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Religião

20/07/2018 | domtotal.com

'Vistes aquele que meu coração ama?'

Eros une o amor-sexual com o sentimento sagrado.

Não existe amor sem eros. A erótica é a descoberta vibrante da singularidade, do outro e por isso minha também.
Não existe amor sem eros. A erótica é a descoberta vibrante da singularidade, do outro e por isso minha também. (Reprodução/ Pixabay)

Por Rodrigo Ladeira*

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.

(Alberto Caeiro)

Ah o amor! Esse bichinho que faz a pele/pelo arrepiar. Dizer algo sobre ele, o indizível-que-se-diz, é quase improvável, porque toda tentativa de torná-lo linguagem é já e ao mesmo tempo trai-lo. O amor é interdito! Sempre que tentamos nomear o amor, essa “coisa” orgânica, viva, escorregadia, ele nos escapa. Tarefa demasiadamente complicada para quem, como eu, racionaliza tudo. Se bem que (mea culpa) a vida acaba de me pregar uma surpresa deliciosa dentro da ilogicidade do amor. Desbotou toda e qualquer tentativa de racionalização. Não tem jeito! Quando o amor chega, a vida desorbita – o universo recomeça!; descentra – aleluia!!! o mundo não gira em torno do “mim-mesmo”; desarruma – nunca pensei que um cabelo desgrenhado por “mãos-cafunés” fosse coisa tão boa!

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Revirado como estou, dedos frouxos e pensamento lá naquela pessoa que me desnorteou reinventando-me e com a sensação incômoda de ter sido salvo-de-não-sei-que, quero compartilhar com você, além do pequeno devaneio preambular, uma questão fundamental para o amor: a erótica –  essa “coisa” mal-entendida.

Grosso modo, aceitamos o conceito de que eros é apenas o “amor-desejo”, a volúpia física. Porém, por detrás da ideia, ainda rasa, de eros, reside algo básico para a experiência humana. É que eros acerta em duas caçapas com uma única bola. Ele une o amor-sexual com o sentimento sagrado. Isso nos assusta! Por que? Exatamente porque expurgamos a erótica da nossa cultura. Essa cultura marcada por uma moral religiosa cristã que produziu um cristianismo que, a nosso sentir é quase nada cristão (o cristianismo não é uma re-ligião, mas re-velação).

Eros foi expulso dos domínios do sagrado. Aqui chamamos sagrado o elemento interditor (Deus é a lei) ao mesmo tempo transgressor (só Deus tudo pode!). O grande impacto disso na experiência humana é que deixamos de conhecer, por força de uma moral impostada, que a encarnação do Deus cristão ajunta/ajusta divino e humano, retirando o “ou” que prevalecia entre as duas naturezas. O transcendente, a partir de uma saudável leitura dos evangelhos, é imanente, vice-versa. Para encontrar Deus (Outro) é preciso desejo (desejei ardentemente comer essa páscoa com vocês), ardor (não ardia o nosso coração?), paixão (e entregou seu espírito), toque (alguém me tocou e uma força saiu de mim)...

Um sussurro em meu ouvido.
O hálito lambe a cartilagem frágil.
O calor se faz estrada nas curvas.
É aroma... exalação... emanação... viração!
Meus olhos fecham
As narinas escancaram-se ao cheiro do teu sopro.
Minha carne ressuscita,
A pele renasce, estremecendo.
O meu corpo umedece.
Teu bafo inspira... espira... inspira... espira... Aspira!
Qual poder umectante!
Engra-Vida de Vida a Vida!
E a Palavra se fez Carne...

(Maria Soave Buscemi)

Não existe amor sem eros. A erótica é a descoberta vibrante da singularidade, do outro e por isso minha também. A antropologia bíblica, sobremaneira a veterotestamentária, em geral, é muito moralizada, no sentido de quase nunca falar da beleza física. Ela é, não raro, pensada a partir da moral. Mas é impossível dizer o amor, sempre erótico na sua gênese, sem a beleza física, sem um corpo.

Quando entramos no poema do “Cântico do cânticos” temos o inverso de praticamente toda antropologia bíblica. O ser é único não só por sua beleza moral, mas na singularidade do seu corpo. Ct 5,10-16 – O meu amado é alvo e rosado... distingue-se entre 10 mil... Aí está a singularidade objetivada. A nomeação daqueles que não se confundem mas se atraem. São únicos a partir do corpo, mapa lírico e simbólico. Ct 6,4-9 – Tu és bela, amada minha... esplêndida como Jerusalém... tua cabelereira é como um rebanho de cabras... Os amados/amantes são únicos. Delicadeza e paixão a partir da miniatura. Eis aí Deus! Afirma-se a singularidade numa gramática erótica, que chamaremos adiante também de escatológica, porque inaugura uma dramática existencial.

Toda palavra erótica supõe a escatologia, que é “sim” e “ainda-não”, continuidade-descontinuidade. Nisso reside o que denominamos dramática do amor. Amor e Morte estão associados, feita de volúpia e perdição (perdendo a gente ganha!) no/para o outro amado. Empurram-se os amantes para o abismo da entrega-de-si. Morrem porque se doam a uma nova ideia de continuidade que só aparecerá se se descontinuar. Deixando de ser particular, integram-se novamente numa inaudita cadeia que os precede e sucede. A declaração de amor precisa sempre da suposição de infinito, porvir, promessa, desse “não-sei-que”. Sem essa escatologia promovida pelo eros, os corpos se desmancham, acabam-em-si.

A erótica nos faz nus, descobertos. Nudez que põe em cena a devastadora solidão dos amantes. O amor (ágape, fraterno, erótico –  distinto como quisermos) é mais uma prece a dizer VEM, do que propriamente um encontro. Não é um poema de satisfação. É um poema de FOME. Não é pacificação dos sentidos, mas uma febre, um adoecer um pelo/no outro; uma ambiguidade sem solução. O que os grandes amores nos fazem experimentar é, no fundo, uma grande solidão-acompanhada. Ritmo incessante, frenético, permanente. Ct 2,8 – a voz do meu amado... ele vem pelos campos... espia pelas grades... Ct 5 –  estou doente de amor. O amor está sempre a ser proposto e reproposto, numa cadência vertiginosa. O amor faz dos enamorados nômades, buscadores e mendigos. Todo diálogo de amor é conversa de pedintes. É entre gente que nada tem. Talvez seja por isso que a maior declaração de amor que conheço e que encontramos no Cântico dos cânticos, não é ordem, mas pedido – grava-me como selo em teu braço porque forte como a morte é o amor. O que todo amor conta é a história de um naufrágio, de uma ferida inocente. A biografia de uma ferida amorosa, de busca e fuga. Cartografia incerta, mapa hesitante, prece ininterrupta.

“Por que se admirar, dado que entre Deus e os homens tudo fica equívoco, salvo, precisamente o amor? Porque pronunciamos claramente, apesar de todas as impossibilidades que a impedem, ‘Esta palavra que ressoa no céu, esta palavra, a palavra dos deuses e dos homens – Eu te amo!’” (Jean-Luc Marion)

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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