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14/09/2018 | domtotal.com

Burra, leviana e engraçadinha

A publicidade brasileira de hoje continua a esconder sua falta de talento.

O mote da campanha se arrasta em mais de um filmezinho.
O mote da campanha se arrasta em mais de um filmezinho. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

Tenho a honra de ser amigo de outro colunista que enriquece as páginas deste DOM Total. Mais do que amigos, já exercemos a mesma profissão de criativos da área de propaganda, dividimos boas ideias, ganhamos prêmios, essas coisas.

Outro dia o caro e talentoso redator Afonso Barroso alertou sobre a baixaria e a mediocridade que permeiam os comerciais dos dias de hoje. Isso vale para publicidade de produtos, serviços e – agora em pauta – a propaganda política.

Espectador crítico que sou do Horário Eleitoral – diversão excelente, acima de muitos programas humorísticos – fico matutando sobre a visão de mundo, a ética e os critérios profissionais daqueles que concebem tais atrocidades. O nível rasteiro das criações de hoje não passaria pelo crivo de um estagiário principiante de nossa época; certo, Afonso?

Na política, a ênfase é a mentira – e isto não é novidade. Promessas surreais, dados falseados e números fictícios continuam a ser bombardeados impunemente ao longo da meia-hora, com o objetivo de seduzir mentes incautas. E olha como temos incautos nesse país, engolindo credulamente a realidade alterada pelos publicitários, marqueteiros e suas tretas, a troco de dinheiro.

Termina o Horário Eleitoral, entra o comercial de uma operadora de telefonia. O mote da campanha se arrasta em mais de um filmezinho. Vemos um lar tipicamente brasileiro, comandado por um casal de meia-idade. Não sabemos quantos filhos tiveram, se estes já se formaram em Engenharia ou Direito, se casaram e foram morar em algum país distante.

No entanto, sobrou um rapaz, beirando a faixa de seus 20 anos. Pelo perfil e comportamento é um Nem-nem, fenômeno de nossa era. Nem trabalha, nem estuda e vive ainda às custas da mesada. Desfrutando desta boa-vida, o cara passa o dia inteiro de bermudas no sofá, robotizado pelas redes sociais e postando asneiras sem parar.

E cada vez que o idiota do filho, extasiado, mostra ao pai alguma bobagem que acabou de compartilhar, o igualmente boboca genitor salta por sobre a questão central e afirma, com olhar sorridente, que fez um ótimo negócio estendendo a internet em casa, graças ao plano assim-assim. O fato de o filho ter lambuzado os móveis com meleca verde para fazer seu showzinho no Facebook é irrelevante.

O garotão do comercial é o protótipo da má-educação, desleixo, ócio e infantilidade – apesar de ser bem grandinho – repetindo um padrão que vemos por aí. Na vida real, cresce o número de jovens adultos atados à adolescência, exibicionistas, imaturos, levianos, protegidos por pais e mães cúmplices que os sustentam. Vivem em função da internet, são narcisistas, ofendem qualquer um que os questione, fecham-se nos seus casulos antissociais. Nisso, convenhamos; há um mérito na criação publicitária citada: a família do comercial merece, mesmo, ter isso em casa.

Claro que publicidade é sempre ilusão – mas faz parte de nossa cultura subjacente. Não é meu propósito tecer análises psicossociais de um filmezinho qualquer de 30 segundos, perdido entre dezenas de outros na TV. Porém, nas entrelinhas, ele reforça comportamentos grosseiros e hoje considerados “normais ”- além de reproduzir como “aceitável” o habitat de exemplares de uma geração que resume sua existência a uma tela de celular.

Burra e leviana, a publicidade brasileira de hoje continua a esconder sua falta de talento atrás de uma cortina de humor forçado e discutível. Seus criadores devem pensar assim: se o final do comercial for engraçadinho, já tá bom. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

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