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10/08/2018 | domtotal.com

Cultura, cultura, cultura!

A crise que assola o Brasil tem a ver com a nossa identidade cultural.

A Cultura nunca foi objeto de desvio de recursos, em escala, que seriam destinados à educação, saúde ou habitação. Nunca!
A Cultura nunca foi objeto de desvio de recursos, em escala, que seriam destinados à educação, saúde ou habitação. Nunca! (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Em troca de correspondência com um amigo querido, já há algum tempo, defendi com unhas e dentes, mas com leveza e certeza, as razões que me faziam permanecer na batalha da causa cultural, sobretudo num país tão absurdamente desigual e injusto, e, por isso mesmo, absolutamente carente de ações e programas estruturadores nessa área.

Recupero aqui, resumidamente, o que escrevi na ocasião: ‘como todos sabemos, o Brasil é um país de desafios, contradições, desenganos, potencialidades, exuberâncias, carências, injustiças, desperdícios, indignidades e paradoxos tremendos.

Essas contradições nos marcam e nos mascaram, nos revoltam e nos paralisam, nos machucam e nos deixam de certa forma “aparentemente” indiferentes, mas também nos movem em direção a práticas reais de inclusão e superação da realidade que nos cerca.

Do meu ponto de vista, há um discurso recorrente mais à esquerda do que à direita, que tangencia, sempre, na questão da cultura como bem supérfluo, secundário, perfumaria de burguês ou coisa que o valha, como se fosse coisa de alienados pouco sensíveis à dura realidade do país, vazando, nas entre linhas, quase um constrangimento permanente, um incômodo quando se fala da necessidade de verbas robustas, de políticas públicas relevantes e da priorização desse setor num país ainda com milhares de miseráveis, com hordas de gente abaixo de linha da pobreza, índices vergonhosos de escolaridade, criminalidade crescente, saneamento básico e moradia escassos e uma corrupção endêmica.

Como se falar em Cultura, em arte, nesse ambiente, fosse algo pecaminoso, embaraçoso, quase repugnante ou de um elitismo atroz. Recuso esse discurso e a perversidade que ele esconde. Já ouvi isso da boca de muita gente “bem intencionada”, mas de um conservadorismo (reacionarismo) político terrível, sob o manto protetor dos dogmas da esquerda, ‘monopolizadora’ da preocupação social. Quanta coisa ruim assistimos, ouvimos e/ou somos submetidos em função do entendimento da cultura como instrumento de “transformação social” (engodo em muitos campos da criação), como se ela precisasse desse adjetivo ou motivação para ser considerada “séria” o “útil”.

Cultura transforma per si!

Sempre entendi e defendi a Cultura como item fundamental da cesta básica de qualquer cidadão, que é direito de todos e não de poucos e que deveria estar junto com os direitos sociais, de saúde, de educação e de habitação decente.

Cultura, para mim, é o que amalgama e dá caráter, singularidade, que nos eleva como seres humanos, que nos dá vida e alegria, rompendo o estágio de barbárie.

Historicamente os investimentos públicos e privados nessa área sempre foram pífios, ínfimos, mínimos, infelizmente, tem sido assim, seja nos municípios, nos Estados ou na União. A malha cultural brasileira é raquítica, nossa estrutura institucional precaríssima e nossa infraestrutura parca e frágil.

A crise que assola o Brasil tem a ver com a nossa identidade cultural, com o que somos, com o que fazemos, com o que produzimos, com a forma como encaramos os fatos e as situações, como nos calamos ou protestamos, como nos vemos no mundo.

Antes de tudo, tem a ver com ausência de cultura, de repertório, de informação, de nos entendermos, nós brasileiros, sobretudo os pertencentes aos extratos sociais mais explorados, como seres livres, com livre arbítrio, aptos à mudança do seu modo de ser e de estar no mundo, com outra bagagem e repertório.

Cultura é esta porta, é esta passagem, é este passaporte. Sempre entendi e vi assim.

Fui secretária de estado de cultura pensando assim; trabalhei mais de 30 anos nessa área pensando nisso e busquei, à minha maneira, inocular o vírus da cultura no âmbito da esfera pública, dentro dos meus limites, obviamente, insistindo na necessidade de reinserir esse tema na pauta governamental, com dignidade e recursos.

Disse no meu discurso de posse: cultura é verbo e verba!

Há de se parar de se ter vergonha de se viver dignamente e trabalhar nesse setor, como se isso fosse imoral.

A Cultura nunca foi objeto de desvio de recursos, em escala, que seriam destinados à educação, saúde ou habitação. Nunca!

Se o país enfrenta a situação que atravessa hoje, se o país vive um processo profundo de crise de identidade, na minha opinião, isso tem tudo a ver com o baixo investimento e apoio à Cultura, no seu sentido mais amplo’.

Fim da primeira parte.

*Jornalista, editora, gestora e produtora cultural, atualmente é diretora executiva do Museu de Arte do Rio – MAR.

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