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10/07/2018 | domtotal.com

O desafio de desenhar as cidades do futuro

Empresas, cidadãos e poder público começam a aprender como aproveitar os dados para construir metrópoles sustentáveis.

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Nos últimos 60 anos, o número de habitantes do mundo praticamente triplicou, saltando de 2,5 bilhões em 1950 para os atuais 7 bilhões. Mesmo com as taxas de natalidade em queda, estima-se que a população mundial chegará a 8,9 bilhões de pessoas até 2050. Os dados são do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e colocam para as grandes cidades, entre outros tantos, o desafio de garantir uma convivência harmoniosa entre um número maior de pessoas, carros, ruas, prédios e tudo mais que está embutido numa expansão urbana. Nesse contexto, o conceito de cidades inteligentes – que reúne tecnologia, urbanismo e sustentabilidade para remodelar os centros urbanos – ganha mais e mais importância, trabalhando não apenas questões como qualidade de vida, mas também mobilidade, uso de energia limpa, internet das coisas, entre outras. Essa discussão não nasceu agora, e não se espera que seja algo disruptivo. É uma evolução que já está em curso. O crescimento no mundo do uso de meios alternativos de locomoção, como os carros compartilhados, baseados em aplicativos e outras tecnologias digitais, já é o início da transformação.

Eleonora Pazos, diretora da União Internacional de Transporte Público (UITP) da América Latina, acredita que uma das chaves para a evolução está no uso de novas tecnologias. “No caso da mobilidade, por exemplo, em pouco tempo todas as formas de transporte estarão conectadas e se comunicarão automaticamente, sem a interferência dos seres humanos.” Já existem, por exemplo, serviços de transporte público parecidos a micro-ônibus, sem motorista, que andam por faixas exclusivas, parando automaticamente em pontos predeterminados, conta a diretora. “Com o avanço da chamada internet das coisas, todos os veículos elétricos de uma mesma linha poderão se comunicar em tempo real. Quando necessário, eles próprios poderão aumentar ou reduzir a velocidade dos veículos, de acordo com a necessidade”, explica Eleonora.

Nesse cenário, alguns especialistas apontam que não haverá nem mesmo semáforos nos cruzamentos das cidades. Pesquisadores do Senseable City Lab, laboratório do Massachusetts Institute of Technology (MIT), já fizeram simulações em que os veículos – autônomos e interconectados – manteriam uma distância segura entre si e teriam, no máximo, que reduzir a velocidade em vez de parar completamente ao cruzar esquinas. Isso praticamente eliminaria filas e reduziria os índices de poluição do ar causados pelos congestionamentos. A inteligência desses cruzamentos poderia ser ampliada para funcionar também com pedestres e bicicletas.

Esse é apenas um exemplo de como os serviços serão mais conectados. O fato é que a interligação das tecnologias de informação permitirá a produção de informações mais detalhadas e em tempo real. Os aplicativos de smartphones poderão, por exemplo, se tornar mais complexos e sofisticados do que os usados atualmente. “Entraremos na era da chamada mobilidade seamless (“sem emendas” em inglês), que unirá, em uma mesma plataforma, todas as opções de transporte público, privado e compartilhado”, acredita Eleonora. Os apps mostrarão também onde há bicicletas ou carros disponíveis para compartilhar ou que hora exatamente passará o metrô na estação mais próxima.

INFORMAÇÃO E INTEGRAÇÃO

O executivo-chefe da AT Kearney no Brasil, Sergio Eminente, lembra que, quando se fala em desenvolvimento da mobilidade nas grandes cidades, trata-se de transformar o trânsito e a locomoção urbana de uma maneira que reduza o estresse e os prejuízos causados em torno disso. Para ele, o maior desafio é trabalhar o transporte de massa de forma inteligente, dando acesso aos principais pontos de uma cidade e reduzindo a movimentação de carros. Mas como vamos evoluir nessa direção? Não faltam bons exemplos já sendo colocados em prática no mundo todo, e tudo vai depender de como os diferentes agentes que atuam no espaço urbano vão utilizar as informações que surgem em volume cada vez maior. O aplicativo de mobilidade urbana 99, por exemplo, já realiza parcerias com prefeituras para a análise da fluidez do trânsito, isto é, o acompanhamento, de hora em hora, da velocidade média em cada uma das vias.

Iniciativas como essas são extremamente importantes. Afinal, tão necessária quanto a automatização da cidade – com projetos de implantação de semáforos inteligentes, sistemas de GPS nos ônibus, soluções de gerenciamento de iluminação – é a análise de dados para o uso inteligente das informações. É disso que se tratam as cidades inteligentes: a tecnologia da informação e da comunicação como instrumento da gestão urbana, para melhorar o funcionamento das cidades e, assim, aumentar a qualidade de vida dos cidadãos.

A MOBILIDADE NA CIDADE INTELIGENTE

Monitoramento de rotas
Permite que o passageiro consulte quais transportes utilizar e quanto tempo ele vai levar.

Facilidade no pagamento
Com o mesmo cartão ou até pelo celular, o usuário paga o bilhete de diferentes modais e também outros serviços, além do transporte.

Integração de dados
Seja por meio de aplicativos, seja pelo sistema de bilhetagem, inteligência da informação permite oferecer serviços customizados aos cidadãos.

Pedro Soethe, especialista sênior da empresa de software Autodesk, endossa esse discurso. Para ele, o conceito de cidade inteligente passa por inteligência de integração, alocação de equipamentos, acesso das pessoas e, principalmente, de como tudo isso se conecta. “Está claro que a mobilidade urbana precisa ser automatizada, mas em muitas cidades ainda faltam estudos que permitam integrar os diferentes elementos de forma inteligente”, diz o executivo. Por integração ele entende a análise de todas as informações geradas na cidade, por diferentes fontes, para o estudo e a viabilização de alternativas.

Além da infinidade de aplicativos de celular que geram esses dados, grande parte das cidades conta hoje com sistemas capazes de simular soluções a partir dessas informações, incluindo não apenas sua viabilidade, mas também custos e impactos gerados. Em metrópoles onde o conceito está mais avançado, como Barcelona, na Espanha, as informações geradas por essas simulações são tornadas públicas e disponibilizadas para todos que queiram construir ou fazer qualquer outro tipo de intervenção urbana. Chamados de CIM (City Information Modeling), os sistemas modelam e analisam cidades virtualmente, sempre a partir de dados reais.

Na região metropolitana de São Paulo, os sistemas de pagamento integram os trens da CPTM e do Metrô com cerca de 6 mil ônibus. Para o CEO da Autopass, empresa responsável pela bilhetagem eletrônica dos transportes metropolitanos, é possível ampliar ainda mais essa sinergia. “É preciso integrar também as bicicletas, os táxis, os carros compartilhados e os demais meios de transporte”, afirma Rubens Gil Filho.

E o setor público precisa se integrar às empresas privadas; “mais do que isso, estados e municípios precisam se antecipar às demandas, sob o risco de os dados serem produzidos de diferentes formas e em diversas áreas da cidade, dificultando o controle”, defende Eminente, da AT Kearney. É por isso que, quanto mais iniciativas em conjunto existirem, mais eficiente poderá ser a implantação de políticas públicas de gestão urbana. Afinal, a coleta e o gerenciamento de informações geradas pelas plataformas digitais – seja um aplicativo ou a bilhetagem eletrônica – podem subsidiar as administrações municipais em suas escolhas. “O Brasil ainda tem um gap para recuperar. Evoluímos com os aplicativos, mas há um atraso quando se fala em transporte público: ainda estamos longe de saber com exatidão em que horário o ônibus vai passar, por exemplo”, conclui Eminente.

INICIATIVAS EM CURSO

Enquanto especialistas discutem as melhores soluções para integrar as diferentes iniciativas de mobilidade, muitas empresas já decidiram partir para a prática.

A Autopass, especializada em bilhetagem eletrônica, implementou, em Jundiaí, o sistema que permite o pagamento de passagens de ônibus com cartões de crédito, débito e pré-pago. E a companhia está testando o uso de Código QR para pagamento de passagens na cidade de Santo André, na Grande São Paulo. Além disso, aplicativos de compartilhamento de bicicletas já facilitam o deslocamento de ciclistas pela cidade. “Com ciclofaixas bem estruturadas, será possível fazer a integração com outros meios de transporte”, prevê Eminente.

Uma plataforma de intermediação de transporte individual como a 99, por exemplo, atendeu a um chamamento público da Prefeitura de Porto Alegre e fez uma parceria para monitorar o trânsito da cidade e, assim, ajudar os gestores municipais a calibrarem os semáforos e identificarem gargalos de tráfego na cidade. Ademais, um projeto da empresa com a Prefeitura de São José dos Campos permite que a administração tenha uma análise do padrão de deslocamento dos cidadãos.

A empresa tem iniciativas também com concessionárias de transporte público. Análises realizadas pela empresa apontaram que 24,3% das viagens da plataforma no Rio de Janeiro se originam ou são destinadas a estações do Metrô, BRT ou balsas, e que essas corridas atingem seu pico de destinlogo pela manhã e, de origem, no final da tarde. Com a Metrô Rio, e foi desenvolvido um projeto em que o passageiro poderia pagar tanto o transporte público como corridas promocionais da plataforma com o mesmo cartão.

São passos como esses que permitem orientar o desenvolvimento de uma cidade explorando as possibilidades oferecidas pela tecnologia e por algoritmos para o benefício do espaço urbano. Com essa parceria, além de sistematizar comportamentos, também se levam em conta os padrões sociológicos de interação dos cidadãos com o ambiente e a identidade cultural de cada indivíduo para elaborar as estratégias de planejamento urbano. Só assim será possível construir cidades não apenas inteligentes, mas também sábias.

*Adaptado de artigo Publicado no Estado de São Paulo em 24/05/2018. http://patrocinados.estadao.com.br/para-onde-vamos/o-desafio-de-desenhar-as-cidades-do-futuro/

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