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Religião

12/10/2018 | domtotal.com

Maria do 'sim' subversivo

E é na periférica Nazaré da Galileia que Deus encontra uma jovem mulher pobre para levar a termo seu plano de salvação.

Os cristãos e as cristãs são convidados a se espelharem na postura reflexiva e no corajoso “sim” de Maria que denuncia a lógica de maldade do mundo e anuncia a força do bem.
Os cristãos e as cristãs são convidados a se espelharem na postura reflexiva e no corajoso “sim” de Maria que denuncia a lógica de maldade do mundo e anuncia a força do bem. (A12/ Thiago Leon)

Por Tânia da Silva Mayer*

A lógica da fé não é a mesma lógica do mundo. E conforme avança a inteligência da fé na tarefa de dar razões da esperança, fica mais claro o caráter revolucionário da história da salvação, isto é, a história de Deus com suas criaturas em vistas da mais vida para elas. Embora muitas pessoas tenham manipulado a fé ao longo das épocas, as narrativas evangélicas, sempre que proclamadas, manifestam estar na contramão dos poderes e poderosos do mundo. Isso porque a eleição de Deus privilegia aquelas pessoas e grupos que são colocados à margem pelos sistemas da sociedade. E isso pode ser percebido quando percorremos as narrativas do antigo e do novo testamentos. Por exemplo, o filho da promessa nasceu de um casal estéril e idoso; o profeta a cargo da libertação do povo da terra do Egito tinha muitas dificuldades para falar, como pôde transmitir a palavra de Deus a toda a gente? Um rude pescador foi chamado para lançar as redes do evangelho para atrair outras pessoas para o Reino. Outros tantos exemplos poderiam ser trazidos aqui para mostrar como Deus age na vida do seu povo contrariando as expectativas mundanas.

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Na esteira das surpresas presentes no plano da salvação de Deus, está a eleição de uma jovem simples da Galileia para o posto de mãe do salvador. A escolha de Deus é revolucionária porque não busca colaboradores entre os notáveis de Jerusalém, cidade símbolo do poder religioso e social do mundo bíblico, mas vai às periferias procurar aqueles que se prontificam em acolher e difundir o Reino de amor, paz e justiça. E é na periférica Nazaré da Galileia que ele encontra uma jovem mulher pobre para levar a termo seu plano de salvação. Note-se que as mulheres do tempo de Maria contavam com uma ideologia patriarcal que as colocava numa posição inferior a dos homens. Isso porque se compreendia que elas estariam ligadas a Eva, por meio de quem se acreditava o pecado ter entrado no mundo. Uma visão bastante preconceituosa e que contribuía para uma sociedade que depreciava todas as mulheres. Por isso, elas não gozavam de nenhuma credibilidade e precisavam ser tuteladas por um pai, um marido ou filho para terem suas existências reconhecidas. É mesmo admirável que Deus tenha querido contar com a ajuda de uma jovem periférica para consumar seus projetos!

Lucas nos relata que o anjo do Senhor se dirigiu à Maria saudando-a por ter sido eleita pelo favor de Deus para ser a mãe de seu Filho, o messias esperado pelo povo de Israel. Diante ao anúncio de origem divina, cabe ressaltar duas posturas que Maria assume e que são importantes para mulheres e homens de fé hoje. A primeira atitude de Maria é ouvir e compreender o que está sendo proposto. Ela não se envaidece ou se apressa com a saudação recebida, antes, ela procura entender o que a mensagem significa e quais significados maiores ela apresenta. A segunda postura de Maria se assemelha com aquela do sacerdote Zacarias (Lc 1,18) que não entendendo a mensagem do anjo pede maiores sinais de como a promessa feita da parte de Deus irá acontecer. Maria também pergunta ao anjo como irá se tornar mãe se ainda é virgem (Lc 1,34), mas, diferentemente de Zacarias, não pergunta desacreditando da viabilidade da proposta de Deus, mas querendo tomar parte e se tornando inteiramente disponível para colaborar nessa empreitada divina. E isso fica evidente na declaração afirmativa da jovem pobre de Nazaré: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim o que disseste”.

Como podemos notar, tanto a eleição de uma marginal da sociedade israelita, isto é, aquela que está à margem, excluída, quanto a adesão desta ao irreverente projeto de Deus são subversivas e mostram como tudo o que o mundo considera como certo é colocado em segundo plano no Reino. Por isso, é importante ler o “sim” de Maria a partir de outras lentes mais ajustadas ao seu testemunho. Historicamente, ela foi compreendida como a mulher do silêncio, que guardava tudo no coração e que a tudo aceitava passivamente. Os propagadores da fé construíram uma imagem pacata da jovem mãe de Jesus. Mas as narrativas bíblicas a mostram numa atitude espiritual de radical colaboração com Deus e com o próximo. Por isso, o seu “sim” é retomado em forma de cântico (Lc 1,46-55) que louva a ação de Deus em favor dos marginalizados do mundo e compromete à luta por outro mundo possível, no qual os poderosos, os ricos e os soberbos são descartados com seus projetos maus, no qual Deus conta com a ralé excluída para levar adiante seus planos.

No atual cenário social brasileiro bate à porta o projeto do antirreino que espera a adesão daqueles que são interpelados pelo Evangelho a se posicionarem contrariamente a tudo que ameace a paz social e que se fundamente no poder das armas, da violência e do desrespeito para com o outro diferente. O “sim” de cada cristão e cada cristã deve ser dado hoje ao Reino de Deus que promete, ainda para esse mundo, um pouco mais daquela vida plena e abundante que será dada quando um Novo Céu e uma Nova Terra forem instaurados definitivamente. Os cristãos e as cristãs são convidados a se espelharem na postura reflexiva e no corajoso “sim” de Maria que denuncia a lógica de maldade do mundo e anuncia a força do bem que tem forças para superar, por meio da paz e da justiça, os problemas mais difíceis que enfrentamos. Mais que aderir a um plano político é urgente escolher e lutar para que tudo o que foi conquistado até aqui não venha a ruir com a covardia de quem se apega às falsas seguranças de messias enganadores. Oxalá também sejamos capazes de subverter a lógica do mundo da maldade e contribuir para que a vida seja garantida para todos, sem discriminações.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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