;
Religião

12/10/2018 | domtotal.com

O Senhor olhou para a pequenez de sua serva

Celebrar uma festa mariana é perceber o amor gratuito de Deus que escolhe os pobres e pequenos para realizar seu projeto salvífico.

Maria se esvazia de orgulho, de pretensões, para ser a humilde servidora.
Maria se esvazia de orgulho, de pretensões, para ser a humilde servidora. (Reprodução/ A12)

Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

Estamos no contexto da Festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida. A história do aparecimento dessa imagem, em 1777, na pesca do rio Paraíba, é bastante conhecida por todos. Desde então, são muitos os devotos que acorrem à proteção da Mãe de Jesus sob o título de Nossa Senhora Aparecida, com especial afeição e veneração. Celebrar uma festa mariana é perceber o amor gratuito de Deus que, na contramão de nossas lógicas triunfalistas e de poder, escolhe os pobres e pequenos para realizar seu projeto salvífico. É assim que Deus se revela: escolheu um pequeno povo, escravo no Egito, o amou e o libertou, fazendo dele luz para as nações; no meio desse povo, escolheu pessoas simples para guiá-lo, contando com suas (in)capacidades; seu Filho nasce no meio da pobreza extrema e os primeiros a receberem tal anúncio são os desprezados pastores de ovelhas; Jesus chama, para ser colaboradores de sua missão, gente simples, de profissões humildades e desprezadas pela sociedade de então; Ele também senta com os pecadores, acolhe as crianças, toca nos leprosos; são das desprezadas mulheres as primeiras a acolher o anúncio de sua ressurreição... Deus escolhe os pequenos para manifestar seu plano de amor.

Leia também:

Foi assim também com Maria: mulher jovem, pobre, de uma aldeia insignificante da Galileia. E ela continua sendo sinal da misericórdia de Deus pela vida de autêntica discípula de Jesus através da escuta, meditação e prática de sua Palavra (cf. Lc 8,15). Algumas dessas características que podem ser contempladas na imagem de Nossa Senhora Aparecida devem ser lugar de inspiração para nossa vida e missão. Gostaríamos de refletir somente um pouco sobre o contexto do seu encontro, seu tamanho e sua cor.

No que se refere ao primeiro elemento, a imagem foi encontrada por gente simples, pescadores que buscavam incansavelmente sobreviver do seu trabalho. São os pobres e humildades que tem a alegria de encontrar a imagem daquela serva humilde que manifesta as preferências de Deus. Como na Escritura, Deus escolhe os pequenos para se manifestar e conta com eles para realizar seu plano amoroso. Tal lógica não encontra muito espaço em nossos meios. Estamos muito acostumados a buscar a lógica que põe os grandes em primeiro lugar e exclui os pequenos. Deus, ao contrário, se coloca na mesa dos pobres, caminha com eles e os põe como sinal do mundo novo que há de vir. Não por acaso, Jesus apresenta o cuidado com os pobres e excluídos (cf. Mt 25,31-46) como “protocolo com base no qual seremos julgados” (Papa Francisco, Via Sacra JMJ Cracóvia, 2018).

Quanto ao segundo elemento, o tamanho, parece-nos significativo falar de uma imagem pequena e o quanto isso deve representar para cada um de nós. Maria mesma no seu hino Magnificat diz que o Senhor “olhou para a pequenez de sua serva” (Lc 1,48). Maria é a serva humilde e pequena para quem o Senhor olhou e escolheu a fim de contribuir no seu plano de salvação. É porque Maria se esvaziou de toda pretensão e orgulho que pode ser cheia da graça de Deus, tal como aparece na saudação do anjo para anunciar sua missão de ser a mãe do Salvador (cf. Lc 1,28). Diante de missão tão importante, Maria não se enche de pretensões, mas, na humildade e pequenez de quem se faz serva (cf. Lc 1,38), vai ao encontro da parenta Isabel, colocando-se a seu serviço (cf. Lc 1,39-45).

Esse serviço, Maria o realiza na alegria de quem tem consciência de que tudo o que é, recebeu do Senhor como dom, como graça, algo que não se guarda para si mesmo, mas se destina sempre ao bem do outro. Assim é Maria, a Mãe de Jesus: ela se esvazia de orgulho, de pretensões para ser a humilde servidora. Assim deve ser a Igreja que tem Maria como Mãe e Modelo: ser a servidora da humanidade, sabendo que o dom mais precioso que recebeu (continuar a missão de Jesus) não é para si mesma, mas para que a humanidade sinta cada vez mais o quanto Deus a ama e a quer conduzir pelos caminhos da salvação através de Jesus Cristo.

Outro detalhe que nos chama a atenção na imagem de Nossa Senhora Aparecida é sua cor. Ela tem a cor da nossa gente, ela é como nós. Mais uma vez se expressa a bondade e benevolência de Deus que caminha longe das pretensões humanas de grandiosidade e pompa. Ele escolheu numa região marginalizada, numa aldeia insignificante do ponto de vista político e econômico, uma mulher jovem, humilde, simples e trabalhadora para ser a mãe de Jesus, nosso Salvador. É essa mulher simples do povo quem proclama, profeticamente, que Deus “demonstrou a força do seu braço, dispersou os orgulhosos, derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou” (Lc 1,51-52). Maria se faz solidária com todos os pobres e sofredores e nos ensina que a vida do verdadeiro discípulo implica no andar com Jesus colocando no centro aqueles que estão à margem da sociedade.

Vivemos num mundo desigual, mundo de injustiça e miséria. Esse não é o plano de Deus para nós. Deus quer o mundo da justiça, mundo do amor e da fraternidade, como sinal do seu reino definitivo. A Igreja que encontra em Maria sua Mãe e Modelo deve fazer o caminho das escolhas de Deus e se aproximar cada vez mais dos pequenos e humildes, dos caídos à beira do caminho, dando-lhes consolo e esperança, cuidando de suas feridas e ajudando-os a se levantarem. Pelo serviço a estes, seremos sinais de transformação e vida que o mundo tanto precisa.

  Essas três características nos mostram que toda devoção a Maria nos leva a realizar, em nossas vidas, a vontade de Deus. Portanto, quem é devoto de Maria, caminha, com ela, nos passos de Jesus. Ela mesma nos diz: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Ela é a primeira e mais perfeita discípula de Jesus, disponível para Deus, disposta a servir a todos: vendo seu exemplo e testemunho, peçamos a graça de também nos esvaziar de toda e qualquer pretensão e orgulho para colocar os dons que o Senhor nos concede a serviço de todos e possamos ser os agentes de luz e transformação que o mundo tanto precisa. Maria, a Mãe Aparecida, nos inspire nessa caminhada!

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte-CE. Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) e professor de Teologia Sistemática da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas