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Brasil

18/07/2018 | domtotal.com

Não pode ser coincidência

Era domingo e as folhas secas são a causa de tudo, acho.

Era domingo e as folhas secas são a causa de tudo, acho.
Era domingo e as folhas secas são a causa de tudo, acho. (Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Foi em 22 de julho de 2018. Era domingo e as folhas secas são a causa de tudo, acho. Não sei explicar, mas estou convicto de que a ligação entre os fatos daquela tarde são as folhas. Talvez o modo particular do ruído, um craque, que soou sob Antônio, Rodrigues e Medeiros, produziu as mesmas notas na mesma tarde. Nunca vou saber. Só não acredito em coincidência.

Militar da cavalaria, Antônio cumpria o plantão do fim de semana. “Circular perto do morro, não precisa subir”, o capitão ordenou. O sol lhe queimava a pele, a testa escorria, mas o que lhe esquentava a cabeça era o sonho da noite anterior e a nítida imagem da morte chegando. A figura sem rosto lhe apontava o relógio. O da sala, herdado da mãe. Marcava três minutos para as 3h e o pêndulo seguia de um lado para o outro. Chamou o parceiro, fez sinal com a cabeça e seguiu para a sombra da Mangueira. Apearam.

Medeiros tossia muito e, a cada acesso, os olhares cresciam em número e aumentavam seu constrangimento. O ônibus não estava cheio, tornando cada manifestação de incômodo um estorvo quase insuportável. Levantou-se olhando para o chão. Cobriu a boca se esforçando para evitar outro acesso. Queria dizer para todos que não era capaz de largar o cigarro, mesmo depois de ouvir as assertivas do doutor Graça Melo. Pensou em escrever umas linhas, um verso talvez, para dizer àquela gente que era homem de bem. No entanto, a tosse e a vergonha lhe fizeram descer quando o ônibus parou no primeiro ponto.

A noite de sábado não havia acabado para Rodrigues. Dia de folga, não tinha hora pra chegar em casa. Dono de bar e profissional da noite, ele sabia das coisas, já tinha visto de tudo. Mas as duas – Rita, que conhecia de outros carnavais, e a amiga, Flávia, que conhecera horas antes – não sem importavam com o sol quente e seguiam pedindo eternas saideiras. Impressionado diante da resistência etílica das companhias, pediu licença e caminhou até o banheiro.

Foi uma das raras vezes que Rodrigues se viu sem ação. Não sabia o que fazer diante daquele jogo. Uma sinuca o aguardava na mesa na calçada. Na volta, pediu a conta ao garçom. Sentou-se e notou, enfim, sinais de embriaguez nos gestos e na voz das duas mulheres. Percebeu claramente o desejo no olhar de cada uma. O de Rita, suave e doce, e o de Flávia, firme e misterioso. Não foi capaz de lidar com tamanha vitalidade. Pagou a conta, despediu-se com um gesto acanhado e saiu caminhando sem rumo.

Conto a história de cada um porque todos morreram naquela tarde, na mesma hora daquele domingo 22 de julho de 2018. Era pouco mais de quatro da tarde e Antônio, logo após descer do cavalo, deu uns poucos passos, fazendo estalar as folhas caídas da mangueira, quando uma bala perdida o atingiu no coração. Ao descer do ônibus, o acesso de tosse de Medeiros se agravou e persistiu até que ele teve uma parada cardíaca, tomabando sobre as folhas amareladas de uma sibipiruna. Rodrigues morreu quando um carro o atingiu na cintura e o arremessou no passeio, onde rolou sobre as folhas secas de um ipê amarelo.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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