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Religião

12/10/2018 | domtotal.com

A devoção mariana e a práxis cristã

A devoção mariana deve inspirar o agir materno da Igreja.

Na devoção mariana podemos perceber a resistência dos pobres que em meio às angústias, vitórias e lidas, acredita que Deus não os deixou sozinho.
Na devoção mariana podemos perceber a resistência dos pobres que em meio às angústias, vitórias e lidas, acredita que Deus não os deixou sozinho. (Reprodução/ A12/ Thiago Leon)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

A Igreja sempre olhou para Maria como modelo de Mãe e Mestra. Mãe em sua ternura, no seu modo de acolher a Palavra de Deus e deixa-La fazer-se carne em seu seio (cf. Jo 1,14). Mestra na obediência à vontade do Pai (cf. Lc 1,38) e na prontidão missionária. O Concílio Vaticano II diz que Maria é “imagem” exemplar da Igreja. “Como Maria, a Igreja também deve ser Mãe e Virgem: Mãe, porque a Igreja também deve gerar novos filhos; Virgem, porque a Igreja também deve guardar-se ‘íntegra’ para o seu esposo” (LG, n. 67).

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A devoção mariana deve inspirar o agir materno da Igreja. Como nos lembra o Papa Francisco: “É fundamental a proximidade da Igreja. Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe… dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta”. Neste sentido podemos afirmar que a devoção mariana com sua diversidade de títulos e invocações tem algo em comum que é lembrar à Igreja esse seu modo materno de ser.

Sendo mãe, Maria não fica indiferente diante da dor e do sofrimento de seus filhos. Ao contrário, Ela é a mulher da prontidão, apressada no servir (cf. Lc1, 38-45). Apressadamente: não é só a velocidade com que Maria anda, mas a atenção cuidadosa com a qual enfrenta a viagem, o seu entusiasmo em cuidar de alguém que exigia a sua presença. Na pressa de Maria reconhecemos a urgência missionária da Igreja. Ela, que tão logo recebeu a visita do Anjo, sentiu-se “cheia” da graça do Espírito Santo e saiu apressadamente para visitar sua prima Isabel que, já idosa, precisava da sua ajuda. Lucas narra a alegria da presença de Maria entrando na casa de uma idosa necessitada. Isabel, repleta do Espírito Santo e emocionada, exclamou: Bendita és tu entre as mulheres e Bendito é o fruto do teu Ventre! Como mereço que a mãe do meu Senhor venha me visitar? E até a criança pulou de alegria no ventre de sua mãe. Nota-se que não foi o discurso de Maria que encantou Isabel, foi simplesmente a sua presença gratuita e amorosa. Ainda hoje, as pessoas também se alegram com a nossa presença; através de nossa visita gratuita, elas sentem-se visitadas pelo próprio Deus que cuida com carinho e jamais abandona o seu povo.

Este amor apressado é característico de quem descobriu que em relação ao outro estamos sempre atrasados. Pois não sou eu quem dito o momento de começar e quando parar de amar, mas a necessidade do outro. Quem ama toma a iniciativa, antecipa, chega primeiro. Não foi assim também nas bodas de Canaã? (cf. João 2, 1-12). Ainda não tinha chegado a hora de Jesus, mas Maria se apressa, porque eles não tinham mais vinho, e Jesus realiza o milagre, devolve a alegria, a esperança e a vida. A exemplo de Maria, a Igreja também é chamada a “a primeirear [...]. A tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos (Papa Francisco. EG, n. 24).

Quando contemplamos, por exemplo, a imagem de Nossa Senhora Aparecida que foi encontrada no rio, percebemos o quanto a devoção a Nossa Senhora se identifica com a luta dos pobres e sofredores: uma imagem de barro frágil, escurecida pelas águas, envelhecida pelo tempo, quebrada em duas partes, fazendo-se solidária com tantas vidas “quebradas” pela dor do preconceito, da injustiça e da maldade humana. Maria não se envergonha de ter a cor dos negros, a condição dos escravos e de se colocar em defesa de suas vidas. Na simples Imagem de Negra Cor podemos ouvir a voz da profecia de Maria, a pobre de Nazaré que canta a libertação que Deus traz a humanidade, porque nela o SENHOR operou maravilhas (Lc 1,46-55). Maria é, portanto, símbolo do Deus que acolhe o pobre e o fraco, que assume a causa dos sofredores. Assim como Maria, nós também queremos ser essa Igreja solidária na luta dos pobres e injustiçados, uma Igreja com o coração de mãe que acolhe e se faz próxima das periferias humanas e geográficas.

Na devoção mariana podemos perceber a resistência dos pobres que em meio às angústias, vitórias e lidas, acredita que Deus não os deixou sozinho. Pelo contrário, ao se dignar nascer de uma mulher (cf. Gl 4, 4-5), o Filho amado do Pai nos deu uma Mãe que cuida e intercede por cada um de nós. Como canta o Ofertório Negro: “Trazemos no peito os santos rosários, rosários de penas, rosários de fé na vida liberta, na paz dos quilombos de negros e brancos vermelhos no sangue.  A Nova Aruanda dos filhos do Povo acolhe Olorum!”

Nota-se que, como Igreja, ainda precisamos aprender muito de Maria em nossa práxis cristã. “Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela é a serva humilde do Pai, que transborda de alegria no louvor. É a amiga sempre solícita para que não falte o vinho na nossa vida. É aquela que tem o coração trespassado pela espada, que compreende todas as penas. Como Mãe de todos, é sinal de esperança para os povos que sofrem as dores do parto até que germine a justiça. Ela é a missionária que Se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os corações à fé com o seu afeto materno. Como uma verdadeira mãe, caminha conosco, luta conosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus” (Papa Francisco. EG, 286).

Que a nossa devoção mariana possa inspirar todo o nosso agir, a fim de que sejamos uma Igreja mais próxima e solidária, comprometida com a causa dos pobres e sofredores. Uma igreja que canta a esperança e a utopia. Uma Igreja profética que não se cala diante da opressão dos poderosos. Que a Virgem Santa Aparecida, profetiza do tempo novo, jubileu da plena vida, cantora da liberdade cubra com teu manto santo, a todos nós, seus filhos e filhas.

*Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN, Missionário Sacramentino de Nossa Senhora, Licenciado em Filosofia (ISTA), bacharel em teologia (FAJE), com Especialização para Formadores em Seminários e Casas de Formação (Faculdade Dehoniana). Publicou pela Editora O Lutador (2015) o livro “Equipes Missionárias: rosto de uma Igreja em missão”. Trabalha atualmente na Paróquia Santa Cruz, Alta Floresta-MT.

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