Religião

21/09/2018 | domtotal.com

Erótico de salvação

Somos corpos que desejam, carnes que se rasgam e peles que queimam febris pelo outro.

A dimensão erótica é constitutiva do ser humano e sem ela não podemos falar em humanização.
A dimensão erótica é constitutiva do ser humano e sem ela não podemos falar em humanização. (Reprodução/ Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

É impossível pensar nossa vida sem a dimensão erótica. Qualquer tentativa de eclipsar essa dimensão é condenar o humano aos porões da inexistência. Somos corpos que desejam, carnes que se rasgam e peles que queimam febris pelo outro. Somos eróticos e não há como abrir mão desse fundamental em nós. Nossos corpos de carne celebram o encontro com o diferente e esse acontecimento é portador de sentido, confere significações às nossas vidas. Precisamente, tudo o que somos é ofertado ritualmente numa liturgia de louvor aos “eus”, que não se apropriam apenas do momento do encontro, mas da esperança por algo mais solidificado e consistente, um vínculo maior que nos permita sair de nós e regressar ao lugar no qual somos o que somos. Esse vínculo é o amor erótico, por meio do qual saímos de nós em direção ao outro e desse modo nos aproximamos incrivelmente daquilo que somos.

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Aquilo que somos em totalidade é dado ao outro eroticamente. Nossas aspirações e desejos são transmitidos pela verdade de corpo em sua manifestação. Toda a nossa história está a ponto de se deixar tocar. O toque tira do centro, tira da órbita, faz perder o compasso do tempo e pode nos fazer construir um imaginário. No contato carnal há uma balança entre o real e a ficção. Quando somos tocados, ou mais que isso, podemos dizer, quando somos acariciados, concebemos a ambiguidade do gesto: tem sentido de apropriação, de exploração, de apego, mas também representa gratuidade, amabilidade, encontro, festa. É próprio do toque tocar não apenas o corpo externo, a pele. Toca-se o interior, a alma, provocando sensações internas e infinitas, mexe-se com o que há de mais íntimo e secreto no humano.

Embora haja no toque o desejo de apropriação do outro, fica sempre mais evidente, como em um horizonte, a incapacidade de capturação do diferente. Há sempre uma abertura que nos escapa, que não nos permite possuir e ser possuídos. Há, portanto, uma abertura, para a espera e para o futuro que há de vir. Por isso, a dimensão erótica do ser humano não pode ser concebida à luz do hedonismo contemporâneo, isto é, da banalização do amor carnal, numa busca desenfreada do prazer pelo prazer e do gozo como finalidade única do sexo. O erótico pensado a partir dessa concepção está no cativeiro do imediato da existência, na caverna de sombras irreais que projetam uma visão minimalista e pessimista do ser humano no que diz respeito ao que é da ordem do corpo e dos gestos carnais. A banalização de nossas experiências, vividas cada dia mais a partir de uma lógica quantitativa e não qualitativa, corrobora uma visão diabólica e até mesmo demoníaca do erótico, fazendo surgir vez ou outra grupos e movimentos radicais que pregam uma libertação do corpo, através de sacrifícios e mortificações do desejo erótico.

Mas a dimensão erótica é constitutiva do ser humano e sem ela não podemos falar em humanização. Por isso, é da ordem do erótico a realização do “eu”, realização daquilo que se é no encontro com o outro e consigo mesmo. E isso só pode se dar enquanto haja liberdade de ser e de se entregar como resposta a um desejo interior mais pessoal que ganha corpo no encontro das liberdades. Nesse encontro de liberdades, que não permite qualquer aprisionamento, surge o encantamento, o entendimento, o desejo de vida, de sempre mais vida. É o desejo de tornar-se um com o outro, para ser um consigo. Não se trata de uma dualidade, mas de uma unificação para poder ser o que se é: um corpo erótico sempre em atitude de descoberta do sentido das subjetividades em tempos primaveris com potencialidades infinitas para o florescimento da vida.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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