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Religião

24/09/2018 | domtotal.com

Princípio e fundamento do caminho espiritual

'Princípio' fala da causa primeira, da origem, do ponto de partida. 'Fundamento' é aquilo que permanece, que confere a alguma coisa a sua existência ou razão de ser, que dá solidez.

'Princípio' fala da causa primeira, da origem, do ponto de partida. 'Fundamento' é aquilo que permanece, que confere a alguma coisa a sua existência ou razão de ser, que dá solidez.
'Princípio' fala da causa primeira, da origem, do ponto de partida. 'Fundamento' é aquilo que permanece, que confere a alguma coisa a sua existência ou razão de ser, que dá solidez.

Por Carlos Cesar Barbosa Silva*

Para quem conhece os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola sabe que o “Princípio e Fundamento” é um fragmento do início do livro e se trata da porta de entrada a todo o processo e experiência espirituais a serem feitos segundo a metodologia inaciana. Através dessa primeira meditação dos Exercícios, cada um é convidado a descobrir-se único em meio a toda a Criação e, principalmente, saber-se amado incondicionalmente pelo seu Criador.

 O texto escrito por Inácio diz que “o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim salvar-se. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ajudarem a atingir o fim para o qual foi criado. Daí se segue que ele deve usar das coisas tanto quanto o ajudar para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Por isso, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.” (Exercícios Espirituais n. 23)

Princípio e fundamento são dois substantivos importantes. ‘Princípio’ fala da causa primeira de alguma coisa, da origem, do ponto de partida. ‘Fundamento’, por sua vez, é aquilo que permanece, ou aquilo que confere a alguma coisa a sua existência ou razão de ser, que dá estabilidade e solidez. Neste sentido, na caminhada de fé e relação com Deus, cabe perguntar-se: qual é o meu princípio e fundamento? Ou seja, o que move a minha vida? Qual o sentido e quais as razões de minha vida? Onde fixo minhas raízes mais profundas? Onde está ancorada a minha realidade? Não são perguntas fáceis nem de respostas rápidas. Por isso, logo ao início dos Exercícios Espirituais Inácio quer que nos demos conta de que somos criaturas irrepetíveis e amadas por Deus, acima de tudo e antes de qualquer coisa. Não precisamos ter medo de ancorar nossa existência somente em Deus, porque “o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se”. 

Enquanto criaturas, não temos vida por nós mesmos. Somos colaboradores de Deus, doador da vida, que vai dispondo a nós os meios necessários para “atingirmos o fim para o qual fomos criados’’. Por isso, Inácio nos dá também um sábio conselho: é preciso “usar das coisas tanto quanto nos ajudam a atingir o fim e privar-se delas tanto quanto impedem”.  A nossa relação com as coisas e com as pessoas requer de nós um constante exercício de discernimento. Como prática também orante, o discernimento nos faz escolher o caminho mais alinhado com os desejos de Deus para cada um e para o mundo.

Outro ponto importante na perspectiva da espiritualidade inaciana é a liberdade interior diante tudo aquilo que é criado: “é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas.’’ Aqui está o convite à liberdade espiritual, que para Inácio é a chamada ‘indiferença’. A indiferença inaciana, não é uma atitude que ignora a realidade ou um sentimento de ‘tanto faz, tanto fez’. Trata-se do desprendimento de tudo aquilo que nos possui e nos impede de irmos livres e desimpedidos ao encontro da vontade de Deus.

No final do texto do Princípio e Fundamento é reforçada a necessidade de “desejar e escolher somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados”. Aqui temos o grande apelo ao magis, termo latino tão caro a Santo Inácio. Magis quer dizer o mais, o maior, o melhor e é algo que está estreitamente ligado à nossa relação com Deus e com o próximo, levando-nos sempre a uma constante atitude de busca.  Ao convidar a buscar o que ‘mais conduz ao fim’, ou seja, buscar o magis, Inácio pretende que saiamos da mediocridade e descubramos o melhor que há dentro de cada um de nós, onde tal desejo passa a ser uma bússola que nos aponta sempre ao infinito e à maior glória de Deus.

Este caminho espiritual, nos oferece, portanto, critérios para a vivência de uma fé sincera e madura.  É através da consciência de nossa condição humana, do discernimento constante, da liberdade interior diante de tudo e todos e da busca daquilo que mais nos conduz a Deus e nos faz melhores para o próximo é que vamos progredindo nesse caminhar. É um processo. Mas Deus que não nos chama a um amor de liberdade irreal e impossível, sabe nos cumular com sua graça para alcançarmos o necessário. A essência de tudo, inclusive da fé, está em Deus, que é o criador do Princípio e Fundamento, sustento de nossas vidas. É um Deus nos ama e nos convida a amar e servir, buscando sempre encontrar sua vontade em nossas maiores possibilidades.

*Carlos César é graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Estudou na Universidad de La República (UdelaR), em Montevideo. Atualmente estuda na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. (FAJE); é jesuíta. E-mail: carloscesarsj@outlook.com

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