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17/07/2018 | domtotal.com

Samantha! - Já vi isso antes

Emanuelle Araújo vive ex-cantora infantil que deseja voltar a brilhar na mídia.

Talvez por medo de desagradar, a série evita cavar mais fundo - tanto no humor como nos temas que aborda.
Talvez por medo de desagradar, a série evita cavar mais fundo - tanto no humor como nos temas que aborda. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Passadas três décadas após ter vivido o auge da fama, a líder de um conjunto musical infantil de muito sucesso nos anos 80, sonha ressuscitar a carreira. Cansada de viver de shows mambembes que exploram o sucesso do passado, quer provar que tem talento suficiente para voltar a brilhar na mídia e na televisão.

Esta é Samantha!, a protagonista da primeira série de comédia brasileira bancada pelo Netflix. Interpretada com entrega por Emanuelle Araújo, remete de pronto (como exaustivamente já exposto pela imprensa) à trajetória de Simony, a outrora mini cantora da Turma do Balão Mágico e apresentadora de programas infantis.

Outro detalhe as aproxima: tanto uma quanto a outra foram casadas com um ex-presidiário - no caso da ficção, com Dodói (Douglas Silva), um jogador de futebol aposentado que também entende o significado de já ter sido ídolo.      

A atriz e cantora baiana e o eterno Acerola, de Cidade dos Homens, convencem como o casal cujo divórcio parece fadado ao fracasso. O que não cola é a escalação do ator mirim que vive o caçula do par: nem nos sonhos mais selvagens de um geneticista louco aquele menino poderia ser filho dos dois. No afã de criar uma família multirracial, os produtores de elenco se esqueceram de levar em conta a melanina.  

À medida que o tempo passa, é impressionante como Emanuelle Araújo ganha cada vez mais ares de Regina Duarte, sob certos ângulos. E, se nos campos reais de Brasil e Europa, Neymar é chamado de "cai cai", por que não um jogador de futebol que atenda por Dodói?

Bastante irregular, a série não chega a ser ruim (a perícia técnica é sua grande qualidade) mas também não empolga o suficiente a ponto de podermos chamá-la de boa. Acaba vagando naquele limbo do mais ou menos, com boas intenções e sacadas interessantes, mas que entrega menos do que promete.

Oscila entre um tipo de humor que despreza a verossimilhança e situações que tentam preservá-la. Mora aí o seu maior pecado, essa falta de decisão entre uma coisa e outra. Em comédia, após cruzado o Cabo da Boa Esperança, é hora de ir com tudo, seguir em frente e nunca olhar para trás.

Talvez por medo de desagradar, a série evita cavar mais fundo - tanto no humor como nos temas que aborda.     

Apesar dos problemas, pelo olhar crítico e discussões pertinentes, Samantha! é feita sob medida para a época em que vivemos (com direito até a um "Fora Temer" pichado na parede do banheiro no último episódio).    

Trata-se de metatelevisão e a cada episódio a protagonista tenta se relançar apoiada em algum subgênero (publicidade, reality show, telenovela, programa de calouros) - porém, sempre com a meta principal de conseguir ganhar um programa próprio na TV.

Nessa jornada peripatética em busca do Eldorado, atacam-se os meios de produção de todas as mídias e a sanha por sucesso tanto de profissionais quanto de aspirantes. Salvo raras ocasiões, o que poderia resultar na desconstrução dos clichês, acaba os reforçando.

Como no episódio do programa de calouros infantis (Enjaulados Kids). Tanto a apresentadora (Luciana Vendramini em registro histérico) quanto os jurados da atração parecem mais personagens da Praça é Nossa, de tão estereotipados e fora do tom.

Por outro lado, uma das passagens em que Samantha! diz a que veio é quando uma influenciadora digital afirma na maior naturalidade que "o bom de hoje é que com a internet não tem mais essa frescura de verdade ou mentira". Mais frases como esta poderiam ter levado o programa a outro patamar.

Outro ponto alto da temporada é a presença do ator Paulo Tiefenthaler, vivendo o galã canastrão de reality Flávio Jr. O apresentador do extinto mas inesquecível Larica Total faz cada minuto em cena valer a pena. É uma injustiça que o vejamos tão pouco na TV. 

Mesmo cheia de altos e baixos, Samantha! já tem uma segunda temporada garantida. Mas engana-se quem pensa que sua inspiração é mesmo a Simony. A forma onde o programa foi moldado é outra.

Estou falando da comédia The Comeback, a série genial criada por Lisa Kudrow, em que interpreta Valerie Cherish, atriz de uma sitcom de sucesso no passado tentando um retorno triunfal com um papel coadjuvante em um novo programa de TV - ao mesmo tempo em que estrela um reality que acompanha seu dia a dia.

A hora em que a protagonista tem que escolher entre viver um importante momento da carreira ou ajudar um amigo com problema de saúde está presente em ambas as produções. Mesmo com resultados diferentes, a cena é basicamente a mesma e tem o mesmo propósito melodramático. Só não dá para negar que uma veio primeiro que a outra.

Se puder escolher entre Samantha! e The Comeback, prefira o original.  

(Samantha! - primeira temporada disponível no Netflix)

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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