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Religião

10/08/2018 | domtotal.com

Cruzada laical contra a pedofilia

Depois do Chile, é a vez da Igreja Católica dos EUA enfrentar, mais uma vez, uma crise relacionada à pedofilia. Desta vez, até cardeal perdeu o barrete vermelho por causa dos escândalos. Os extremos levarão a igreja americana a pedir reforço dos leigos.

Papa Francisco em procissão com os jovens durante a Jornada Mundial da Juventude de Cracóvia-Polônia, em 2016.
Papa Francisco em procissão com os jovens durante a Jornada Mundial da Juventude de Cracóvia-Polônia, em 2016. (ANSA)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Uma pesquisa realizada esta semana pela rede Cadem, do Chile, mostra que 96% dos chilenos acreditam que a Igreja Católica acoberta os abusos sexuais envolvendo sacerdotes no país. Além disso, o resultado aponta que houve uma queda significativa no número daqueles que dizem professar a fé católica. Em 2007, os católicos somavam 67% da população. Hoje, eles são 46%. Já o Papa Francisco conta com 56% de aprovação, de acordo com a enquete 238, cuja introdução é intitulada La iglesia católica en su hora más oscura. Os números assustam, mas não surpreendem. A visita do pontífice argentino ao país foi um dos maiores desastres do seu papado. Nem a figura carismática de Bergoglio foi capaz de atrair as multidões às quais eles estava acostumado a receber em seus eventos. Tudo isso foi reflexo de um episcopado que, à época da visita pontifícia, quis demonstrar que era inabalável diante do descontentamento de toda uma nação frente aos escândalos.

Agora é a vez da Igreja Católica dos Estados Unidos viver sua própria (nova) crise. Para quem pensava que a questão da pedofilia fosse uma página virada após a investigação Spotlight, de 2001, tem se surpreendido com os personagens do atual enredo. Como vimos em todos os jornais, até o cardeal Theodore Edgar McCarrick, acusado de cometer assédio sexual contra um jovem de 16 anos quando ainda era sacerdote, foi removido do ministério público, e deverá aceitar, a partir de agora, uma “vida de oração e penitência”, segundo determinação de Papa Francisco. Diante da pressão, o prelado, já arcebispo emérito de Washington, também pediu para se desligar do colégio cardinalício, mesmo após ter declarado inocência.

Outro caso que representa que esta crise não está para brincadeira é o da diocese de Saint Paul e Minneapolis. Em um acordo firmado em junho deste ano, a igreja particular se dispôs a pagar 210 milhões de dólares de indenização à vítimas de padres pedófilos dos últimos 60 anos. E agora, como controlar a crise? Ou a quem recorrer para controlá-la?

Papa Francisco, que aplica sua linha de tolerância zero a padres pedófilos, tem tentado, ao longo dos anos, colocar as rédeas da situação nas mãos dos leigos. Uma demonstração disso foi a criação do comissão vaticana de combate à pedofilia. Ela é composta, em sua maioria, por leigos, entre os quais algumas vítimas de religiosos abusadores. No caso da Igreja no Chile, se o catolicismo quiser resgatar parte da sua própria imagem, deverá recorrer justamente a eles para recuperar a credibilidade perdida, uma vez que os sentimentos de desconfiança e de hostilidade recaem justamente sobre padres e bispos. Nesse ponto, a fechada igreja americana começa a abrir-se para essa possibilidade. Ancorada pelo sucesso do Papa Francisco entre os hispano-americanos e pelo “espírito papista” herdado dos imigrantes irlandeses e poloneses do século XX, a promoção desse “protagonismo leigo” é vista como a estratégia da vez. Diferente do caso do Chile, o catolicismo nos Estados Unidos conta com o crescimento de um laicado engajado, que apesar de nem sempre demonstrar empatia em relação ao papa, não deixa de prestar devoção à sua figura. Entre 1995 e 2005, período em que vieram à tona os maiores escândalos de pedofilia que atingiram a igreja nos Estados Unidos, curiosamente o número de diáconos permanentes teve um crescimento de 50%.

Em comunicado publicado esta semana, Edward B. Scharfenberger, bispo da diocese americana de Albany, confirmou essa “onda leiga anticrise” através de um comunicado oficial:

 “A Igreja necessita agora de uma comissão independente guiada por líderes leigos irrepreensíveis; pessoas cujo papel não lhes servirá para benefícios nem econômicos nem políticos [...] Acredito que chegamos em um ponto no qual bispos que investigam outros bispos não são a resposta. Para ter credibilidade, os investigadores deveriam estar separados de qualquer fonte de poder, uma vez que, assim sendo, a credibilidade pode ser comprometida”, salientou o prelado.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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