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10/07/2018 | domtotal.com

O karaokê da memória de Paul McCartney

James Corden e Paul Mccartney no quadro do Late Late Show.

Música e emoção em uma volta motorizada pela Liverpool natal do eterno Beatle.
Música e emoção em uma volta motorizada pela Liverpool natal do eterno Beatle. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

O apresentador britânico James Corden tirou a sorte grande ao apostar no quadro Carpool Karaoke (Karaokê de Carona), de longe a atração mais interessante de seu programa, o talk show The Late Late Show, da rede norte americana CBS.

Estrelas de primeira grandeza do mundo da música como Stevie Wonder, Madonna, Lady Gaga, Elton John e Rod Stewart já se sentaram no banco do carona do carro em movimento de Corden para conversar e cantar junto com ele alguns de seus sucessos mais marcantes.

Há algumas semanas atrás o esquete alcançou o seu ápice, após três temporadas no ar, com a presença de Paul McCartney em uma volta motorizada pela sua Liverpool natal.

Acompanhamos uma emocionante viagem pela memória do eterno Beatle, passeando com ele pelo cenário que gestou o grande artista que é até hoje, aos 76 anos.

Vislumbramos a igreja onde Paul cantava no coro quando pequeno; a Penny Lane, rua imortalizada em canção de 67 e que continua lá, com sua barbearia modesta e gente que se cumprimenta pelas calçadas; a casa paterna, no número 20 da Forthlin Road, onde morou durante a juventude e nunca mais havia entrado até então.

A casa foi comprada pelo governo e é aberta à visitação pública. Mantém as características de mobiliário e decoração da época em que era o lar dos McCartneys, há mais de cinquenta anos atrás. Mais que um museu, um relicário de celebração e lembranças.

Guiados por seu antigo morador, conhecemos o quarto onde ele, adolescente, ensaiava e compunha com o amigo John; o lugar exato onde a mágica acontecia.

Descobrimos que um pequeno banheiro era usado como câmara acústica. Ali, no início de tudo, ele se trancava por horas com um violão para experimentar sonoridades e talhar o que viria a ser seu estilo musical - o jovem João Gilberto também fazia isso, na caminhada que acabou redundando na invenção da bossa nova.

Além de contar causos divertidos (e às vezes tocantes) daqueles tempos do alvorecer dos Beatles, Paul consegue arrematar cada passagem com alguma reflexão que acaba dizendo respeito também a cada um de nós. Revisitar a linha de largada o obriga a pensar na jornada empreendida e no que aquele menino de Liverpool se tornou.

Sem querer, começamos a pensar em nossas próprias vidas, nesses mesmos termos. Afinal, mesmo sem ter sido um Beatle, todo mundo tem a sua Penny Lane. Talvez aí esteja o motivo para o enorme sucesso do karaokê de McCartney, que já acumula mais de cem milhões de visualizações nas redes sociais.

Apesar de todas as qualidades, fica visível que nem tudo ali foi exatamente espontâneo como querem nos fazer crer (sem grandes prejuízos para a fruição do público, diga-se). Ajuda bastante o convidado ser quem é. As piadas mais fracas ou os momentos em que Corden passa do tom, quando se esquece do seu papel ali e se torna um fã meio histérico, são contornados pela elegância inabalável de Sir Paul.

É também uma jogada de marketing - em setembro o astro lança seu novo álbum. Mas se nos lembrarmos de namorada e irmã do Neymar, as duas se aproveitando para fazer uma propaganda desastrada (e proibida) da C&A dentro do estádio russo durante um jogo do Brasil na Copa, fica fácil diferenciar a boa publicidade da vigarice pura e simples. 

A essência do vídeo não é inovadora. Investe no fascínio que temos em penetrar na intimidade de ídolos e artistas, porém, executa o serviço com uma qualidade que publicações como Caras, Quem e congêneres ignoram existir: a delicadeza.

Além disso, serve também para provar que a televisão ainda pode nos dar muito e está bem distante da morte anunciada, volta e meia decretada por algum apocalíptico de plantão.

Apenas a TV tradicional, por sua capacidade de produção e de financiamento; prestígio; know how técnico, de logística e planejamento; estética; profissionalismo e abrangência de público poderia atrair um nome do quilate de McCartney para participar de algo tão grandioso e simples ao mesmo tempo, com um resultado de tamanha eloquência e ressonância.

Não é que a TV seja melhor que canais do youtube ou a possibilidade dos lives do facebook, por mais fãs e seguidores que estes últimos possam ter. Simplesmente, tratam-se de meios de comunicação diferentes, cada um com sua linguagem própria e suas especificidades - de um lado, o trabalho de equipe como pilar; do outro, o primado da individualidade. Mesmo tão diversos, é natural que conversem cada vez mais, se alimentando entre si e sem que um anule o outro.

Da mesma forma como Paul McCartney e os Beatles não perdem a relevância, assim segue a televisão com sua capacidade ímpar de surpreender e emocionar.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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