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Religião

26/09/2018 | domtotal.com

A aparência de verdade é mais importante que a própria verdade?

É dever de todo cristão e cristã estar atento/a para não ser veículo de mentiras difundidas no intuito de alarmar e tentar convencer outras pessoas por meio do medo e do sensacionalismo.

Falar de uma religião sem conhecimento é somente espalhar concepções pré-concebidas e, na maioria das vezes, errôneas a respeito da fé alheia.
Falar de uma religião sem conhecimento é somente espalhar concepções pré-concebidas e, na maioria das vezes, errôneas a respeito da fé alheia. (Reprodução/ Pixabay)

Por Fabrício Veliq*

Uma das grandes vantagens trazidas pelo advento da Internet e, posteriormente, das redes sociais, foi a grande capacidade de difusão de informações e exposição de ideias. Algo que antes era privilégio somente de classes mais abastadas, em dias atuais, mostra-se como realidade para diversas pessoas das consideradas, economicamente, classes mais baixas. Ainda que haja grande diferença social e milhões de pessoas ainda estejam sem acesso à Internet no país, é inegável que esta se faz presente em grande parcela da população. Este próprio texto, por exemplo, só pode ser lido por alguém que tenha acesso a internet.

Da mesma forma que o alcance das informações esteja a um clique das pessoas com acesso, também o fenômeno das fake news se mostra como algo avassalador. As eleições norte-americanas, em que o vencedor é largamente conhecido por espalhar mentiras em sua conta do Twitter, podem ser consideradas como um bom ponto de partida para aquilo que hoje é conhecido como pós-verdade, ou seja, que não importam mais os fatos, antes, “a aparência de verdade se torna mais importante que a própria verdade”, para usarmos a definição do historiador Gregório Figueroa. Assim, opiniões pessoais tomam o lugar da fala dos/as experts nos campos de conhecimento, o que pode causar muito mal para a sociedade em que estamos.

Por causa disso, principalmente nas redes sociais, é muito claro ver diversas pessoas compartilhando informações sem checagem dos fatos, espalhando mentiras para, com isso, fortalecer uma opinião pessoal a respeito da temática, mesmo que essa seja contestada e dita como mentirosa por parte dos estudiosos das respectivas áreas de conhecimento. Notícias falsas são constantemente divulgadas com intuito de passar uma mensagem para aqueles e aquelas que não fazem questão de checar se as informações são verdadeiras ou não e que passarão adiante a mentira propagada.

Será que este cenário também pode ser pensado quando lidamos com o diálogo inter-religioso? Claro que sim. Toda vez em que se baseia a opinião a respeito de determinada religião sem checar se a informação que se tem é correta, é o mesmo que espalhar uma fake news na rede. Não é pelo fato de não se concordar com determinada religião que a explicação dela se dá por meio do preconceito arraigado naquele/a que a julga. Falar de uma religião sem conhecimento é somente espalhar concepções pré-concebidas e, na maioria das vezes, errôneas a respeito da fé alheia.

Todo diálogo inter-religioso que se preze, antes de falar qualquer coisa, primeiro se disporá a ouvir, a conhecer, e a se inteirar das razões e dogmas das religiões com as quais se quer dialogar. Somente fazendo assim é que será possível desenvolver um diálogo honesto e que gere frutos proveitosos para a humanidade.

Diante do cenário atual, é dever de todo cristão e cristã estar atento/a para não ser veículo de mentiras difundidas no intuito de alarmar e tentar convencer outras pessoas por meio do medo e do sensacionalismo. Combatem-se as fake news com trabalho de pesquisa das fontes, ouvindo os/as especialistas nos assuntos propostos. Isso não quer dizer abrir mão da própria opinião, mas ser aberto para admitir que, muitas vezes, ela pode estar equivocada e que as coisas não são da forma que achamos que sejam.

Em ano eleitoral, isso se faz importantíssimo para não se cair em propostas que visam absurdos como acabar com uma “ameaça comunista”, ou lutar contra uma “ideologia de gênero”, ou contra uma “invasão muçulmana”, termos estes mostrados por especialistas das respectivas áreas como nunca existente no Brasil, sendo somente usados para impor medo em pessoas desavisadas, com o intuito de obter seus votos.

No âmbito do diálogo inter-religioso, é uma condição imprescindível para que haja o próprio diálogo que seja libertador e que promova vida entre os seus participantes, porque ali estará um diálogo que se preocupa tanto com a verdade, quanto com a promoção de um mundo mais justo.

Assim, se for para espalhar notícias, que sejam verdadeiras. Se for para falar de outra religião, que se pesquise a respeito dela. Fazendo assim, há uma grande probabilidade do mundo se transformar em um lugar melhor de se viver.

*Fabrício Veliq é teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven) - Bélgica, formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e dos Grupos de Pesquisa “Estudos de Cristologia” e “Diversidade afetivo-sexual e Teologia” da FAJE. Ministra cursos de teologia nos cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis, no Centro Loyola, em Belo Horizonte e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE). É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com

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