nem cair na armadilha de dar uma resposta simplória à questão recorrendo ao conceito de guerra justa “alla Santo Agostinho” ou mesmo questionar a prática da legítima defesa. A proposta é levar à reflexão do porquê os últimos papas, a começar de João XXIII, resgatam o discurso da não violência e os riscos da instrumentalização da religião para fins militares, políticos. A encíclica Pacem in Terris, escrita pelo papa bom, é o documento pontifício que fala que é inadmissível aplicar os parâmetros da guerra justa em tempos de bomba atômica, haja vista a desproporcionalidade desse instrumento de guerra. Além disso, o pontífice chega a pedir um “desarmamento integral” justamente para evitar que outros conflitos mundiais se repitam. Papa Francisco, seguindo a linha do seu predecessor, foi categórico em 2017:

“Ainda hoje devemos pensar com atenção nesse conceito de “guerra justa”. Aprendemos na filosofia política que para nos defendermos, se pode fazer a guerra e considerá-la justa. Mas se pode falar de guerra justa? Ou de guerra de defesa? Na verdade, a única coisa justa é a paz”, ressaltou.

 Sendo assim, seria correto para um católico, nos tempos de hoje, ser a favor do porte de armas por parte dos civis? É correto incentivar chefes de estado, que se declaram cristãos, a defender suas nações colocando em risco a vida de milhares de inocentes? É para questionar.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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