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Religião

14/09/2018 | domtotal.com

Papa Francisco: entre resistências e apoios

Os ataques a Francisco são, na verdade, ataques a uma concepção de Igreja, que assusta, porque relativiza o poder.

Francisco demonstra preocupação com causas importantes, urgentes e justas, deixando aqueles temas secundários, para longe da obsessão religiosa.
Francisco demonstra preocupação com causas importantes, urgentes e justas, deixando aqueles temas secundários, para longe da obsessão religiosa. (L'Osservatore Romano)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Francisco é um Papa inaudito. Contra todas as previsões e especulações foi eleito. Certamente, junto à ação do Espírito, há também um motivo – pelo menos – bastante terreno para tal escolha. É uma figura importante que tem o papel de reconquistar a credibilidade da Igreja junto ao mundo contemporâneo. Não há dúvidas de que a publicização – nem tanto por força da própria instituição – dos gestos e palavras do atual Pontífice tem surtido tal efeito. É um Pastor amoroso, sorridente, afável. Demonstra preocupação com causas importantes, urgentes e justas, deixando aqueles temas secundários, para longe da obsessão religiosa.

Ao mesmo tempo, a eleição de Francisco tornou escancarada pelo menos uma das fragilidades da instituição eclesial e eclesiástica. Uma Igreja de tradição bimilenar enclausurada em suas próprias estruturas. Já no seu programa pastoral, a Evangelii Gaudium, Francisco expõe a importância de uma Igreja livre, para cumprir sua missão. Essa liberdade pressupõe assumir riscos: enlamear-se na saída rumo ao encontro daqueles e daquelas que sofrem. Mas, para aqueles que estão apegados à estrutura e à segurança institucional, tal proposta é arriscada por demais, sobretudo nesse mundo contemporâneo, onde tudo é tão fluido e fragmentado. Seria, mesmo, a hora de um Francisco na Igreja?

As reações contrárias a Francisco revelam o medo de que a instituição se perca, sobretudo depois de três décadas de intensa afirmação institucional, com os dois últimos pontificados. O catolicismo europeu se esvai e não se pode negar uma preocupação diante desse dado. Será uma questão de tempo, até que em outros cantos do mundo, aconteça o mesmo? Há uma verdadeira escolha, da qual dependerá o futuro eclesial, a ser feita, aqui: a instituição religiosa fechar-se em si mesma, para se proteger do mundo fragmentado e em veloz mudança – essa é, aliás, a escolha feita ao longo de séculos e séculos de catolicismo; ou abrir-se para uma nova proposta, de volta às fontes da fé, almejada com grande empenho desde o Concílio Vaticano II e intentada por Francisco? Os ataques a Francisco são, na verdade, ataques a uma concepção de Igreja, que assusta, porque relativiza o poder. Poder, vale dizer, desempoderado, já que a instituição já não ocupa o mesmo espaço político e social nesse mundo secularizado.

No primeiro artigo de nossa matéria especial, Francisco, em meio aos ataques, nosso legítimo apoio, de Teófilo da Silva, expandimos essa reflexão sobre a resistência e o apoio. Lançando um olhar sobre a fonte da proposta pastoral do Papa Francisco, temos o artigo Francisco, a voz do Evangelho no mundo, de Rodrigo Ferreira da Costa. Refletindo numa perspectiva ecumênica, Fabrício Veliq nos propõe o terceiro artigo: Francisco sob o olhar de um teólogo protestante.

Já passa da hora de os que sonham os mesmos sonhos que Francisco, o Papa do fim do mundo, a tomarem, verdadeiramente, partido, em nome de uma causa evangélica. Quais ações, na base em que nos encontramos, podemos assumir, de transformação estrutural de nosso jeito de ser Igreja? De que maneira, nossa pastoral de manutenção pode ser convertida em uma pastoral realmente evangelizadora, que tenha uma palavra responsável a respeito do nosso contexto existencial? Se falta coragem, aos opositores de Francisco, de viverem uma religião da alegria que brota do Evangelho, falta-nos, também a nós, que insistimos em permanecer inertes, como se nada dessa transformação dependesse de nós. Tudo isso dá o que pensar!

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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