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10/08/2018 | domtotal.com

Quem quer ser milionário?

Nesses tempos de desemprego e vida dura, criar letras de música pode ser uma excelente alternativa.

De posse de um dicionário e sentimentos que saltam no seu peito como um touro num rodeio, comece a montar os versos.
De posse de um dicionário e sentimentos que saltam no seu peito como um touro num rodeio, comece a montar os versos. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

“Queria dedicar-te esta canção / Mas a vida é ilusão / Vou tomar todas / Uísque, cachaça e cerveja / Até que você veja / Como me maltrata / Perdi o seu amor/ Ó, por favor! / Você me traiu / Pra mim mentiu / Foi com ele pro motel / Que dor cruel / Vou-me embora pra cidade / Pra curar sua maldade / Bebendo até de madrugada / Sofrendo na balada / Agora é só beber, beber / E pra sempre te esquecer! / (Bis) Beber, beber, beber / E pra sempre te esquecer!”

Gostaram dos versos? Que bom, muito obrigado. São meus; fazem parte da música que acabei de compor. Trata-se de uma nova experiência afinada com as principais tendências da cultura popular brasileira. Dediquei à tarefa muito esforço e atenção – na verdade, quinze minutos escutando os sucessos do momento. Pouco a pouco, vou descobrindo os intrincados segredos das duplas e trios do momento para alcançarem os corações da moçada e os cumes da fama e da fortuna. Agora, só falta pedir ao querido Célio Balona para compor a melodia; topa, amigão?  

Nesses tempos de desemprego e vida dura, criar letras de música pode ser uma excelente alternativa. E não só para quem escreve, como eu - mas para você também, caro engenheiro, médico, dentista, economista, pesquisador, cientista ou professor. É fácil e rápido! Com meia dúzia de canções desse estilo abrem-se as porteiras das feiras agropecuárias, baladas, shows de norte a sul.  

Soltem suas rédeas, mulas e boiadas pelas trilhas empoeiradas da emoção primitiva, do amor não correspondido! Viva o chifre e a dor-de-corno, a sedução irresistível do sutiã de onça dela e outros detalhes que espicaçam o desejo de um homem.

Com chapéu de vaqueiro, cinto de fivela imensa e botas de cowboy, fica mais fácil para a Inspiração descer da cerca e montar na garupa, açoitando sua criatividade. Ajuda muito, também, ser um pouco fanho, ter a voz anasalada. Na pesquisa percebi que cantores de sucesso têm essa curiosa característica: cantam de nariz entupido, talvez impregnados pelo cheiro de bosta de boi.  

De posse de um dicionário e sentimentos que saltam no seu peito como um touro num rodeio, comece a montar os versos. Algumas palavras são fundamentais, jamais podem ser deixadas de lado: saudade, coração, paixão, traição, cama, lama, abandonou, traiu, partiu, feriu, esqueceu, magoou, casamento, aliança, lembrança, trança, vingança. Diminuitivos não podem faltar: docinho, benzinho, peitinho e beijinho, por exemplo, que ainda favorecem a rima com o imprescindível “carinho”. Quando faltar alguma coisa para completar a estrofe, use “Ei! Ei! Ei!”, palmas, gritos. Não se esqueça de apimentar a obra com algum toque libidinoso, quase pornográfico, enaltecendo os atributos físicos do seu amor: “mergulho no seu decote”, “seu jeito de vaca louca” ou “menina, te agarro pela crina”.  

Explore, sempre que possível, situações banais do cotidiano, dando a estas uma conotação especial. Um palito de dentes usado pelo seu amor após o churrasco pode ser a base de um sucesso estrondoso com o título “Guardei o seu Gostinho” ou “Aquele fiapo de Picanha”. Rivais, traições e assédios enriquecem sobremaneira a narrativa poética. “Larga ela e pula aqui”, “Comigo é que rola”, “Vem pra minha camionete” inspiram bons versos iniciais, cheios de possibilidades. Enfim: na guerra, no amor e no estúdio de gravação, vale tudo.

Conselho final: o sucesso virá acompanhado da inveja. É inevitável, prepare-se. Cronistas desqualificados como este aqui, músicos e compositores talentosos dirão que seu repertório é uma porcaria, uma coleção de asneiras primárias, produto de jabás, oportunismo descarado. Não se abata: agarre o microfone, feche os olhos, levante o braço; berre com vontade e nariz entupido:

- “Tô nem aí, moçada / Pra esta gente sacana/ Meu negócio é cerveja, mulher, balada / E muita grana!”

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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