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Religião

21/09/2018 | domtotal.com

Aquele abraço!

Os gestos carnais nos põem na ciranda do viver, mais do que nossas falações.

Nossa gestualidade inaugura um mundo de possibilidades, deixando livres as infinitas faces do viver.
Nossa gestualidade inaugura um mundo de possibilidades, deixando livres as infinitas faces do viver. (Reprodução/ Pixabay)

Por Rodrigo Ladeira*

Com uma só carícia
eu te faço brilhar com todo teu esplendor.
(Paul Éluard)

Todo gesto é significante. Sim e não ao mesmo tempo. Há, nos gestos, um excesso, manifesto num transbordar e/ou refrear de palavra. É tão forte a palavra-gesto que uma boa comunicação não poderá se reduzir ao discurso. Ela carecerá desse implemento gestual. Alguém que numa alocução deixa suas mãos amarradas (entendemos que mão é já o corpo total na parte) terá alguma dificuldade para dizer o que se quer dizer. A comunicação nunca é pura e simplesmente a oferta de verdades abstratas. Comunicar é sempre autocomunicar.

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Quando a gente quer explicar algo a outrem ali haverá, de certo, um dizer-se no discurso sobre esse algo. Nosso corpo, feito carne (individuação), é sintoma da verdade que carregamos e somos. Um olhar, um sorriso, uma lágrima, um rubor, um abraço... os gestos carnais nos põem na ciranda do viver, mais do que nossas falações. É que o discurso se fixa em conceituar, limitar, verificar, traçar fronteiras. O gesto, em si, corrige essa tentação de enquadramento e fichamento da verdade. Nossa gestualidade inaugura um mundo de possibilidades, deixando livres as infinitas faces do viver.

“Alô, alô seu Chacrinha... aquele abraço!” Gil canta um dos gestos mais brasileiros que conheço, e a nosso sentir, o gesto dos gestos: o abraço. Canta-o com tal pujança que a gente é capaz de, à flor-da-pele, conhecer o calor dessa carícia elementar. Poesia musicada que nos faz ser mesmo abraçados. Aí o gesto é já um ato. Um abraço assim não será nunca um meio (utilitarismo) para se chegar a um fim. Nisso a música-poesia de Gil – “aquele abraço!” –  nos enreda nos braços do próprio poeta (o destinador da poesia). Diferentemente de um discurso sobre o abraço, a poesia nos ascende para uma gramática-sem-gramática. Ali tudo cabe, sem positivismo. Um abraço é assim apenas (e isso já é tudo!) metáfora da gratuidade. “Abraçar é rodear com os braços arredondados, abri-los para receber, fechá-los para acolher, dar ao outro um lugar contra si.” (X. Lacroix).

A circularidade do gesto, por sua força-fraqueza – nossa tradução para “gratuidade” –, desmantela nossa pretensão de reter, possuir, nomear... Tanto é assim que existem gestos, mal-ditos / mal-feitos, que não podem ser entendidos como gesto, porque falhos na gratuidade. Quem nunca recebeu um abraço que, eivado de interesse egóico, produz des-palavra? O gesto “falha” porque o outro destinador da palavra está ausente, não chegou ainda. É, nesse ínterim, um sentido que ainda está por vir. Será apenas discurso sobre o abraço, mas ainda não será abraço. Houve aí um distanciamento do sujeito ao seu gesto. Aqui aparece o que Lacroix chama de ambiguidade. O abraço “(...) trata-se de rodear ou de cercar, de acolher ou de pegar? De proteger ou de capturar?”.

Colocadas as possibilidades do gesto, palavra ou des-palavra, ele nunca será um jogo de verdade ou mentira (termo que designaria uma perversão). Quando muito, no sentido de des-palavra, não será ainda gesto porque lhe faltará o próprio gesto, mas será ausência, porque mesmo aí haverá algo – uma promessa – porque persistirá uma espera da palavra que não chegou ainda. É que quem abraça também é abraçado. Tocar também é ser tocado. Entre tocar-o-outro e tocar-se-mediante-o-outro haverá esse ENTRE, essa frestinha da des-palavra para a palavra. Posso abraçar-o-outro, mas posso me-abraçar-no-outro, surrupiando a doação-do-si para uma doação-no-outro-para-mim.

Nessa fresta, aparentemente incômoda, reside a beleza do gesto humano, porque é poesia, mistério, escape. O excesso de palavra no gesto carnal aponta para a própria ambiguidade que somos. Não somos descritíveis, mas indeterminados, como a poética. Um gesto humano é, indiscutivelmente, o Verbo/Palavra se encarnando, com todas as suas vicissitudes.

Termino, quase que me desdizendo, abrindo uma nova perspectiva. É que o gesto está para a expressão de uma unidade de sentido originária, anterior à distinção do significante (foi assim que comecei essa nossa prosa) e do significado, da forma e do conteúdo, do corpo e do espírito. O gesto é apenas direção de sentido, orientação existencial (cf. X. Lacroix). Alô, alô você... aquele abraço!

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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