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Religião

11/10/2018 | domtotal.com

Discernimento. Para destruir, basta o ato impensado de um único momento

Sem a sapiência do discernimento nos transformamos em marionetes à mercê das tendências da ocasião.

Discernimento é tomar decisões conforme o Evangelho de Jesus, segundo suas bem-aventuranças, que são a identidade do cristão.
Discernimento é tomar decisões conforme o Evangelho de Jesus, segundo suas bem-aventuranças, que são a identidade do cristão. (Reprodução/ Pixabay)

Por Élio Gasda*

O Brasil vive um dos momentos mais tensos de sua história. Violência e ódio tornaram-se métodos de mobilização política nas eleições. As próximas semanas de campanha serão decisivas para o futuro do país. O cristianismo tem no discernimento um instrumento imprescindível. Ouvir a consciência é vital para que as decisões sejam bem orientadas.

Luta, vigilância e discernimento! No documento sobre a santidade no mundo atual, Gaudete et Exsultate, Papa Francisco oferece uma ferramenta para o cristão manter-se coerente com sua fé. A vida cristã requer força e coragem para resistir às tentações do demônio. Não se trata apenas de uma luta contra a mentalidade mundana que nos torna medíocres. É também uma luta contra o príncipe do mal que nos envenena com o ódio, tristeza, inveja, vícios. Quando abrandamos a vigilância, ele aproveita para destruir a nossa vida. Se nos descuidarmos, seremos seduzidos pelas mentiras do mal. A corrupção espiritual é uma cegueira em que tudo parece lícito: engano, calúnia, ódio.

Como é possível saber se algo vem do Espírito ou se deriva do maligno? Discernimento! Sem a sapiência do discernimento nos transformamos em marionetes à mercê das tendências da ocasião. Os cristãos devem examinar sua consciência, o “primeiro de todos os vigários de Cristo” (Catecismo, 1778). “Centro mais secreto e nosso santuário, no qual nos encontramos a sós com Deus. Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do próximo” (Gaudium et spes, n. 16). Discernimento unido ao amor, primeiro fruto do Espírito.

Discernimento é tomar decisões conforme o Evangelho de Jesus. As bem-aventuranças (Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23) são a identidade do cristão. Suas palavras estão na contracorrente daquilo que prega a sociedade: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”. Onde colocamos a segurança da nossa vida? No dinheiro? Nas armas? “Felizes os mansos, porque possuirão a terra”. Forte expressão neste mundo onde impera o ódio, a vingança e a discriminação. “Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito” (Mt 11,29). A mansidão é prova de confiança em Deus. O cristão não paga mal com o mal (Rom 12,17) e não faz justiça por conta própria (Rom 12,19). “Toda a espécie de raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós” (Ef 4,31). Reagir ao ódio com mansidão: isto é ser cristão.

“Felizes os que choram, porque serão consolados”. O mundo não quer chorar, ignora as situações dolorosas. A vida cristã só tem sentido socorrendo o outro na sua aflição e aliviando sua angústia. Saber chorar por e com os outros: isto é ser cristão. “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”: Fome e sede são experiências muito intensas. Os cristãos deveriam desejar a justiça com esta mesma intensidade. A justiça que Jesus propõe não é como a do mundo, manchada por interesses mesquinhos e pela corrupção.

“Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Seu resumo é a regra de ouro: “o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles” (Mt 7,12). “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36-38). Jesus não diz “felizes os que se vingam”. Olhar e agir com misericórdia: isto é ser cristão. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sam 16,7). Quando o coração ama a Deus e ao próximo (Mt 22, 36-40) então pode ver a Deus. Mantê-lo limpo de todos os sentimentos e ações que mancham o amor: isto é ser cristão.

“Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”. O mundo dos boatos é feito por pessoas que se dedicam a criticar e destruir, essas são inimigas da paz. Aos promotores da paz, Jesus garante: “serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Sempre que tivermos dúvidas acerca do que fazer, “procuremos aquilo que leva à paz” (Rom 14,19). A paz de Jesus não exclui ninguém. Semear a paz ao nosso redor: isto é ser cristão.

“Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu”. Se não queremos afundar na mais obscura das mediocridades, não busquemos uma vida cômoda. Quando Jesus fala de sofrimento, está se referindo às perseguições. Haverá felicidade, quando, “mentindo, disserem todo o gênero de calúnias contra vós, por minha causa” (Mt 5,11). Assumir o Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é ser cristão. 

Tomar decisões movidos pelo amor, nunca por sentimentos negativos e destruidores. “Não podemos votar com o coração cheio de ódio, nem pensando que vamos mudar o Brasil de uma hora para outra: não existem salvadores da pátria, mas uma democracia que precisa ser permanentemente construída” (Dom Leonardo Steiner, CNBB).

“O homem prudente age com discernimento. O insensato põe em evidência sua loucura” (Prov 13,16).

Discernir exige assumir a responsabilidade com as consequências. Diante de ameaças de danos sérios ou irreversíveis, a prudência é a mais importante das virtudes. Deixar-se levar apenas pela emoção é irresponsabilidade. Está em jogo o destino das gerações futuras. É imoral ser imprudente. Apaguemos as flechas incendiadas do maligno (Ef 6,16).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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