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10/10/2018 | domtotal.com

A facada

A ignorância humana é infinita, assim como a ingenuidade e a imaginação.

A facada foi real, mas o que importa é o efeito simbólico que produziu no imaginário popular
A facada foi real, mas o que importa é o efeito simbólico que produziu no imaginário popular (Reprodução)

Por Reinaldo Lobo*

Lí há poucos dias um pequeno artigo do falecido Umberto Eco em que falava de uma pesquisa feita na Inglaterra, cujos resultados revelaram que um quarto dos ingleses acredita que Churchill é um personagem de ficção, assim como Gandhi e Dickens. Muitos entrevistados (não disseram quantos) incluíram entre as pessoas que realmente existiram Sherlock Holmes e Robin Hood.

A pesquisa não foi feita no agreste brasileiro, mas na desenvolvida sociedade britânica. Não é de espantar que “fake news” elejam candidatos nas democracias modernas, nem que muitos brasileiros desconfiem que a facada desferida contra o candidato Bolsonaro seja uma obra de ficção ou uma conspiração. A ignorância humana é infinita, assim como a ingenuidade e a imaginação.

Os novos meios de comunicação, como o celular e a internet, colaboram para virtualizar os fatos. Sabe-se que Umberto Eco odiava esses meios, diz isso nas crônicas que lí sobre “uma sociedade líquida”. Mas não é caso de termos nostalgia de uma era mais simples.

Os “whatsAp”, as redes, os tuítes, espalharam e continuam a enviar todo tipo de propaganda eleitoral nas atuais eleições brasileiras. Isso é um fato. As informações, fictícias ou não, têm produzido resultados muito concretos nas urnas.

Parto do princípio que a facada em Bolsonaro existiu e quem a desferiu também existe. Mas a versão do fato pode ser muito mais sedutora do que a realidade.

A facada “humanizou” o ex-capitão defensor das torturas , da violência e odiado por muitos. Como vítima ausente dos debates, por razões médicas compreensíveis, criou-se uma bruma de mistério e de apreensão que mudaram todo o curso da disputa eleitoral.

O candidato virou vítima não de um atentado de um presumível desequilibrado, mas de uma conspiração e de uma injustiça. Não importa  saber se Robin Hood foi uma pessoa real, mas o fato é que se tornou um símbolo da justiça. Por esse ângulo, está vivo até hoje.

A facada foi real, mas o que importa é o efeito simbólico que produziu no imaginário popular. Muitos articulistas lembraram do clássico de Freud sobre psicologia das massas e do seu desejo inconsciente de achar um líder carismático que as conduz e submeta. Sabe-se que as massas desamparadas buscam proteção e alívio de suas responsabilidades, delegando-as a chefes idolizados. A novidade é que, hoje, essas tramas do imaginário podem ser manipuladas pelos meios de comunicação. E estão sendo, não só nesta campanha eleitoral brasileira.

Gostaria de lembrar também o ensaio freudiano “O futuro de uma ilusão” sobre a religião, a “neurose obsessiva da humanidade” , onde aponta o sucesso social de duas instituições que oferecem a proteção para a angústia, o desamparo humano  e a busca de um refúgio contra os conflitos : a Igreja e o Exército.

Além da mística do lutador “contra o sistema” que verteu sangue sacrificial no seu combate --algo que Hitler, por exemplo, explorou muito após a tentativa fracassada de golpe de Munique, em 1923, quando saiu ferido-- o ex-capitão Bolsonaro conseguiu o feito de representar estratégica e simbolicamente as duas instituições organizadas de segurança e crença.

Ele vem do Exército, cujo lobby representou na Câmara por 28 anos,  e se aliou à Federação das Igrejas Evangélicas, cuja expansão e capilaridade se estende por todo o País.

Quando as pessoas se surpreendem por Bolsonaro não ter tido um partido forte, ou quando o comparam a Collor, outro salvador que não tinha força política, enganam-se duplamente : o ex-capitão, reformado em circunstâncias nebulosas, teve apoio de uma estrutura preparada na maior parte do território, na forma das igrejas e , mais discretamente, dos quartéis. Collor, o aventureiro patrocinado pela TV Globo e vários empresários, não teve nada comparável como estrutura efetiva, nem o poder político tradicional. Também não teve as redes sociais, que ainda não existiam, para manipular um mito de herói encravado nas massas.

Para além do antipetismo e do ódio difundido por seus adeptos contra Direitos Humanos e minorias, explorando formas arcaicas e violentas de expressão política, não nos esqueçamos que o capitão ignorante em economia e temeroso dos debates, prefere manter seu perfil na nuvem de comunicação mítica. Não se pode deixar de assinalar também que seu nome do meio é Messias –Jair Messias Bolsonaro-, o que fala diretamente aos evangélicos e salvacionistas.

Ao contrário de Lula, cuja liderança carismática funda-se em políticas sociais e tem como apoio a estrutura de um partido de crenças ideológicas, o ex-capitão baseia toda a sua campanha numa espécie de pré-política, nada moderna, calcada em impulsos primitivos e na oferta de amparo emocional para angustiados e desesperados. Os pastores que o apoiam fizeram uma pregação contra o “demônio petista”, a ser exorcizado pelo Messias.

A corrupção, a crise econômica e a falência da representação política geram uma demanda de Lei e Ordem, e atraem as chamadas personalidades autoritárias -- homens e mulheres médios sedentos de identificação com a força, com o comando.

Essa mistura de Exército e Igreja traz adeptos fiéis, mas não faltam também oportunistas querendo tirar proveito do poder.

Estamos diante de um momento de virada na política brasileira, com uma onda conservadora que ainda não explicitou completamente a que veio. Não parece ser uma depuração, uma elevação moral da política nem uma modernização. Esse movimento regressivo a formas arcaicas de expressão pode tornar ainda mais frágil a representação democrática, hoje debilitada em seu vínculo com a vontade popular.

O fato de políticos tradicionais serem varridos pelas urnas não significa que seus substitutos representem uma ampliação da democracia e dos direitos civis. Uma liderança idolizada de extrema direita pode não significar o fim do caos e da violência. Ao contrário, pode representar o início de um completo Estado de exceção. A escolha de um autoritário pode ser uma facada no coração da democracia.

Quando se diz isso, os eleitores de Bolsonaro rebatem que não se pode compará-lo com Hitler. De fato, há pelo menos uma diferença:  Hitler conseguiu escrever um livro.

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com e uma página pública no Facebook: www.facebook.com/reinaldolobopsi.

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