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11/10/2018 | domtotal.com

Assim caminha a desumanidade

A excelente redação, inteligente, criativa e sem um erro sequer, fora derrotada pela carteira de identidade na qual constava a data fatal de nascimento.

O anúncio do emprego em oferta dizia que a exigência maior era a de ter a chamada 'redação própria'
O anúncio do emprego em oferta dizia que a exigência maior era a de ter a chamada 'redação própria' (Reprodução)

Por Afonso Barroso*

“Estou velho, mas não inválido. Ainda existo e penso”. É o que diz a si mesmo o septuagenário Alfredo de Assis, jornalista há muito aposentado, ao decidir candidatar-se àquele emprego. E lá vai ele, bendizendo a “oportunidade de ouro” que de repente aparece para complementar sua mísera aposentadoria e fazê-lo melhorar de vida nos poucos anos que ainda lhe restam. Ele sabe que é praticamente nula a possibilidade de alguém dar emprego a um senhor de 75 anos, idade que já passa da ordem terceira, mas naquele caso havia boa chance para se abrir uma exceção. O cargo anunciado era de redator. De escrever cartas. Não cartas no papel, como antigamente, mas as de hoje, escritas na tela em forma de mensagens ou e-mails. O velho Alfredo sabe usar o computador, cujo teclado é o mesmo da máquina Remington em que aprendeu dactilografia (sim, assim) na adolescência e usou até o advento da informática.

O anúncio do emprego em oferta dizia que a exigência maior era a de ter a chamada “redação própria”. Exigência correta e lógica, porque tem gente, não pouca gente, que costuma escrever com redação alheia.

Pegou dois ônibus para chegar ao endereço onde seria aplicada a prova. Era um colégio, que fora escolhido como local para fazer a seleção. Sabia-se que a empresa anunciante dedicava-se a arrecadar fundos para uma instituição de caridade, e tinha de elaborar mensagens específicas, personalizadas, para milhares de pessoas e organizações catalogadas como potenciais patrocinadoras.

Quando entrou no ambiente da prova viu que ia enfrentar algumas dezenas de concorrentes. Todos, evidentemente, muito mais jovens do que ele. Calculou que o mais velho não tinha mais do que uns 40 anos. “Faz mal não”, pensou. “Não escrevem melhor do que eu, sou capaz de apostar que não”.

Entregou a carteira de identidade à jovem senhorita que registrava os candidatos. Não passou despercebido o olhar com que ela recebeu e examinou o documento, uma mistura de curiosidade com mal disfarçado espanto. “Sim, sou um velho, minha querida, mas você vai ver do que sou capaz”, disse à moça, mas em silêncio.

Em grande número, os pretendentes ao emprego foram convidados a entrar numa sala ampla onde havia dezenas de carteiras, cada uma com uma caneta e um bloco de papel A4. O “professor” pediu que todos escrevessem uma redação de trinta linhas com o tema “As perspectivas do Brasil para os próximos anos”. Informou que os aprovados na redação seriam depois submetidos a uma prova oral. Os cinco primeiros classificados nas duas provas seriam contratados.

Com sua experiência de redator que tivera até um conto premiado em concurso de literatura, o velho Alfredo escreveu com facilidade. O assunto era “mamão com açúcar” para ele, que sabia bem do que o Brasil precisava, e sabia expor suas ideias com clareza e correção. Afinal de contas, escrever era o seu ofício.

Voltou para casa com a sensação de missão cumprida e aguardou sem muita ansiedade.

Uma semana depois saiu a convocação para a prova oral dos aprovados na redação. Para sua decepção, o nome Alfredo de Assis não estava na lista.

A excelente redação, inteligente, criativa e sem um erro sequer, fora derrotada pela carteira de identidade na qual constava a data fatal de nascimento: 3 de outubro de 1943. Data antiga demais, implacavelmente eliminatória nos dias de hoje, especialmente quando se trata de emprego.

Foi nesse dia que o velho jornalista aposentado sentiu-se envergar ao peso da idade.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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