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Religião

12/10/2018 | domtotal.com

No Vaticano, sínodo denuncia 'totalitarismo camuflado'

'Há totalitarismos camuflados que impõem falsos silogismos na atualidade', dizem os padres sinodais.

Na sexta e sétima sessões do sínodo dos bispos para os jovens, realizadas esta semana, bispos falaram sobre populismos e totalitarismos.
Na sexta e sétima sessões do sínodo dos bispos para os jovens, realizadas esta semana, bispos falaram sobre populismos e totalitarismos. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Para os participantes do sínodo dos bispos para os jovens, iniciado no dia 3 de outubro, no Vaticano, a Europa está em perigo. Desta vez, não se falou da preocupação com um iminente ataque terrorista do Estado Islâmico. Nesta semana, os padres sinodais dizem estar preocupados é com as novas tendências políticas de caráter populista; algo que, segundo eles, “ameaça a integridade europeia”.

E não foram somente os participantes da reunião que trouxeram o tema para o centro do debate. O próprio Papa Francisco, durante encontro com os jovens, realizado na semana passada, disse que tais movimentos “estão na moda” e reiterou que “o populismo se fecha em um único modelo: ‘estamos fechados, estamos sozinhos’.”

A imprensa italiana interpretou a afirmação do papa como um ataque direto ao ministro do interior italiano, Matteo Salvini, e sua política anti-imigração. O próprio slogan de campanha da Lega, o partido do ministro, faz alusão à proposta de restringir o acesso de migrantes, cuja maioria provém da África: Prima gli Italiani - Primeiro os italianos. Além disso, Salvini, que também é vice-chanceler do país, tem se envolvido em uma série de polêmicas nas redes sociais. Em abril deste ano, no dia nascimento de Benito Mussolini, ele postou uma frase de autoria do alemão Georg von Frundsberg, posteriormente adotada pela propaganda fascista nos anos 20: Tanti nemici, tanto onore - Tantos inimigos, tanta honra. Em razão desse tipo de postura, o político tem sido chamado de “fascinacionalista” por alguns de seus conterrâneos.

O arcebispo de Luxemburgo e presidente da comissão das conferências episcopais europeias, Jean-Claude Hollerich, disse estar profundamente preocupado com os populismos que compõem o atual cenário político europeu. Segundo ele, é a solidariedade e a atenção aos pobres que irá minar o crescimento desse levante ideológico.

“Se eu digo, por exemplo, que estou preocupado somente com a felicidade dos luxemburgueses, quer dizer que não estou preocupado com as outras pessoas. Se, na Igreja, ajudamos os mais fracos e os mais marginalizados, então, preveniremos os populismos”, salientou.

Sem se referirem diretamente aos protagonistas desse movimento, alguns dos padres sinodais fizeram questão de alertar, com clareza, sobre os riscos dessa onda de viés fundamentalista. O cardeal Carlos Aguiar Retes, arcebispo da cidade do México, disse que há totalitarismos, na atualidade, que ganham força nas redes sociais. De acordo com ele, esses “novos totalitarismos”, como classificou, têm influenciado sobretudo a juventude.

“Os totalitarismos em campo político e econômico são sempre uma tentação dentro da sociedade; estão na ‘esquina’ da sociedade [...] Os totalitarismos políticos existem, têm existido e continuarão aparecendo na história da humanidade”, ressaltou.

Na Europa, e em várias partes do mundo, têm se evocado, com naturalidade, ditadores e torturadores considerados “bem-intencionados”, na tentativa de demonstrar que tais pessoas, em determinado momento da história, “agiram bem” ao eliminarem, de maneira brutal, os seus oponentes. De repente, o fanatismo e uma espécie de maniqueísmo político-religioso roubam o espaço da disputa saudável que deve - ou deveria - se destacar dentro do processo democrático.

E, com razão, a Igreja tem que se preocupar. Na Venezuela, Nicolás Maduro disse se considerar o “Stalin do Caribe”. No Brasil, o candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro, durante sessão para a decisão do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. De repente, as figuras mais temidas das ditaduras e dos regimes totalitários recebem o aval para integrar o discurso político.

Mussolini disse uma vez que não foi ele quem criou o fascismo, mas o fascismo “já estava na alma dos italianos”. Uma afirmação que nos leva a refletir, olhando para quadro atual: há um espírito bélico popular que tem contribuído com a ascensão dessas figuras? Em meio ao caos e à instabilidade, que tipo de líderes temos construído ao longo dos anos?

O que é o populismo?

O populismo caracterizou-se como um movimento cultural e político, iniciado na Rússia entre os séculos XIX e XX, cuja proposta consistia em uma série de atividades de propaganda e proselitismo voltadas para o povo a partir de uma ação revolucionária direta. Do ponto de vista ideológico, a palavra esteve alinhada, inicialmente, aos princípios e programas do socialismo, exaltando o povo como depositário dos valores positivos. Atualmente, o termo é aplicado em toda e qualquer realidade - independente do espectro político - na qual se observa a ascensão de um líder carismático que desponta como alguém capaz de corresponder aos anseios das massas.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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