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Religião

21/09/2018 | domtotal.com

O 'Grand finale' da reforma de Francisco

Francisco aposta na colegialidade dos bispos para dar o impulso final à sua reforma.

Os eventos dos últimos dias sinalizam que a reforma de Papa Francisco caminha para a sua conclusão.
Os eventos dos últimos dias sinalizam que a reforma de Papa Francisco caminha para a sua conclusão. (Tony Gentile / Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

O papa Francisco tomou uma medida que já pode ser considerada um dos grandes marcos da sua reforma, iniciada em 2013. Uma mudança importante que, pelo menos no Brasil, passou despercebida. Esta semana, o pontífice criou uma constituição (Episcopalis communio) para o Sínodo dos bispos, órgão de caráter consultivo que auxilia o papa em questões específicas. Na prática, isso dá mais poder a essa instituição criada por Paulo VI, em 1965. Quando foi fundado, representou uma das respostas imediatas a um tema espinhoso e bastante debatido durante o Concílio Vaticano II: a colegialidade dos bispos.

Os especialistas, pautados pelas experiências dos pontificados anteriores, consideravam que a revolução curial proposta pelo papa argentino se limitaria à criação de órgãos ou à fusão de alguns deles. Porém, papa Francisco tem feito isso e muito mais. E é algo tão revolucionário quanto o que aconteceu à época de Paulo VI. A grande reforma da cúria romana de papa Montini, logo após o Concílio Vaticano II - a qual se refletiu em toda a igreja - começou efetivamente com a criação do Sínodo dos Bispos. Francisco, às portas de lançar uma nova constituição sobre a reforma da Cúria - algo previsto para o ano que vem -, fortalece ainda mais o sínodo. Tudo isso porque, a partir de agora, o documento de conclusão da assembleia, uma vez aprovado pelo papa, passará a fazer parte do magistério ordinário. Antes, os participantes do sínodo apresentavam ao papa uma série de propostas a respeito do que havia sido discutido durante a assembleia, as quais, após criteriosa avaliação, se transformavam posteriormente na chamada exortação apostólica pós-sinodal. Agora, essas mesmas proposições, já reunidas em um documento final, poderão ser publicadas imediatamente como material conclusivo do sínodo a partir do placet papal. A prática, agora prevista oficialmente pela nova constituição, começou a ser adotada pelo último Sínodo para as famílias, ocorrido em 2014.

Este ano, publicamos um artigo sobre a descentralização da igreja proposta pelo C9 - conselho de cardeais criado por papa Francisco - para que “as conferências episcopais sejam concebidas como órgãos com atribuições concretas, incluindo também uma autêntica autoridade doutrinal”. Unindo essa proposta à reestruturação do sínodo dos bispos, é provável que, mais cedo ou mais tarde, os ares da revolução também atinjam a congregação para os bispos. Há duas constatações que conduzem a essa possibilidade: a primeira é de que o episcopado vive uma das maiores crises de sua história por causa dos escândalos ligados à pedofilia em várias partes do mundo e também porque esse dicastério, cuja metade dos membros foram substituídos em 2013, ainda conta com a presença dos cardeais Donald William Wuerl (americano) e George Pell (australiano), ambos suspeitos de terem acobertado padres abusadores de menores em suas respectivas dioceses. Além disso, o cardeal Marc Ouellet é o responsável pelo órgão desde o pontificado de Bento XVI. Apesar de ele estar alinhado com algumas das aberturas de Francisco, como por exemplo o apoio a uma participação maior das mulheres na formação dos sacerdotes, talvez a crise force a sua substituição.

Papa Francisco canonizará Paulo VI e o bispo salvadorenho Oscár Romero no encerramento do sínodo dos bispos para os jovens, em outubro. Esses dois pastores são bastante admirados por Bergoglio por causa do estilo pastoral que adotaram, além de considerá-los figuras proféticas do seu tempo. Será que a diplomacia de Paulo VI unida à coragem de Romero impulsionarão o papa argentino a traçar o novo perfil do bispo católico? Quem será o bispo da reforma de Francisco? Aguardemos as próximas nomeações e, inevitavelmente, as remoções.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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