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31/07/2018 | domtotal.com

Alemão ou turco? Ou os dois?

A seleção alemã foi desclassificada na Copa Mundial recém realizada na Rússia.

O jogador Ozil e o presidente turco Erdogan.
O jogador Ozil e o presidente turco Erdogan.

Por Lev Chaim*

Mesut Ozil é um jogador alemão de futebol filho de pais turcos. Para muitos alemães, Ozil também é um turco, embora tenha nascido na Alemanha e ali tenha feito a sua carreira e até mesmo jogado para a seleção alemã de futebol e com sucesso. Uma foto tirada em Londres, ao lado do presidente turco Erdogan, que mostrava orgulhoso a camisa de Ozil, foi o estopim de pólvora que explodiu na carreira desse jogador.

A seleção alemã foi desclassificada na Copa Mundial recém realizada na Rússia. Ao mesmo tempo, aquela fatídica foto ganhou publicidade em toda mídia europeia, principalmente na Alemanha, o que fez com que as coisas mudassem na vida deste excelente jogador. Por todos os lados, principalmente na Alemanha, ele foi apontado como o principal responsável pela não classificação da seleção alemã. E com tudo isso, não deu outra: Ozil explodiu e escreveu uma carta à Federação Alemã de Futebol, dizendo que não iria mais jogar para a seleção alemã. Penso que em quase todos os pontos, Ozil tem razão. Vejam vocês, caros leitores, suas palavras:

“Apesar de ter nascido na Alemanha e me sentir alemão, o meu coração bate forte também pela Turquia, país de meus pais. Eu tenho dois corações: um alemão e um turco. Em maio passado me encontrei em Londres, por acaso, com o presidente turco Erdogan, numa campanha de caridade envolvendo muitos países da Europa. Aparentemente, essa foto não tinha nenhum motivo político e foi apenas em respeito à terra de nascimento de meus pais. Era tempo de eleições na Turquia, mas não pensei no assunto. Teria feito a foto mesmo se não fosse tempo de eleições”.

E ele continuou: “Alguns jornais alemães usaram a foto com Erdogan para começar a me metralhar por todos os lados, ligando este acontecimento com a perda da seleção alemã, nas primeiras eliminatórias da Copa do Mundo. Eles não faziam críticas às minhas performances no jogo, mas apenas me culpavam pelo fato de ter pais turcos e respeito pelo país de meus ancestrais. Isto atingiu as minhas fronteiras pessoais, o que eu condeno veementemente. Muitos jornais tentaram colocar o povo alemão contra mim pelo fato de ter pais turcos. Eu tornei-me o bode expiatório pela perda da seleção alemã”.

A indignação de Ozil, contra a propaganda de ódio racial, promovida por muitos órgãos da mídia alemã, teve outra repercussão em sua vida, conforme ele mesmo relatou: “Iria visitar a minha antiga escola Berger-Feld, em Gelsenkirchen, com dois parceiros, para ajudar as crianças mais carentes. Alguns dias antes, esses meus parceiros dessa iniciativa desistiram de me acompanhar até lá, e logo depois, a escola me ligou para dizer que havia cancelado o evento, pois não queria publicidade negativa para a escola, após as críticas à minha foto ao lado de Erdogan. Em 2014, venci o campeonato mundial de futebol junto com os meus parceiros da seleção alemã. E em 2010, já havia recebido uma condecoração, o Prêmio Bambi, pela minha exemplar integração à sociedade alemã. Mas, desde a derrota agora da seleção alemã na Rússia, noto que o presidente da Confederação Alemã de Futebol, Reinhard Grindel, e outros de seus companheiros daquela organização, resolveram me apontar como uma das causas dessa derrota”.

Ozil terminou a sua carta afirmando: “Aos olhos de Grindel e seus apoiadores, eu sou alemão apenas quando a seleção alemã vence a partida. Quando ela perde, então sou um imigrante, um turco. Apesar de todos os meus esforços para fazer tudo pelo meu país, a Alemanha, muitos ainda não me aceitaram como um igual e criticam tudo que faço. O fato de ter tirado aquela foto em Londres, ao lado do presidente turco, Erdogan, fez com que as coisas mudassem para pior. Não posso, de maneira alguma, aceitar essa forma de racismo e é por isso que resolvi enviar esta carta à Confederação Alemã de Futebol, renunciando às minhas futuras participações em jogos da seleção alemã. Não jogo e nunca joguei futebol para promover racismo”.

Concordo 99% com Ozil e sou contra o racismo, seja de que forma for. Não podemos estimular o racismo como uma forma de olhar as pessoas e julgar as suas performances. Ou o jogador jogou bem ou jogou mal. A sua origem, a origem de seus pais,  jamais deve estar na explicação de qualquer mau desempenho desse excelente jogador alemão. Racismo é atraso de vida, principalmente num país que já gerou figuras históricas abjetas como Adolf Hitler.  Meu 1% em que não concordo com Ozil está na sua atitude “ingênua” de tirar uma foto com um presidente tão controverso, um ditador, que já havia procurado, várias vezes, se imiscuir na vida política alemã. Faltou bom senso e alguns segundos extras de reflexão para ver que aquela foto poderia dar munição aos racistas do país e de toda a Europa, já que todos condenam a ditadura de Erdogan. 

Dito e feito. Assim que a carta de Ozil foi divulgada em todos os jornais, principalmente nos alemães, também foi divulgada a notícia de que Erdogan havia enviado felicitações a Ozil pela sua coragem. Até o momento, Ozil não se manifestou mais sobre o assunto. Somente o ministro do interior e esportes da Alemanha disse que não esperava que mais lama fosse jogada neste episódio, pois só teríamos perdedores. E acrescento que, a meu ver, Ozil é adulto suficiente para saber de tudo isso e  de que Erdogan iria usar a foto, de uma maneira ou de outra, para motivos políticos.

Quando comentei o fato com um amigo brasileiro, filho de italianos, ele afirmou categoricamente: “Concordo com você. Se algum político do tipo Mussolini viesse ao Brasil, não iria, de forma alguma, tirar uma foto com ele pelo simples fato dele ser da Itália, a terra natal de meus pais”. Mas vale lembrar que nem todos pensavam assim, pois Mussolini era querido por muitos italianos e no Brasil por muitos integralistas e fascistas. Com isto quero dizer que tudo depende também da opção política de cada pessoa. Garanto que muitos brasileiros iriam sim tirar foto com ele, principalmente antes de Getúlio ter sido forçado a apoiar o eixo dos aliados. 

Pois é, Ozil não quer nada com racismo, mas deveria ter no mínimo uma percepção política que o ajudaria a evitar a esperteza de certos políticos ditatoriais, que procuram ganhos políticos, até mesmo fora de seu país. Se isto não tivesse ocorrido, os racistas alemães não teriam desculpas para atacá-lo, como o fizeram agora na imprensa alemã. Eles não teriam uma desculpa tão boa como aquela foto.

E uma coisa puxa a outra. Há pouco tempo, pesquisando na Internet, deparei-me com uma foto estranha de um jantar do Rotary Club, num Estado do Norte do Brasil, onde seus participantes estavam reunidos à volta de várias mesas, trajando ternos e gravatas. O que me chamou a atenção naquela foto foram as bandeiras hasteadas no fundo da mesma, junto ao muro: a bandeira do Rotary e a bandeira da Alemanha Nazista, com a suástica de Hitler como destaque. Segundo a explicação ali, foi porque o embaixador da Alemanha Nazista esteve presente ao jantar como convidado especial.

Isso ocorreu antes de Getúlio ter decidido dar o seu apoio de fato ao Eixo dos Aliados, já que antes ele já havia claramente demonstrado a sua simpatia para com os nazistas. Lembro-me que após ter me deparado com aquele foto, eu a enviei a todos os participantes do Rotary aqui em Heusden, com a seguinte pergunta: “Por que os membros do Rotary Club daquele Estado brasileiro teriam se prestado a fazer aquela foto e ficarem sujeitos a controvérsias políticas que  poderiam ser funestas para a vida futura daquele Clube?”.

Outros tempos, mas o mesmo erro de Ozil...

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

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