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Religião

16/07/2018 | domtotal.com

Sacudir a poeira dos pés

Desapegar-se de coisas e situações é um processo importante no desenvolvimento de uma espiritualidade que nos faça crescer humanamente.

Desprendimento é uma característica fundamental de quem está voltado para o Reino, anunciado por Jesus.
Desprendimento é uma característica fundamental de quem está voltado para o Reino, anunciado por Jesus. (Reprodução/ Pixabay)

Por Felipe Magalhães Francisco*

O contexto na narrativa do Evangelho da liturgia de ontem (Mc 6,7-13), dia 15, é o da missão. Jesus envia seus discípulos, dois a dois, para o anúncio do Reino. Esse anúncio se daria tal e qual o próprio Jesus faria: por obras e palavras. Os discípulos participam da missão de Jesus. No envio, algumas orientações que pressupõem despojamento para o bom exercício da missão: apenas um cajado e uma túnica, confiando na providência acerca do pão e do dinheiro.

Essa providência está intimamente ligada à questão da hospitalidade. A ação de Deus sempre pressupõe a ação humana. Deus quer precisar de nós e de nossas mãos. Na hospitalidade, o milagre acontecendo na vida dos discípulos-missionários. Desde o início da narrativa, a questão da relação comunitária já estava dada: Jesus enviou os discípulos dois a dois. Agora, esses mesmos discípulos, partindo em comunidade, haveriam de encontrar aqueles e aquelas dispostos a receberem a palavra do Reino, e firmarem seu assentimento, por meio da hospitalidade.

A missão, no entanto, pode encontrar hostilidade. E, por isso, uma orientação importante, feita por Jesus: quando, em alguma casa, os discípulos não fossem recebidos, que sacudissem a poeira dos pés. Nem o peso da poeira deveriam carregar. Tal gesto significaria testemunho contra a hostilidade da recusa em receber o Reino.

Com a licença poética à qual me permito, aproprio-me de tal orientação, para ir além do contexto da narrativa. Faz parte do processo de amadurecimento espiritual, abandonar as poeiras que, desnecessariamente, carregamos. Não se trata de olvidar o passado ou de ignorá-lo, abandonando nossa história. Não. Mas há coisas e situações que carregamos que nos fazem ficar presos, impossibilitados de alcançar novos rumos, novas realizações. É preciso sacudir a poeira dos pés, em sinal de verdadeiro desapego. Desapegar-se de coisas e situações é um processo importante no desenvolvimento de uma espiritualidade que nos faça crescer humanamente.

A orientação de Jesus me faz recordar a impactante frase-conselho de Frida Kahlo: “Onde não puderes amar, não te demores”. Não há motivo razoável para que permaneçamos onde o amor não pode acontecer e se realizar. Ajuda-nos, ainda, a sabedoria poética de Quintana, de que amar é mudar a alma de casa. O amor é sempre saída de nós mesmos. Mas há portas fechadas. Nesse caso, não é espiritualmente saudável permanecer com a poeira nos pés. É preciso sacudi-los, e seguir viagem.

Desprendimento é uma característica fundamental de quem está voltado para o Reino, anunciado por Jesus. Espiritualmente, a máxima também se faz verdadeira e importante. O amor não nos deixa apegados, porque é essencialmente gratuito. Amar desprendidamente é um exercício de sabedoria ao qual precisamos praticar, se queremos amadurecer espiritualmente. Se amamos gratuitamente, sabemos reconhecer quando esse amor não é acolhido na mesma gratuidade, quando é preciso seguir, não sem antes sacudir a poeira dos pés, não em sentimento de rancor ou mágoa, mas como sinal de amadurecimento de que a vida segue. É preciso viver e deixar viver, já nos ensinava a canção.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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