;
Religião

10/08/2018 | domtotal.com

A solidariedade de Jesus e a solidariedade do cristão com os pobres e sofredores

A vida do cristão, com prosseguimento da vida de Jesus, deve se manifestar no mesmo amor prático que assume a situação de indigência em que vive grande parte da humanidade.

Se queremos participar da ressurreição de Jesus, nossa vida deve ser como a dele, o que implica provocar sinais de vida e de ressurreição.
Se queremos participar da ressurreição de Jesus, nossa vida deve ser como a dele, o que implica provocar sinais de vida e de ressurreição. (Reprodução/ Pixabay)

Por Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

É muito comum ouvirmos ou falarmos de solidariedade, tanto em âmbito de fé, como fora dele. Na maioria das vezes, ao usarmos essa palavra, estamos nos referindo a algum tipo de ajuda esporádica dada a alguém em situação difícil. E, assim, a solidariedade fica restrita a perceber uma situação urgente e fazer algo para saná-la naquele momento. Porém, é preciso pensar a solidariedade em termos mais amplos, em termos estruturais. É isso que nos recorda o Papa Francisco no seu discurso no I Encontro Mundial dos Movimentos Populares: “Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, da terra e da casa, da negação dos direitos sociais e laborais”. É preciso, no mundo atual, superar a “cultura do descartável” (EG 53), “globalização da indiferença” e “ideal egoísta” (EG 54), por meio da cultura da solidariedade que ouve “o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra” (EG 190).

Leia também:

Em âmbito de fé, podemos descrever essa solidariedade com os pobres e sofredores a partir de sua raiz cristológica. A encarnação, vida e missão, morte e ressurreição de Jesus nos apresentam suas profundas convicções, atitudes e práticas que manifestam a solidariedade com os pobres. Nessa esteira, também o cristão é chamado à dinâmica do seguimento como vivência e prosseguimento dessa estrutura fundamental da vida de Jesus como solidariedade com os pobres e sofredores. Vejamos como isso aconteceu na vida de Jesus e deve acontecer na nossa vida.

O primeiro elemento da vida de Jesus é sua encarnação. Ela não se deu no mundo sem mais, mas no mundo dos pobres e excluídos. A kenosis do Verbo se dá no assumir nossa condição humana frágil e pobre (cf. Fl 2,4-8) e, assim, “se fez pobre” (2 Cor 8,9) e de modo muito preciso: sua acolhida se deu pelo “sim” de uma jovem pobre e humilde de uma aldeia esquecida na periferia de um grande império (cf. Lc 1,26-38); nasceu num presépio, entre os animais e os primeiros que souberam de seu nascimento foram os pastores, gente marginalizada e excluída (cf. Lc 2,1-20); foi apresentado no Templo com a oferta dos pobres (Lc 2,24) e cresceu num lar simples de trabalhadores e trabalhou com suas mãos para ganhar o pão (cf. EG 197). Por isso, Bento XVI recordou, na abertura da Conferência de Aparecida, que a opção pelos pobres “está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós para enriquecer-nos com sua pobreza” (Documento de Aparecida. São Paulo: Paulus; Paulinas, 2011. p.255). É preciso superar a tentação gnóstica daqueles que “concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada em uma enciclopédia de abstrações” (Papa Francisco, Gaudete et Exsultate (GE), n.37). Uma encarnação real implica uma inserção real no mundo dos pobres, sua defesa e participação em seu destino: “eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi seu grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios” (Ex 3,7-8a).

O segundo elemento é a vida e missão de Jesus: na sinagoga de Nazaré, ele apresenta o programa da sua missão: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18); proclamou os pobres como destinatários do Reino: “felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20); se mostra cheio de compaixão pelas multidões que eram como ovelhas sem pastor (Mt 9,36); curou muitos doentes marginalizados, tocando sua carne sofredora (Mc 8,3); acolhe os pecadores (Lc 15,1); as mulheres (Lc 8,1-2), as crianças (Mc 10,13-16)... Enfim, a vida de Jesus pode ser resumida na afirmação de Pedro: “Ele passou fazendo o bem” (At 10,38). Assim também a vida do cristão, enquanto prosseguimento da vida de Jesus, deve se manifestar no mesmo amor prático que assume a situação de indigência em que vive grande parte da humanidade para devolver-lhe a vida e a dignidade, anunciando-lhes a Boa Nova de libertação e servindo a ela. Essa exigência fundamental do Evangelho não pode ser separada do relacionamento do cristão com o Senhor, da união com Ele, da graça (cf. GE 100). Mas também não se pode viver a nocividade dos que suspeitam do “compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então o relativizam como se houvesse outras coisas mais importantes [...]” (GE 101). E isso se deve dar tanto na defesa do nascituro, “porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada”, quanto na “igualmente sagrada [...] vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte” (GE 101).

O terceiro elemento dessa estrutura fundamental é o contexto de perseguição, cruz e morte. Na cruz, Jesus se solidariza com os pobres e sofredores desse mundo. Sua cruz expressa a fidelidade até o fim à missão recebida pelo Pai. Inocente, ele foi condenado à pior morte, expressão de maldição (cf. Dt 21,22-23) e também nisso se solidariza com os pobres e sofredores, crucificados todos os dias, insultados e blasfemados. Deles se pode dizer que completam na própria carne o que falta às tribulações de Cristo (Cl 1,24). Quem toma sua defesa também sofre perseguição e cruz, mas nisso está a máxima identificação com Jesus e a prova de muito amor: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

O quarto elemento é a ressurreição. Os discursos dos Atos dos Apóstolos recordam com uma expressão, que é quase um refrão (“Vós o matastes... Deus o ressuscitou” (cf. At 2,24; 3,13-15; 4,10; 5,30; 10,39; 13,28)), algo muito fundamental: o Ressuscitado é o Crucificado, o mesmo Jesus que em tudo foi solidário com os pobres e sofredores, na sua fidelidade ao Reino de Deus. A ressurreição de Jesus, a vítima inocente que fora injustiçada, é esperança, em primeiro lugar, para os pobres, vítimas injustiçadas pelos poderes opressores de todos os tempos. Assim, se queremos participar da ressurreição de Jesus, nossa vida deve ser como a dele, o que implica provocar sinais de vida e de ressurreição: “Pelo fato de eu ressuscitar, devo ir ressuscitando e provocando ressurreição. [...] A cada ato de fé na ressurreição deve corresponder um ato de justiça, de serviço, de solidariedade, de amor” (CASALDÁLIGA, Eu creio na ressurreição. Concilium, n.318, pp.120-122, 2006. (aqui: p.122)).

Por fim, nosso encontro definitivo com o Senhor na parusia terá como critério o que fizemos a Ele que se identifica com o pobre, o faminto, o sedento, o nu, o forasteiro, o doente, o preso (cf. Mt 25,31-46). Recordando essa passagem evangélica na via sacra com os jovens na JMJ da Polônia (29/07/2016), disse o Papa Francisco: “Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor. O próprio Jesus no-lo disse, ao explicar o ‘Protocolo’ com base no qual seremos julgados: sempre que fizermos isto a um dos nossos irmãos mais pequeninos, fazemo-lo a Ele (cf. Mt 25, 31-46)”.

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte/MG e Professor de Teologia Sistemática na Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) – Fortaleza/CE.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas