;
Brasil

22/07/2018 | domtotal.com

Um pardal em minha janela


Evaldo D´Assumpção
Evaldo D´Assumpção (Divulgação)

Por Evaldo D´Assumpção*

Há algumas semanas estava em meu estúdio, a que dei o nome de “Santuário” por ser o local onde passo boa parte do meu tempo, a sós comigo mesmo, trabalhando em meus artigos, lendo ou meditando, quando fui interrompido, no meu silêncio, por uma sequência de batidinhas em minha janela.

Antes de prosseguir, devo uma explicação: meu Santuário ocupa a única parte da minha casa, situada num segundo pavimento. Nele tenho três janelões de vidro que ocupam toda a parede voltada para o leste, proporcionando-me ouvir o balé das ondas, além de magnifica visão do mar, do céu infinito e dos mais belos nascer do sol. Esse local foi a razão principal de ter escolhido esta casa para comprar e morar, quando há quase dez anos eu e minha esposa decidimos nos aposentar e deixar Belo Horizonte, onde residíamos e trabalhávamos. Viemos em busca de paz e tranquilidade, na certeza de uma melhor qualidade de vida, muito além do burburinho das grandes metrópoles. Conseguimos, ainda que com algumas poucas limitações.

Mas, como dizia, fui despertado dos meus devaneios criativos, por aquele tac-tac insistente e quase ininterrupto. Percebi que vinha de uma das minha janelas, cuja persiana estava fechada. Levantei-me e descobri a fonte de tal ruído: era um pardal, certamente confuso com sua própria imagem refletida na janela, cujo revestimento de película redutora do sol intenso, dá-lhe efeito de espelho. Nessa confusão, ele deve ter iniciado uma luta inglória com insistente rival, que a cada bicada revidava com golpes absolutamente iguais. 

Pensei logo em espantá-lo para ficar em paz. Contudo, o pequeno pássaro não se intimidou comigo. Fez um voo semicircular e voltou para outro vão das janelas, recomeçando a sua luta feroz contra o imaginário combatente. Percebendo-me derrotado pela sua teimosia, voltei para a minha mesa e prossegui o que estava fazendo. Nos dias seguintes, o mesmo ritual, sem qualquer desânimo do intimorato pequenino. Batia, batia e não alcançava nada, pois seu virtual adversário não desistia.

Coloquei-me então a refletir sobre aquela cena tantas vezes repetida. Foram centenas, as bicadas do pequenino emplumado, contudo eu não consegui atinar com qual objetivo ele as dava, pois obviamente não alcançava coisa alguma. Mas aquelas pancadinhas lembraram-me o som do meu teclado quando nele digito. E comecei a pensar nos muitos artigos que escrevo, as dezenas de livros que já publiquei. Que motivação eu tinha – e ainda tenho – para persistentemente escrever, publicar, divulgar conhecimentos adquiridos em décadas de leitura e vivências? Vaidade de expor o que considero meu maior tesouro? Quem sabe agindo como os novos-ricos, que desfilam seus carros de luxo, suas roupas de grife, suas joias de ouro e diamantes? Ou talvez a pretensão de possuir muito saber, e querer colocá-lo em outras cabeças? Com tais questionamentos, cheguei à conclusão de que nenhuma delas era, e continua sendo a minha motivação. Afinal, se assim fosse, tolo eu seria por persistir nessa cruzada intelectual, mimetizando o tardio cavaleiro cervantino, D. Quixote de la Mancha, que combatia imaginários dragões metamorfoseados em moinhos de vento.

Afinal bem sei, e os muitos anos de experiência me comprovaram, que é quase impossível convencer ou modificar as pessoas através de palavras. Quantas páginas já foram escritas, quantas toneladas de papel já se imprimiram no mundo inteiro, todas elas repletas de importantes descobertas, de caminhos desbravados, de rumos e atalhos encontrados a duras penas, mas pouquíssimas pessoas absorveram tais conhecimentos e deles tiraram algum proveito. Dessas, muito poucas redirecionaram suas vidas, superaram dificuldades de relacionamento, corrigiram seus defeitos, em função de textos que leram e até elogiaram e repassaram. Fico pensando que se apenas metade das pessoas que leram tais palavras, dos mais diferentes autores e pensadores, tivessem assimilado um pouco que fosse do que eles colocaram ao alcance de quem se dispôs a lê-los, com certeza o mundo seria muito melhor, e não passaria pelas graves crises que viveu, vive, e ainda viverá. Todavia, o humano é por demais vaidoso para reformular sua vida em função do que aprende com os outros. Só o faz quando, depois de bater muito a cabeça como o pardal fazia em minha janela, age como o filho pródigo que saiu da casa do pai, e só quando gastou toda a herança precocemente recebida, e passou fome, descobriu que deveria refazer o seu caminho, desculpando-se com quem o havia dado e ensinado tanto.

Penso então que todo autor tem uma motivação mais forte para escrever. E essa motivação é o seu diálogo interno enquanto escreve. No papel ele coloca seus desejos, seus sonhos, suas preocupações, suas dificuldades, suas frustrações, suas alegrias e vitórias. Seus personagens são ele mesmo, ou parte dele, e por isso, escrever é uma catarse que alivia suas tensões, acalma seu coração, ajuda-o a elaborar suas emoções e viver a vida com mais qualidade. E quando recebe algum retorno, de alguém que nos seus textos reconheceu ter encontrado luz para o seu caminho, alívio para as suas dores, libertação de suas angústias, respostas para suas dúvidas, o autor se sente realizado e justificado pelos seus esforços. Sabe-se como um semeador que lança as sementes, mas não olha para trás, não espera nem cobra sua germinação e frutificação. Afinal, o bom semeador semeia, e só isso lhe basta.

Como deve ter acontecido com o pardal, que há dias desapareceu e não voltou a bicar novamente minha janela. Certamente suas tristezas foram dissolvidas nas muitas bicadas que deu, e agora lhe resta gozar a liberdade conquistada, voando placidamente pelo infinito céu azul.

*Médico e Escritor.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas