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Religião

20/07/2018 | domtotal.com

Ágape, uma experiência de amar desinteressadamente

O amor agápico está no âmago da experiência cristã do amor.

O amor agápico é amor que se doa na gratuidade, que ama para além do gozo e da reciprocidade.
O amor agápico é amor que se doa na gratuidade, que ama para além do gozo e da reciprocidade. (Reprodução/ Pixabay)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Ágape, um amor que supera os próprios sentimentos. Amor que se doa. Amor desinteressado que não espera recompensa. Amor que perdoa. Amor que ama os inimigos. Amor que se compadece. Amor que ama o outro pelo outro. Amor sem eros. Mas será que o ser humano é capaz deste amor ou somente Deus pode amar assim?

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Na cultura grega eros e philia eram os termos mais usados para designar o amor, seja o amor entre um homem e uma mulher (amor sexual) ou entre duas pessoas que se querem bem, o amor de amizade, enquanto ágape era quase posto de lado; já a cultura judaico-cristã privilegia o amor agápico, amor que se doa na gratuidade, que ama para além do gozo e da reciprocidade.

Na verdade, sendo o ser humano uma unidade plural, faz-se necessário manter a comunhão entre eros, philia e agape. “Na realidade, eros e ágape – amor ascendente e amor descendente – nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontram a justa unidade, embora em dimensões distintas, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente – fascinação pela grande promessa de felicidade – , depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais com ele, doar-se-á e desejará ‘existir para’ o outro” (Bento XVI. Deus Caritas est, n. 7).

É o homem inteiro que ama, corpo e espírito. Xavier Lacroix é enfático ao afirmar, “eros sem ágape, ágape sem eros são duas maneiras simétricas de negar a encarnação. Ora, sucede que a recusa da encarnação é também a recusa do dinamismo espiritual.” Porém, numa sociedade erotizada que se recursa amar o outro pelo outro, faz-se necessário redescobrir a experiência de amar desinteressadamente, amar sem auto-afecção, amar sem eros.

O amor agápico está no âmago da experiência cristã do amor. Basta contemplar o mistério da cruz de Cristo. Não há discursos, nem vozes que possam ser ouvidos. O amor transbordante revelado na cruz emudece todos os discursos sobre o amor e o grande silêncio desse amor ressoa nos confins do universo, acorda toda a criação que dorme no sono da morte, ilumina todo aquele que caminha pelas sendas das trevas e enche de alegria os corações desesperados.

O amor agápico se caracteriza, portanto, por não buscar o próprio interesse, e sim o bem do outro, como escreve São Bernardo de Claraval: “o amor subsiste por si mesmo, agrada por si mesmo e por causa de si mesmo. Ele próprio é para si mesmo o mérito e o prêmio. O amor não busca outro motivo nem fruto fora de si; o seu fruto consiste na sua prática. Amo porque amo; amo para amar”. Este é o amor de Deus por nós, Ele que nos amou primeiro assumindo a morte de cruz para nos salvar da morte eterna, enquanto éramos ainda pecadores. Porém, se amor agápico é um indicativo da essência de Deus que em si mesmo é amor (1 Jo 4,8), ele torna-se imperativo para nós, uma vez que somos chamados a ser filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs na fraternidade universal, para manifestarmos ao mundo a “imagem do Amor”. Este amor que não é pura abstração, nem teoria. É atitude. É vivência. É mistério pascal.

Ágape é o amor kenótico que sai de si para ir ao outro, esvaziando-se a si mesmo para sacrificar-se pelo outro. Este modo de amar vai contra toda filosofia ocidental que idolatra a autonomia do sujeito, derruba o imperialismo do Mesmo, além de denunciar um certo tipo de religião que faz da caridade e do amor ao próximo meio para alcançar a benevolência de Deus ou se mostrar justo perante os homens. Este amor desinteressado é o que Levinas chama de responsabilidade pelo outro que não é fria exigência jurídica, mas “toda a gravidade do amor do próximo – do amor sem concupiscência – gravidade na qual se apoia a significância congênita desta palavra desgastada e que é pressuposta por toda a cultura literária, por todas as bibliotecas e toda a Bíblia, em que se relata sua sublimação e sua profanação” (Levinas. Entre Nós, p. 238).

 Dizer que o “eu” é responsável pelo outro ao ponto de sacrificar-se por ele desorbita o “homem ocidental” que sempre afirmou o eu no nominativo, já no “eis-me aqui” profético, o eu no acusativo é refém do outro. Isso, porém, não é mero discurso religioso. É o que dá sentido ao nosso ser-estar-no-mundo. Somente assim podemos compreender a experiência cristã que confessa a fé no “Deus Crucificado” que se expõe, deixando-se afectar/alterar pelo outro. Na cruz, o Deus-amor não impõe o seu poder, nem se propõe como uma alternativa deliberada para a vontade humana; na cruz Deus se expõe! Pois o amor não se impõe, nem se propõe como troca, mas se expõe para amar. Nisso consiste a experiência de amar como Jesus amou e nos ensinou a amar, amar com compaixão, amar desinteressadamente!

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia (FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o livro “Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão”. Trabalha atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.

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