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24/06/2018 | domtotal.com

A indigência mental dos brasileiros

O Whatsapp, principal instrumento de comunicação atual por meios eletrônicos, foi lançado em 2009 e logo se espalhou por todo o mundo.

No mundo existem hoje mais de 1,2 bilhão de usuários do aplicativo, dos quais mais de 120 milhões estão no Brasil.
No mundo existem hoje mais de 1,2 bilhão de usuários do aplicativo, dos quais mais de 120 milhões estão no Brasil. (Reprodução)

Por Evaldo D´Assumpção*

Talvez fosse mais justo, se o título desse artigo abrangesse muitos povos de outros países. Por uma questão de justiça, contudo, preferi me restringir à nação em que nasci, por melhor conhece-la, e dela fazer parte.

Em artigo anterior falei da involução da humanidade, tomando como base a música popular brasileira. Nesse, entro num campo mais preocupante que é a utilização e manipulação, pela privilegiada mente humana, de um dos instrumentos mais populares da atualidade: as redes sociais. Digo privilegiada, porque ela realmente o é, considerando suas potencialidades. Contudo – valha-me Deus! – como é vilipendiada no dia a dia do comum dos mortais.

O Whatsapp, principal instrumento de comunicação atual por meios eletrônicos, foi lançado em 2009 e logo se espalhou por todo o mundo. Seu nome vem da expressão em inglês “What´s Up?” que traduzido para o português corresponde aos nossos: “E aí?”, “”Tudo bem?”, caracterizando um aplicativo de bate-papo. Contudo, como nas conversas face a face, era de se esperar que os temas fossem mais interessantes, para justificar o seu valor atual, em torno de 1,5 bilhões de dólares. Cifra astronômica para somente se trocar “abobrinhas”...

Eu confesso que custei muito a aderir a ele. Observava-o sendo utilizado tão mediocremente, que não me animava a fazer um investimento significativo para adquirir um aparelho bem além do meu antigo e eficiente telefone celular. Mas aos poucos fui descobrindo que ele possuía funções bastante úteis e facilitadoras do nosso dia a dia. Acabei me convencendo a entrar nesse mundo tecnológico e, confesso, sem perceber passei a ser um comum usuário zap-zap, recebendo e repassando, insensatamente, centenas de mensagens. Felizmente minha formação médica despertou-me o sentido da observação metódica, e da prática “tentativa-erro-tentativa-acerto”. Acabei desenvolvendo um censo crítico que me proporcionou, mesmo com avanços e retrocessos, a utilização do aplicativo de uma maneira mais adequada. Pelo menos é o que espero. Com isso fui percebendo a verdadeira indigência mental de boa parte das pessoas. Observando-as, imaginei antigos trogloditas sendo transpostos para os dias atuais, e usando notebooks para quebrar cocos, ou smartphone somente para coçar as costas...

No mundo existem hoje mais de 1,2 bilhão de usuários do aplicativo, dos quais mais de 120 milhões estão no Brasil. Como nossa população gira em torno de 209 milhões de pessoas, vemos que metade do povo brasileiro se tornou usuária, e até dependente do aplicativo.

Questiono então, qual tem sido o resultado, realmente útil, do Whatsapp. Não conheço estudos ou estatísticas a respeito, contudo, a simples observação das pessoas utilizando-o nos restaurantes enquanto comem; nos cinemas durante a projeção dos filmes; nas igrejas durante celebrações; nas salas de suas casas, com a família reunida; caminhando pelas ruas e quase sendo atropelados pelos carros; sendo roubadas como patetas; mas, e especialmente, pelas mensagens que recebo e aquelas que meus amigos comentam, posso dizer que mais de 2/3 delas não servem para nada!  Excluo algumas anedotas ou causos interessantes, pois a vida já tem coisas suficientemente ásperas, para desprezarmos amenidades que nos divertem e são trocadas entre pessoas prudentes. Contudo, excluo radicalmente as piadas de péssimo gosto; as cenas grotescas e degradantes; a troca dos famigerados nudes, onde pessoas sem o mínimo pudor se expõem publicamente, alegando que é só uma troca de mensagens entre namorados. Piores ainda são pessoas públicas, artistas, esportistas e assemelhados, mostrando como se vantagem fosse, seus momentos de intimidade e até de relacionamento sexual. Mais chocantes quando são casais unidos em matrimônio! Nada de moralismo ou falso pudor, mas total repulsa a uma vulgarização total das coisas que se supõe devam ser sérias, respeitosas e especialmente privativas. E nesse lixo moderno, não se pode minimizar os chamados “fakes”, que são as notícias falsas, os textos falsos, as correntes que oferecem benefícios e ameaçam com o fogo do inferno quem interrompê-las, levando pessoas de boa fé a se impressionar com eles e, pior ainda, cair no verdadeiro “conto do vigário” de atender tais pedidos para disseminá-los. 

Tantas coisas boas, importantes, úteis e necessárias, podem ser feitas através do Whatsapp, assim como das chamadas redes sociais, como o Facebook, o Instagram, o Messenger... No entanto, milhões de brasileiros perdem tempo, sacrificam atividades bem mais vantajosas, cultural, social e financeiramente falando, para ficar, como débeis mentais ou robôs despersonalizados, exercitando seus dedinhos nervosos que pulam sobre os teclados digitando inutilidades, enquanto seus neurônios atrofiam-se cada vez mais.

A isso chamo de Indigência Mental. E pior ainda: com o decorrer do tempo, a deterioração cerebral é tamanha, que se torna em psicopatologias já classificadas no clássico DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que é impresso e periodicamente atualizado pela respeitada Associação Psiquiátrica Americana. Nele, hoje se encontram doenças psiquiátricas provocadas pelo péssimo uso da tecnologia de comunicação. A isso se somam as consequentes separações de casais, os crimes passionais, a deterioração social da juventude, nos levando a entender como algo bom pode se tornar péssimo e danoso, quando mal utilizado.

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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