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20/08/2018 | domtotal.com

Uma tragédia em Roraima

Roraimenses (ou não) que moram no estado, de todas as classes sociais, destilam forte preconceito contra os imigrantes.

O que acontece em Roraima onde estima-se que mais de 45 mil imigrantes já tenham entrado é grave.
O que acontece em Roraima onde estima-se que mais de 45 mil imigrantes já tenham entrado é grave. (Bruno Kelly/Reuters)

Por Ricardo Soares*

Voltei  recentemente de Roraima com a sólida impressão de que a xenofobia corre solta no estado em relação aos venezuelanos deserdados que cruzam as fronteiras desde Pacaraima até chegar a Boa Vista muitas vezes vencendo a distância de mais de 200 quilometros a pé.

Roraimenses (ou não) que moram no estado, de todas as classes sociais, destilam forte preconceito contra os imigrantes atribuindo-lhes a peja de "vagabundos" , "marginais" e as mulheres um coletivo de prostitutas. É estarrecedor que a essa altura a ausência das mínimas funções do estado não tenha feito sequer uma campanha de esclarecimento para explicar para os roraimenses -e para os brasileiros- que os venezuelanos não cruzaram a nossa fronteira porque querem e nem para fazer turismo. Ao contrário é por brutal necessidade.

A essa brutal necessidade soma-se a falta de empatia com o sofrimento do próximo  e aí vemos cenas lamentáveis como a desse fim de semana quando acampamentos de imigrantes foram atacados e queimados em Pacaraima para  só então esse inócuo governo Temer começar a se mexer embora tenha que se registrar a efetiva presença do Exército nos 10 acampamentos de refugiados em Boa Vista que são administrados pela Acnur, a agência de refugiados da Onu. Ali se amontoam com a organização e higiene possível 5000 mil refugiados venezuelanos enquanto outras centenas esperam pelo lado de fora dos acampamentos.

Talvez seja uma tragédia épica com a qual os brasileiros não estejam acostumados a não ser quando hordas de deserdados, os mesmos remotos retirantes retratados por Graciliano Ramos em "Vidas Secas" , invadiram desde sempre os nossos grande centros urbanos moldando a geografia definitiva das metrópoles.

O que acontece em Roraima onde estima-se que mais de 45 mil imigrantes já tenham entrado é grave, é desolador e merece nossa atenção já que os políticos do Estado, a começar da inócua governadora,não fazem nada e sequer colocam o problema como plataforma de suas campanhas eleitorais.  É assustadora a indiferença. É assustador  para onde estamos caminhando. Daqui a pouco haverá incautos a sugerirem um muro pra nos separar da Venezuela  nos confinando no nosso pobre individualismo nacionalista  que não deixa que enxerguemos que o humanismo e  a solidariedade deveriam sempre ultrapassar fronteiras.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista.Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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