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19/08/2018 | domtotal.com

Que bom seria!.....

Abri os olhos, respirei o ar puro da manhã, e contemplando a bucólica paisagem, fiquei refletindo em minha quimérica obra.

Ah! Que bom seria se as pessoas não errassem.
Ah! Que bom seria se as pessoas não errassem. (Divulgação / Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Manhã invernal. O sol despertou preguiçosamente, enquanto a brisa fria que vinha do mar, trazendo o murmúrio das ondas deslizando sobre a areia branca da praia, encontrou-me e abraçou-me sentado entre as árvores, ouvindo o trinar dos pássaros, cuja melodia a natureza se silenciou para também escutar. Fechei os olhos e comecei a devanear, numa inspiração que misturava o surrealismo de Dali, com o realismo fantástico de Borges e Cortazar, e a magia mística de Castañeda. E dessa amálgama, recordando Thomas Morus imaginei uma Utopia brasileira, pensando e repetindo: que bom seria!...

Ah! Que bom seria se tudo e todos, a todos agradassem inteiramente! Que bom seria se chovesse bastante, e simultaneamente o sol brilhasse intensamente. As plantas seriam irrigadas, contudo ninguém se molharia. O sol dourado, a terra aqueceria, porém a ninguém perturbaria!

Ah! Que bom seria se todos gostassem do branco, mas o preto fosse igualmente amado. Como seria bom todos torcerem por um mesmo time, porém sem nenhum outro ficar abandonado. Não haveriam torcidas fanatizadas, brigando e matando nas ruas por nada!

Ah! Que bom seria se todos gostassem de todos, e ninguém criticasse ninguém; como seria bom ver nossos desejos realizados, mas os dos outros todos, sendo atendidos também!

Ah! Que bom seria se a noite fosse clara, e o dia ficasse escuro, para os insones dormirem. Todavia, que a noite fosse também escura, e o dia, bem iluminado para todos sorrirem!

Ah! Que bom seria poder vestir o que se quisesse e gostasse, e todos, extasiados, ficassem apreciando. Como seria bom cantar a música que bem quisesse, e todos, em redor, aplaudissem também cantando!

Ah! Que bom seria poder falar o que se pensasse, e com nossas “verdades” todos estivessem concordando. Como seria bom não precisar explicar nem ter que provar nada, pois estariam todos acreditando!

Ah! Que bom seria se os filhos concordassem com tudo o que os pais lhes dissessem; e os pais, de muito bom grado, pudessem aprovar tudo o que seus filhos fizessem!

Ah! Que bom seria dirigir o carro sem se preocupar com a sinalização, pois os sinais estariam sempre favoráveis, em conformidade com a nossa direção!

Ah! Que bom seria se as pessoas não errassem, e nossos atos e palavras, a todos contentassem. Que bom seria se todos os sonhos acontecessem, e o mundo fosse exatamente como todos imaginassem!

Ah! Que bom seria se ninguém nos contestasse, não nos reprimisse, censurasse ou castigasse. Como seria bom se divergências não houvessem, e os que amamos, também sempre, e incondicionalmente, nos amassem!

Ah! Que bom seria se fossemos deuses, todos vivendo num paraíso, nada havendo para mudar, nada para nos contrariar; nada tendo para corrigir, e nada mais a conquistar!

Uma onda bateu com mais força nos arrecifes, desfazendo meus devaneios. Abri os olhos, respirei o ar puro da manhã, e contemplando a bucólica paisagem, fiquei refletindo em minha quimérica obra.

Ah! Que desatino seria um país como tal, uma vida como essa: sem batalhas a litigar, sem ter que trabalhar, sem esforço, sem a alegria do buscar e conquistar, sem luta, sem derrotas a nos ensinar, sem vitórias a comemorar. Vivendo dias iguais, numa límbica monotonia, sem a pugna do dia a dia, sem ânimo, sem alma, numa calma doentia, sem estímulo para amar, sem inspiração para versejar, sem lágrimas a enxugar, sem dar nem receber, sem razão para se viver! E sem porquê, viver, para que?

Ah! Que bom ter sido Deus quem fez o mundo, tal como ele é. Só Ele, com toda a sabedoria, e seu incomparável amor, poderia nos deixar com tantas contradições, tantos questionamentos, tantas perguntas sem respostas, tantas respostas sem perguntas, pois é isso, que à vida dá todo o seu sabor!

Que bom não termos sido nós, pretenciosos e utópicos humanos, os autores da vida, do ar, da água, da terra, das montanhas e das florestas, das pessoas e das relações interpessoais. Que bom tudo havermos recebido pronto, cabendo-nos contudo cuidar para de tudo usufruir, sem nada destruir, uma vez que não fomos capazes, de nada, do nada fazer surgir. Se tanto lamentamos, repetindo insanamente “que bom seria”, certamente é porque ainda não descobrimos como realmente é bom, tudo o que já existe e nos foi gratuitamente concedido, por um Criador que muitos ainda teimam desconhecer, negar, desafiar, e até mesmo tentar substituir.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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