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Brasil

11/07/2018 | domtotal.com

Vida à margem

Alheios ao ruído do ambiente e tomados por uma afinidade gratuita e sincera, narraram suas respectivas histórias desde o último encontro ocorrido há mais de 20 anos.

Alheios ao ruído do ambiente e tomados por uma afinidade gratuita e sincera, narraram suas respectivas histórias desde o último encontro ocorrido há mais de 20 anos.
Alheios ao ruído do ambiente e tomados por uma afinidade gratuita e sincera, narraram suas respectivas histórias desde o último encontro ocorrido há mais de 20 anos. (Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Depois da quarta vez, Marcos se virou para ver de onde vinha a voz.

– É você mesmo.

Olhou à sua volta para se certificar. Era com ele. Intrigado, aproximou-se e reconheceu Cobra, pichador famoso em Belo Horizonte na década de 1990. Na época, entrevistou-o para sua monografia do curso de belas artes.

Cumprimentaram-se como se fossem velhos amigos. Inevitavelmente, a conversa rumou para o grafite e a pichação e as mudanças na paisagem belo-horizontina dos últimos 20 anos. Nenhum dos dois lidava mais com aquele universo de garatujas e inscrições que minam em paredes e muros das grandes cidades. A paixão pelo tema, porém, ainda pulsava em cada um.

Marcos se tornou professor de história da arte, estava no segundo casamento e tinha duas filhas pequenas. Alex – este era o nome real de Cobra – ganhava a vida nas ruas, vigiando e lavando carros de gente que se divertia nos bares e restaurantes do bairro de Lourdes. O ex-pichador aceitou o convite para a cerveja, mas a satisfação foi maior ao perceber que Marcos o conduzia para o Centro e o local escolhido foi o Boteco do Maranhão, na Bias Fortes.

Alheios ao ruído do ambiente e tomados por uma afinidade gratuita e sincera, narraram suas respectivas histórias desde o último encontro ocorrido há mais de 20 anos. Marcos enfatizou a importância daquela entrevista para sua pesquisa. Lá pela quarta ou quinta cerveja, sem dizer nada e com apenas um gesto da mão, Alex provocou uma estranha gravidade ao momento.

– Agora vou contar minha história, a verdadeira.

Marcos sorriu agradecido pela confiança.

– Sou casado e tenho uma filha de 2 anos e meio. A gente mora em Ribeirão das Neves e eu sou garoto de programa. Minha mulher não sabe de nada, acha que eu tomo conta dos carros dos bacanas. Só que, na real, faço programas.

Disse com naturalidade, quase indiferença, mas Marcos notou – ou assim lhe pareceu – uma ponta de alívio na expressão do companheiro.

– Não sou gay, gosto de mulher. É só um trabalho. E tive sorte, sabe? Um cara que conheci, tem uns 10 anos isso, foi quem me deu o terreno da minha casa. O barraco lá, eu e uns amigos construímos. É simples, mas é meu. Ele me levou ao cartório, tem escritura e tudo.

– O sujeito foi generoso contigo.

– Demais. Acho que ele era meio apaixonado comigo. Tinha uns 60 anos, cheio da grana e me deu o lote quando contei que minha mulher estava grávida. A gente ficou amigo.

– Que história incrível!

– É. E se eu disser que tenho que ir até a Praça Raul Soares para arrumar algum programa? Tenho que voltar pra casa com R$ 70, senão a patroa fica brava comigo.

– Tudo bem, não tenho preconceito, é óbvio. Você é batalhador. Fico admirado, de verdade.

Alex riu e foi ao banheiro levando seu sorriso malandro. Ao retornar, o garçom se afastava da mesa com a conta paga. Marcos lhe estendeu uma nota de R$ 100. Diante do olhar perplexo, repetiu:

– Você é um batalhador, vai pra casa.

Despediram-se com um abraço cúmplice. Naquela noite, Alex voltou para casa sem trabalhar.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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