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17/08/2018 | domtotal.com

Às voltas com as voltas do táxi-Brasil

Levei quarenta e cinco minutos para voltar ao lugar de partida.

Obviamente, em certa medida, retrato genuíno do Brasil.
Obviamente, em certa medida, retrato genuíno do Brasil. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Começo a escrever este artigo dentro de um táxi, em meio a um engarrafamento rotineiro de fim de dia, indignada e constrangida com a volta engendrada pelo motorista. Desta feita, passei pelo ápice do golpe dos taxistas e seus caminhos mirabolantes e propositalmente escolhidos para dobrar o valor da corrida. Furibunda com a desfaçatez e a induzida ‘roubada’ do trajeto traçado pelo vil condutor, vi-me em situação complicada, perigosa e imobilizada, sem qualquer possibilidade de saltar do carro ou mesmo tomar outra providência. Levei quarenta e cinco minutos para voltar ao lugar de partida e pegar, finalmente, o caminho para o túnel que me ligaria à zona sul do Rio, onde resido.

Inconformada com o golpe e com o discurso do biltre motorista, fingindo de tolo e desinformado, e com o tamanho do imbróglio em que estávamos metidos em decorrência de sua  voracidade financeira e das sérias consequências que poderiam ter advindo do “erro” do percurso adotado, relembrei as inúmeras tentativas de desvio, de proposição de rotas mais longas, de perguntas capciosas sobre preferências por determinadas vias, de pequenos e grandes cambalachos no taxímetro, dos penduricalhos de cobrança em função de mala (mínima) e assim por diante. Exausta e revoltada com esse procedimento padrão de taxistas cariocas, e, nesse particular, cabe, infelizmente, a generalização, pensei no Rio e em alguns traços comportamentais que me incomodam, tais como o gosto por levar vantagem em tudo, o culto à esperteza, a elevada autoestima quase irresponsável, a superficialidade das relações, o beneplácito excessivo com o jeitinho descolado de ser e o hedonismo exacerbado. Obviamente, em certa medida, retrato genuíno do Brasil.

Voltando ao episódio do táxi e ao emblema da questão central em torno do roubo, da e(x)perteza, da gracinha sem graça, dos pequenos abrangentes golpes cotidianos, da “corrupçãozinha” diária do molhar a mão em profusão, da prática incessante do agrado em numerário, da gorda gorjeta que encobre burlas diversas, do truco diário nos estacionamentos, nas vagas, no metrô, nos ‘gatos’ incontáveis, nos produtos embolorados em descontos nebulosos,  e da aparente desconexão dos usuários e praticantes/ beneficiários das infrações sem fim e do espelhamento das práticas do andar de cima no andar de baixo e vice-versa, o meu ceticismo com o caminho que vem sendo trilhado e construído com a participação de todos.

No fim da noite, ao chegar em casa e assistir na tevê o debate dos presidenciáveis, o delírio esquizofrênico da paranoia Ursal - a piada do ano, a revelação do episódio da Val, bolsonariana funcionária do velhaco milico que vem crescendo e ganhando corpo entre a burguesia financeira e industrial, representante da cara do Brasil que não vai para frente e surrupia a cidadania dos direitos e conquistas populares, me assalta um profundo desalento.

Enfim, às voltas com as voltas do táxi-Brasil, refém-passageira de maus condutores de habilitação falseada, seguindo, à deriva, o rumo da corrida mais cara.

*Jornalista e produtora cultural.

EMGE

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