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21/08/2018 | domtotal.com

Todos os encantos de (Des)encanto

A série não usa de anacronismos, mas arrisca comentários aqui e ali que debocham dos perigosos tempos em que vivemos hoje.

Tiabean ridiculariza o 'sangue azul' e propõe uma nova formatação para a imagem que temos da princesa clássica.
Tiabean ridiculariza o 'sangue azul' e propõe uma nova formatação para a imagem que temos da princesa clássica. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Esqueça todas as Cinderelas, Brancas de Neve e Belas - tanto as adormecidas quanto as bem acordadas. A partir de agora, não dá mais para falar de princesas sem pensar em Tiabean, a protagonista da série de animação (Des)encanto, recém estreada no Netflix.

Em um mundo completamente encharcado de princesas, era necessário que alguém do métier do entretenimento de massa criasse uma personagem para colocar a classe verdadeiramente em cheque, sem mais fru-frus ou mangas bufantes.

Matt Groening, que tanto já nos deu com suas figuras amarelas de Springfield, decidiu que era hora de voltar ao passado para contar uma nova história. A princípio, o que poderia parecer mais um oportunismo - afinal, até a Globo tentou embarcar na moda da Idade Média com a malfadada Deus Salve o Rei - acabou se revelando verdadeiro tour de force do criador dos Simpsons e Futurama.

Nem pense em sapatinhos de cristal ou em utensílios de cozinha que falam. A princesa do momento foge do castelo de madrugada para beber no pub local e só pensa em dar uns amassos em algum bonitão que estiver à disposição. Esta é Tiabean, filha do rei Zog, senhor dos destinos do reino de Dreamland (uma terra onde as fadas são prostitutas que atendem pássaros vestidos como executivos no horário do almoço).

Na companhia do amigo Elfo (um elfo, obviamente) e de um pequeno demônio pessoal (geralmente confundido com um gato preto falante), Bean odeia o pai, conspira para assassinar quem se coloca em seu caminho, tenta encontrar sua vocação profissional testando-se como embaixadora ou aprendiz de carrasco e, sob efeito de drogas alucinógenas, sonha formar uma banda. Nada que uma típica adolescente do presente ou passado não tenha vivido.

Seu pendor excessivo para o álcool faz lembrar Henrique V, eternizado por Shakespeare e encarnado no cinema por medalhões como Laurence Olivier e Kenneth Branagh, além de Tom Hiddleston, mais recentemente.

O grande feito de Henrique foi derrotar a França, à frente de um exército britânico desmantelado, na lendária batalha de Agincourt - o passo decisivo para colocar ponto final na Guerra dos Cem Anos. Porém, antes de se tornar rei, foi grande entusiasta do vinho e das orgias, sempre acompanhando o beberrão e devasso profissional Falstaff.

Como o célebre monarca, Bean irá passar por uma tortuosa jornada de amadurecimento, onde descobre o peso que as escolhas exercem sobre qualquer um de nós. O ponto de chegada, evidentemente, é também comum a todos: a vida adulta - mas isso é assunto para as próximas temporadas.

Violência, lirismo, fantasia, acidez e bobagem pura são os ingredientes que Groening mistura no seu cadinho mágico para destilar comédia e conjurar este (Des)encanto. Ao mesmo tempo em que ri de obras como Game of Thrones e O Senhor dos Anéis, também parodia toda a tradição das mitologias celta e anglo saxônica. Tudo isso enquanto desconstrói o universo dos contos de fadas e da literatura épica de cavalaria - o que não é pouco.      

O programa não usa de anacronismos, mas arrisca comentários aqui e ali que debocham dos perigosos tempos em que vivemos hoje. Ao ver a princesa dormindo em uma clareira com o amigo Elfo enrodilhado aos seus pés, um cervo diz: "Um elfo com uma humana? Isto não está certo!", para logo em seguida dar uma cuspida no chão e sair saltitando indignado.

Ou quando, ao tentar entrar na terra dos elfos, Tiabean é avisada pelos sentinelas que ali a presença de humanos é proibida. A princesa solta um "Não sabia que vocês eram racistas", (apelando para o senso do politicamente correto dos pequenos seres). A resposta que recebe dos elfos é tão reveladora quanto bolsonarista: "Como a melhor raça do mundo pode ser racista?" 

No episódio em que o rei a envia para um convento, a princesa questiona se não seria melhor derreter a estátua do deus sem rosto e transformá-la em moedas de ouro. Para ela, faria mais sentido se a religião distribuísse estas moedas entre os pobres ao invés de pregar que apenas se rezasse por eles. A madre da ordem - a de Nossa Senhora da Castidade Ilimitada - lhe dá um passa fora genial: "Como ousa trazer lógica para dentro da casa de Deus?"

É verdade que a temporada demora para engrenar, mas sua estrutura narrativa é brilhante. Nos primeiros episódios - pequenos atos com princípio, meio e fim mas com ganchos fortes para nos interessar a continuar assistindo -, enquanto nos acostumamos com o  os personagens, seus modos de agir e idiossincrasias e o universo onde estão inseridos, algumas pequenas sementes são plantadas para, mais adiante, germinarem de maneira orgânica junto ao arco dramático completo da atração.

De todos os episódios, o sétimo é o melhor, a partir da comédia de erros causada por uma mentira contada por Elfo, que deságua na necessidade de mais e mais mentiras para sustentar a primeira. Até aí, nada de novo; é certo que já vimos isso antes, mas a maneira com que (Des)encanto trabalha com os clichês é sempre digna de aplauso (e boas risadas). O capítulo fala sobre estereótipos, sobre preconceito, sobre lealdade e sobre... amor! - O pacote completo. 

Daí até o final, a temporada atinge seus melhores momentos, com os três últimos capítulos encadeados em uma narrativa única. Bean vai começar a conhecer sua verdadeira natureza e entenderá que é signatária de uma missão: é o inicio do despertar da princesa, consequência da caminhada feita até ali e que, fatalmente, a levará a tomar mais decisões difíceis.

Vale menção também o extremo cuidado com os cenários da série; provavelmente, os mais detalhados que já vimos no gênero, em se tratando de TV. É de tirar o fôlego cada vez que a câmera parece passear por todo o reino até chegar ao castelo, no alto do morro e à beira de um precipício, com direito a uma imponente cachoeira.

Entre todos os personagens, o demônio Luci e o Rei Zog sobressaem, justamente por não terem freios para dizer o indizível. Para tudo ficar mais delicioso ainda, esteticamente, Luci parece criatura saída direto de um filme dos anos de ouro dos estúdios de animação do leste europeu.

Admitindo seus erros e a tarefa hercúlea de, viúvo, ter criado a filha sozinha, o rei forja esta verdadeira pérola do sincericídio: "Você imagina o quanto é difícil ser pai, sem ter uma mãe do lado para fazer o serviço todo?"

Ao se ver aprisionado por dois caipiras de um reino vizinho (de uma forma que me arrepiou, por evocar o filme Amargo Pesadelo, de John Boorman), Zog não poderia se desesperar mais. Os jecas aquáticos buscavam vingança, por uma guerra que quase dizimou seu povo. Para tentar se defender, o rei se justificou: "Não é minha culpa, eu estava apenas dando ordens!"

(Des)encanto acaba caindo como uma luva no mundo atual - que vive um renovado caso de amor com a ideia de realeza, graças a Kate Middleton e Meghan Markle ou à reciclagem comercial que a Disney vem fazendo com suas princesas.

Seguindo os passos de Fiona, dos filmes Shrek, Tiabean ridiculariza o "sangue azul" e propõe uma nova formatação para a imagem que temos da princesa clássica. Por que não uma mulher iconoclasta, dona do seu destino, do seu corpo e, sobretudo, livre? Anti-heroína e musa de tudo que é comum, Bean resulta forte justamente por causa de suas fraquezas; sua humanidade crassa é o que a torna mundana e especial.

Ao nos fazer rir e pensar, (Des)encanto é antídoto indispensável contra o que nos infligem hoje   reis e rainhas entronados (quer seja da mídia, da política, das redes sociais, da moda, ou do mercado); este cavalgante processo de imbecilização coletiva que não poupa nem nobres nem plebeus.

(Des)encanto - primeira temporada disponível no Netflix.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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