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Religião

19/07/2018 | domtotal.com

Dentro do perigo sagrado das cavernas da Tailândia

Em cada uma das histórias da mitologia tailandesa, a caverna se torna a casa de um espírito poderoso

Equipes de resgate da Tailândia organizam sistema de bombeamento de água na entrada do complexo de cavernas inundadas.
Equipes de resgate da Tailândia organizam sistema de bombeamento de água na entrada do complexo de cavernas inundadas. (Royal Thai Navy via AP)

Por Andrew Alan Johnson*

Depois de quase três semanas no escuro, 12 garotos tailandeses e seu treinador foram resgatados de uma caverna nas profundezas das montanhas que formam a fronteira entre a Tailândia e a Birmânia. Os meninos, com idades entre 11 e 16 anos, faziam parte de um time de futebol que também participava em aventuras ao ar livre com o apelido encantador de “porcos selvagens” (“mu pa”). Os lanches que eles levaram para a caverna, para comemorar o aniversário de um de seus amigos, provavelmente os sustentaram durante o tempo que estiveram sozinhos.

O nome da caverna, Tham Luang Nang Non, significa literalmente “a caverna da dama reclinada”. Tem o nome de uma princesa que, como diz a lenda, cometeu suicídio depois de ter sido proibida de estar com seu amor mais forte. Seu corpo acabou se tornando as montanhas e sua genitália, a caverna. Ela agora é quem governa ambas - a "jao mae".

Visitei Nang Non Cave pela primeira vez na estação chuvosa de 2007 junto com um companheiro para meu projeto de livro “Ghosts of the New City” (Fantasmas da Cidade Nova). A atenção atual tem se focado mais nas traiçoeiras passagens inundadas, as crianças presas e seus salvadores heroicos, mas, como descobri antes, há muito mais nessa história.

Nang Non Cave

A caverna é cativante. Sua entrada é larga, como uma porta de catedral, e durante a estação chuvosa a umidade flui dela como vapor. Parece a porta de entrada para outro mundo. Em alguns sentidos, é isso mesmo.

Comecei a descida rochosa em direção à entrada, atraído pela sua vasta escala e vazio. Somente meu companheiro, tendo atentado melhor ao sinal que proibia a entrada durante a estação chuvosa, chamou-me de volta. Voltei com relutância.

Estava certo em me retirar. Como os estudantes descobriram, durante a estação chuvosa os níveis de água em locais apertados na caverna podem aumentar drasticamente, prendendo possíveis exploradores dentro dela. Então, nos rostos das crianças presas, posso ver um pouco de mim, se naquele momento tivesse continuado.

Mas passei muito tempo em outras cavernas em toda a região, entrevistando assistentes religiosos e guias locais sobre como as pessoas dali entendem o poder das cavernas e outros locais sagrados e qual é seu papel na mitologia do norte da Tailândia.

Senhores dos lugares

Ao sul da caverna Nang Non e a cerca de uma hora ao norte da cidade de Chiang Mai, a capital da região norte da Tailândia, encontra-se o pico de Chiang Dao. É uma montanha impressionante, subindo em linha podem ser apreciados campos de arroz, como pequenas gotas brancas por todo canto. E, como muitas dessas montanhas na região, há uma caverna que desce até o coração.

As histórias da região e as lendas orais variam no relato exato do local: alguns dizem que a caverna era o lar de gigantes demoníacos - "yaksha" - que, no entanto, eram governados dentro da caverna por um nobre rei. Outros pensam que a caverna tem um governante nobre fundador do reino de Lanna (norte da Tailândia) e que depois refugiou-se na caverna depois de ver seu reino cair.

Minha história favorita desse tipo é a de um senhor do norte da Tailândia - Jao Luang Kham Daeng, o Senhor do Polimento de Cobre - que foi enganado por seguir uma linda mulher até a caverna, onde mais tarde foi devorado pelos espíritos de dentro da cova. No entanto, em sua morte, de acordo com uma versão, ele se tornou seu governante.

Em cada uma dessas histórias, a caverna se torna a casa de um espírito poderoso, mas às vezes perigoso, que mantém a região do norte da Tailândia segura, próspera e saudável, desde que o espírito e o poder perigoso da montanha sejam respeitados.

Pode-se inferir que as cavernas do norte da Tailândia têm pouco a ver com o budismo. Mas a religião na Tailândia e especialmente no Norte é, como apontaram estudiosos como Pattana Kitiarsa, Erick White, Justin McDaniel e muitos outros, uma mistura de diferentes influências: uma crença no poder de determinadas pessoas e lugares, um respeito pelos ensinamentos budistas e um modelo de poder real baseado nas antigas tradições hindus na região.

As cavernas do norte da Tailândia são lugares onde essas tradições religiosas se misturam: há santuários para Buda, eremitas hindus e senhores do espírito da montanha, todos no mesmo espaço.

Estas, como alguns podem esperar, não são três tradições separadas. Elas se misturam, especialmente em lendas de cavernas. Por exemplo, há rumores de que as cavernas do Parque Nacional Sri Lanna, entre as cavernas Chiang Dao e Nang Non, abrigam duas princesas que se esconderam depois que seus reinos foram destruídos.

Elas procuraram proteção em uma caverna e Buda, ouvindo seus pedidos, designou um fantasma monstruoso para mantê-las a salvo - um fantasma que persiste, segundo a lenda, até hoje. Assim, a realeza, o budismo e os espíritos combinam-se em uma história.

Lugares de perigo e possibilidade

As cavernas são espaços liminares - um espaço intermediário. São aberturas para outro mundo, que está envolto em escuridão, são de difícil acesso e, como o mostra a história dos 12 garotos, é frequentemente hostil aos humanos.

E nesses espaços habitam os espíritos. Na Tailândia, esses espíritos da natureza são muitas vezes mulheres e, como contraparte às figuras dos monges budistas, oferecem aos seus seguidores algo que o budismo não pode fornecer: assistência com amor, dinheiro e outras coisas deste mundo com as quais os monges não se interessam. Ao mesmo tempo, representam um perigo potencial se forem menosprezados.

Como tal, as cavernas sagradas da Tailândia são lugares cheios de poder, mas também cheios de perigo. Tais lugares, como descrevo em meu livro, frequentemente têm rituais anuais para assegurar que os espíritos protejam a aldeia no futuro.

Em muitos, os espíritos adquirem um aspecto um tanto feroz. Afinal, eles são os governantes de um mundo natural inóspito que deve ser domado antes que possa ser útil aos humanos.

Este reconhecimento do perigo da natureza é um drama que se desenvolve em rituais em toda a região, alguns dos quais eu participei como parte da minha pesquisa. Em Chiang Mai, por exemplo, a cada ano a população local tem uma tradição na qual dois espíritos das montanhas possuem dois médiuns humanos, que por sua vez devoram um búfalo cru e bebem seu sangue antes de se renderem ao Buda e concordarem em ajudar a cidade com brisas frescas e água limpa.

A história dos 12 meninos presos, então, é aquela que pode ser lida em múltiplos níveis. Para alguns, é uma história do heroísmo dos trabalhadores de resgate contra um ambiente inóspito. Para outros, é uma história que enfatiza a piedade budista do treinador da equipe e o poder das orações budistas sobre os espíritos da montanha.

Na minha opinião, essas ideias de perigo e poder sempre faziam parte dos espaços limiares das cavernas das montanhas. As histórias dos senhores do espírito sob a terra refletem o fascínio humano e os medos humanos.

*Andrew Alan Johnson é professor assistente de Antropologia na Universidade de Princeton.

EMGE

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