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Religião

10/08/2018 | domtotal.com

O amor-compaixão e a solidariedade-cidadã: antídotos contra a indiferença social

O compartilhar amor é a energia mais poderosa no processo de humanização.

O amor-compaixão quando aflorado nos torna sensíveis ao outro, a ponto de sentir-nos incomodados diante da injustiça, da exclusão e da indiferença social.
O amor-compaixão quando aflorado nos torna sensíveis ao outro, a ponto de sentir-nos incomodados diante da injustiça, da exclusão e da indiferença social. (Reprodução/ Pixabay)

Por Edward Guimarães*

Entre os maiores e mais graves desafios da vida contemporânea destaca-se a superação desta desumanizante cultura da indiferença social. A vida urbana e as múltiplas tecnologias de transporte e comunicação favorecem aproximação, por um lado, mas contraditoriamente também nos distanciaram uns dos outros. Morar na mesma cidade, bairro, rua, prédio, casa, infelizmente, não garante uma boa convivência respeitosa, dialogal e afetuosa entre as pessoas. Muitos experimentam a solidão ou a indiferença, mesmo cercado de pessoas por todos os lados. O mesmo pode ser dito das tecnologias de transporte e comunicação. As novas possibilidades suscitadas pela criação do avião, trem, carro, motocicleta, bem como do correio, telefone, internet, rede social virtual, smartphone... não destruíram as lógicas e dinâmicas que criam distâncias, desencontros, solidões, exclusões, preconceitos, violências e indiferenças entre nós. 

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Entretanto, creio que ninguém negue, pelo menos em princípio, que o que mais nos realiza e nos deixa feliz como pessoa está diretamente relacionado com a concretização de uma boa convivência familiar, com os amigos e amigas, com os colegas de trabalho e com todos que interagimos nas mais diversas experiências sociais no cotidiano da vida. Todos desejamos ser bem acolhidos com atenção e um sorriso afetuoso, reconhecidos em nossa dignidade humana e cidadã, ser bem tratados, ouvidos, amparados quando em necessidade, abraçados, amados. Todas essas posturas são aprovadas tacitamente por cada um de nós, reconhecidas e avaliadas como positivas.

Acontece que, infelizmente, não são elas que predominam em nossas atitudes, posturas e relações. Ao contrário, analistas das sociedades contemporâneas reconhecem entre recorrentes práticas impiedosas e violentas, posturas individualistas e excludentes, bem como crescente tendência à globalização da indiferença social. Por que será que isso acontece? Será que nos falta reflexão e avaliação crítica e autocrítica? Penso que sim, mas não isso não explica tudo. A condição humana é de potencialidade aprendiz. Não nascemos prontos. Carecemos passar por um longo processo coletivo de aprendizado para nos humanizar. Toda pessoa, ao nascer, precisa ser educada em e para a convivência social. Somos constitutiva e simultaneamente indivíduos e sociedade, sendo que a arte do bem-viver-conviver é conquista diária e sempre em construção.

Para desenvolvermos nossas potencialidades humanas, precisamos ser, antes de tudo, amados e bem cuidados, seja no seio familiar, seja nos diversos níveis e espaços de convivência na vida em sociedade. Há uma multiplicidade de experiências na história da humanidade quanto ao cuidar do contínuo processo de humanização, sobremaneira das novas gerações. Sistematizar e transmitir, para crianças e jovens, o legado de sabedoria acumulada na caminhada do grupo e sem fechar-se à novidade que cada geração traz, sintetiza, basicamente, o segredo da evolução de cada sociedade.

O compartilhar amor é a energia mais poderosa no processo de humanização. Amar é uma decisão que precisamos, o quanto antes, aprender a tomar. Nascida do respeito e da admiração, a dinamismo criativo do amar se transforma em fonte de sentimentos gratificantes, que provoca e promove o cultivo do gosto de estar junto e partilhar o que somos e o que temos e estimula a arte de aprender a conviver com outro. Mas o amor não elimina a nossa condição de ambivalência. O dom da liberdade, pressuposto para o amor se concretizar, implica a tomada de consciência do livre arbítrio. Este cria a condição de ambiguidade. Isso significa que teremos sempre a possibilidade de amar ou odiar, ajudar ou atrapalhar, compartilhar ou reter, pensar no outro e ser generosos ou fechar-nos e ser egoístas, etc. Esta condição pede vigilância e discernimento nas escolhas que fazemos.

As sociedades contemporâneas, de modo singular as ocidentais, deixaram-se dominar pela centralidade do mercado com suas regras frias e indiferentes à dignidade da vida. O acesso ao consumo dos produtos e mercadorias oferecidos pelo mercado passou a ser sinônimo de felicidade e realização. Sem dar-se conta, talvez, o ser humano, paulatinamente, passou a ser coisificado e foi sendo reduzido a mero consumidor. E como o poder de consumir, segundo as regras do mercado, exige a condição de ter dinheiro, este passou a ser o objeto mais cobiçado, a pérola mais preciosa a ser buscada por todos. E como sem dinheiro você não é considerado, você se torna um “Zé ninguém”, o segredo da vida passou a ser regido pelo verbo acumular e não mais o aprender a amar e a bem se relacionar com as pessoas. Não precisamos dizer mais do que isso para compreendermos as origens da desigualdade e da cultura da indiferença social.

Nem tudo está perdido. Isso porque o ser humano traz em si o dom do amor-compaixão. Ele possui uma estrutura interna que o estimula, pela reflexão, a se colocar no lugar do outro e, ao fazê-lo, sentir a sua alegria ou a sua dor. É claro que o amor-compaixão precisa ser testemunhado, estimulado e aprendido. E nada melhor do que criarmos dinâmicas e gramáticas de solidariedade-cidadã para que esta potencialidade humana se desenvolva e aflore. Uma pedagogia de gestos autênticos de solidariedade, ainda que pequenos, é capaz de despertar verdadeiras revoluções sociais. Suscitar movimentos populares de luta em defesa da dignidade da vida. Fazer com que grupos diversos passem a exigir políticas públicas garantidoras da igual dignidade cidadã dos excluídos. Encorajar pessoas diversas a saírem da zona de conforto e irmanarem-se nas diversas lutas em defesa da coletividade. O amor-compaixão quando aflorado nos torna sensíveis ao outro, a ponto de sentir-nos incomodados diante da injustiça, da exclusão e da indiferença social. A solidariedade-cidadã mobiliza forças pessoais e sociais criativas com poder de transformação das estruturas frias e indiferentes da sociedade.

Quando compreendemos o poder do amor-compaixão e a força da solidariedade-cidadã para suscitar entusiasmos, mobilizações e transformações culturais e sociais deciframos o segredo do fascínio exercido sobre nós por Jesus de Nazaré, Francisco de Assis, Tereza de Ávila, Mahatma Gandhi, Tereza de Calcutá, Helder Câmara, Nelson Mandela, Dalai Lama, Herbert de Souza, Zilda Arns, Marielle Franco, papa Francisco e de tantos outros homens e mulheres que impulsionaram ou concretizaram verdadeiras revoluções sociais em seu tempo e contexto. Mas, mais do que isso, encontramos o antídoto contra a hegemônica cultura da indiferença social.

*Prof. Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães é mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, orientado por João Batista Libanio. Atualmente é doutorando em Ciências da Religião na PUC Minas, com uma pesquisa sobre o legado teológico de João Batista Libanio. É professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização. É assessor das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Membro do Conselho Arquidiocesano de Pastoral e do Conselho Ampliado de Formação do Seminário Arquidiocesano.

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